Romildo Sant'Anna
Escritor, livre-docente e comentarista da TV TEM, de maio de 2003 a dezembro de 2009. Publicou 8 livros (um traduzido em castelhano) e realizou atuação e direção teatral, roteiro e direção de cinema. Em TV, trabalhou na Rede Globo Noroeste Paulista (comentarista, 1987) e Rede Vida de Televisão (produção, 1995-1997). Entre outros, recebeu os prêmios "Casa das Américas" (Havana) e revelação do "Prêmio Governador do Estado de São Paulo". É patrono da Cadeira no. 1 da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura. Articulista do portal www.tripov.org (ciber/arte-ciber-/deias - Lisboa)

Publicado em: 29/01/2010

VELHA ESTAÇÃO

 

 

 

 

 

 Fotos: Romildo Sant'Anna

 

   

 

Sinto uma coisa por dentro ao ver a velha estação. No embaçado dos tempos que se foram, vislumbro nossa mãe embarcando em busca de recurso, fraca do coração.  Nos meses seguintes, e quando a saudade era tanta, recostava-me no pilar junto ao qual vivenciamos os minutos em contagem regressiva. Inda ouço o apito doído do agente de tráfego num paletó de fantasma sentenciando a partida. No enfim, a luz chocha do último vagão sumindo na curva e um tuntatá vibrando no peito e triscando nos olhos. Imaginava: noite alta, fariam baldeação para o trem elétrico e, dali em frente, o cheiro amargoso de fio queimado a impregnar de escuro as armações ovais da Estação da Luz.

 

 

Naqueles tempos, tantos dormentes e trilhos de aço amolecidos de esperanças entrecruzavam destinos: os da Paulista, a Sorocabana, a Central do Brasil, a Mojiana e os da Santos-Jundiaí... Da Noroeste partia o Trem da Morte a serpentear os charcos mato-grossenses de encontro à Bolívia. Dali, o entroncamento para Cuzco e a misteriosa cidade incaica nas lonjuras peruanas. Almir Sater e Renato Teixeira poetizaram o percurso: "Enquanto este velho trem atravessa o Pantanal, só meu coração está batendo desigual. Ele agora sabe que o medo viaja também sobre todos os trilhos da terra!".

 

 

 Por uma ou outra história de vida, imagens de antigas gares se amalgamam em nosso peito. Sinalizando a chegada do progresso, tais edifícios, com suas marquises encobrindo as plataformas, galpões de mercadorias, bilheteria, armazéns e escritório telegráfico constituíam fortunas comunitárias de dimensões que superam a materialidade. Ontem, a agitação polifônica de cores, sonhos e vozes em vindas e arribações; hoje, o ermo enlutado do vazio só interrompido pelo rumor dum comboio de cargas. No mais, o voo incisivo e cego dum morcego, e o passo lento e oblíquo dum bicho sem dono.

            

 

Fernando Brant e Milton Nascimento, com singelo lirismo, registraram em música a correlação entre as estações ferroviárias e nossa passagem pelo mundo. Desnudam nosso ir e vir não só no espaço, mas nos solavancos do tempo: "E assim, chegar e partir, são só dois lados da mesma viagem. O trem que chega é o mesmo trem da partida. A hora do encontro é também despedida. A plataforma desta estação é a vida desse meu lugar, é a vida desse meu lugar, é a vida...".

 

 

  

     

    

 

 

 Por que a desestima a nossos bens tão preciosos? Há 150 anos, éramos brasileiros europeizados e europeus relutantes em se abrasileirar. Mas faz tanto tempo! Cadê o autorrespeito? Ante o estado de desolação desses edifícios, a omissão das autoridades que, de joelhos nos ritos do agora, abandonam tais patrimônios em condições deploráveis, quiçá a enunciar nas paredes encardidas dolentes perguntas: que desvario, que toscos sentimentos, em que labirintos da inteligência, que estranha libido incita os humanos a descarrilarem de suas próprias sendas, largando ao léu as matulas do passado? Que descaminhos, que desfavor ao porvir! Sinto uma coisa por dentro ao ver a velha estação.

 

 

 

 

  

        

 

 

 

 

 

 

Publicado em: 27/12/2009

ACERCA DUM SINGELO LOGOTIPO

 

 

 

 

 

 

Alguns logotipos, para além da praticidade do mundo, se mesclam de sentidos poéticos.  Fundindo letras, desenhos e cores, conduzem os designers à dimensão criativa dos grandes estetas. Em O homem e seus símbolos, com ensaios de Carl G. Jung e discípulos, uma leitura de antigo logotipo da Volkswagen o redimensiona ao nível das expressões artísticas contemporâneas: o "V" e o "W", na famosa circunferência que emoldura a marca, são preenchidos por carrinhos de brinquedo. Isso explicaria, na linha junguiana, o zelo desmesurado que têm os adultos com seus estimados automóveis. Ao adulá-los, sacralizamos a infância perdida no deliciante mundo do faz de conta.

 

 

 

  

 

 

 fonte: Man and his Simbols, de Carl G. Jung

 

 

 

 

Ofereço essa introdução para comentar o logotipo do Hospital da Criança de Rio Preto. É  possível visualizá-lo no portal www.hospitaldacriancariopreto.com.br  -- que integra a extraordinária campanha liderada por pessoas de espírito fraterno e que têm, na liderença, uma guerreira: a psicóloga e advogada Bia Lourenço. Nestes tempos de Natal, há uma tensão parada no ar: agora que o hospital está quase pronto, quem seria o pai da criança?  Que DNA da virtude o concebeu? Como reza antigo Sermão celebrado no topo duma montanha, ao ajudar o próximo, que ignore a mão esquerda o que fez a direita. E, os que as conhecemos, não são louros lucrativos e mundanos que inspiraram tais pessoas a lutarem por um Hospital da Criança.

 

 

 

 

 

 

 

Desconheço a autoria do logotipo em foco.  É um primor em síntese e, por sua leveza, nos conduz à atmosfera lúdica da inocência. Duas formas verticais em perspectiva, uma grande, outra pequena, insinuam as representações de um adulto e um pequerrucho. Recorrem a imagens do ser humano estilizado: corpo e cabeça, matéria e espírito. Tal encadeamento gráfico é abraçado e, ao mesmo tempo, cortado por um gracioso círculo em diagonal, enunciando as formas de um "C". Assim, interagindo no espaço, configuram-se "H" e "C": Hospital da Criança. Pari passu, sugere a ação protetora dos "grandes" (adultos, em primeiro plano) em relação aos "pequenos". Ligam-se; religam-se. Ademais, nessa sintaxe complexa de letras, formas e espaço em branco, o entrelaçamento de "H" e "C", nas colorações brandas do azul e rosa, universaliza, nos códigos correntes, a representação que integra os princípios ancestrais (sem distinção de sexo) de masculinidade e feminilidade.  Bravo!

 

 

 

 

 

 

Criança é pureza, o estado antecedente à falibilidade humana. É nossa imagem, embrionariamente. Em todas as épocas e lonjuras, ampará-la para uma vida sã e feliz é gesto de preservação e busca da paz. Protegê-la é cultuar um tempo mítico em que todos os sonhos podem ser sonhados. Por isso, o mal que se faz à criança, ou a intenção de tirar-lhe proveito, soam como um sacrilégio ou pecado de lesa-humanidade. Sou testemunha de que, para além das vaidades e dos lucros passageiros, pessoas de fina cepa e de belíssimos propósitos se reuniram e lutaram em prol dum fato que parecia inatingível: o Hospital da Criança. E tal atmosfera de generosidade se patenteia (mais do que num certificado de marcas e patentes) nesse poético e singelo logotipo. Ele retrata e, ao mesmo tempo, é o retrato.

 

 

 

          

 

 

Publicado em: 14/12/2009

 

 

crônica para os corações solitários

em época de natal

 

 

 

 

 

 

"Se te queres matar, por que não te queres matar?

Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,

Se ousasse matar-me também me mataria...

Ah, se ousares, ousa!"

 

           

 

  "Lisbon Revisited" - Fernando Pessoa

 

 

 

 

  

 

Cézanne - Autorretrato

 

 

 

 

Só, só duas letrinhas: um ruído sibilante e uma vogal aberta.  Pode ser adjetivo, advérbio e substantivo, ou exprimir exclamações, como quando a moçada se harmoniza em concordância: "Só, bicho, só!".  Há certo tom de gravidade existencial e filosofia, certa infusão perturbadora nessa palavra, cê não acha?  O só, mesmo que negando alguma coisa, é sempre afirmativo, lacônico, arrebatador, esgota-se em si mesmo.  Em dadas situações, é o dizer não dizendo, numa espécie de contorcionismo verbal.  Diz a mocinha seduzida e ingênua ao conquistador velhaco: "Cê casa comigo?" Ao que ele responde: "Só!".

 

 

   

 

    

 

        Paul Klee - Autorretrato

 

 

 

  

Parece que, na significação do irrisório vocábulo, há um lastro de restrição, desamparo, ironia, solidão e desajuda.  É o camarada "sozinho"; é sicrano "apenas"; é o zé-ninguém "isolado"; é fulano "desacompanhado"; é o companheiro "único"; é o beltrano "somente"; é o presidiário de cor, "solitário e indefeso".  Tal palavra agrega-se a outras, gerando a ideia de alguém em êxtase místico, como na enigmática letra de Renato Teixeira: "é de sonho e de pó, o destino de um só".

 

 

 

 

 

 

 

      

 

Portinari - Autorretrato                           Almada Negreiros - Autorretrato

 

  

 

 

Numas vezes o só se pluraliza para restringir a dois a sozinhez: "falar a sós".  Noutras, atravessa na consciência de quem fala e de quem ouve um ar indefinido de dor e deserção: "ele habita a sós no seu mundo".  Existe tragédia maior?  Há ocasiões ainda em que funciona em noções comparativas, tão depressivas que a infeliz comparada é o espelho de si mesma: "ela é linda que só ela".  E assim, por demais graciosa e delicada, ficou só, como uma flor que ninguém viu e murchou.

 

 

 

 

 

 

 

     

 

Frida Kahlo - Autorretrato                             Gauguin - Autorretrato

 

 

 

 

Diz a galera que um gol é "só alegria".  E, sendo só uma coisa, e por causa disto não podendo ser outra, torna a vida enfadonha, repetitiva.  Gol, ou qualquer gozo, que é só prazer, traz a sensação de quero mais, de fome não saciada, compulsivamente.  Com o passar do tempo, deixa na gente "só tristeza e a melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sai...", como nos versos de Vinícius em "Chega de Saudade". 

 

 

 

 

 

 

     

 

Tarcila do Amaral - Autorretrato                           Monet - Autorretrato

 

 

 

 

  

A agonia de ficar só é a sina dos amores mais sonhados. O só é o demais mentiroso, superlativo irônico da alegria e da aflição: "ele ganha só um milhão por mês!" que, entre nós, coloca o aquinhoado entre os muros de si, na competição consigo de ter mais do que já tem. Antônio Nobre, simbolista lusitano, definhou na construção duma única obra: "Só".  Fez para si uma imaginária e narcísica torre de marfim (talvez o mergulho sem volta no abismo de seu próprio livro), e lá, só, no emaranhado patético dos pensamentos torpes, vivenciou a morte até morrer.

 

  

 

 

 

         

 

        Picasso - Autorretrato

 

 

 

  

Isso posto, requisita-se que o telegráfico só, o anêmico só, o melancólico só, o antiético só, deve ser banido dos dicionários das virtudes. Tem parentesco com o falecimento de todos os órgãos, que é o só mais solitário e diferente de tudo que existe, sem público, sem flórida, sem pêndulo, sem ênfase, sem vodka, sem antídoto. Análise sem síntese, só lágrima.

 

 

 

 

 

   

                                              

                           Max Ernest - Autorretrato                                

 

 

 

 

 

        

 

       van Gogh - Autorretrato

         (esse preferiu o beleléu antes da hora)

 

 

 

 

Publicado em: 13/11/2009

DONZELAS GUERREIRAS

 

 

A querida Bia Lourenço

 em sua luta pela construção dum Hospital da Criança

 

 

 

 

 

 

 

 

Donzelas guerreiras são entes lendários, feitiços insondáveis da mente.  Repassam veredas e sertões em tramas fabulosas, vagando no imaginário ou comendo o pão que o diabo amassou nas armadilhas do existir.  Não é difícil percebê-las no cotidiano, basta mirá-lo: Marina Silva, amazona da floresta; Dulce Maria Pereira, orixaguinhã dos quilombola; Heloísa Helena, voz plebeia da indignação reprimida... Fadadas ao padecimento físico ou espiritual, são castigadas por inversão dos papéis inscritos na tábua dos direitos e atributos da macheza.  Luísa Erundina foi ao topo da montanha; vergou à rudeza imperiosa dos ventos. Senhoras do destino, elas renascem continuamente, como perene e eterna é a natureza humana.

 

 

 

 

       

 

 

 

 

Nas tramas da mitologia grega, e encarnando espírito de luta, foi donzela guerreira a sábia Ateneia, deusa e protetora do mundo ateniense.  Em ancestral relato chinês, a camponesa Mulan disfarça-se de homem e substitui o velho pai no exército imperial. Intrépida, batalha pela expulsão de tacanhos inimigos.  Tal fábula inda enternece em relatos épicos, poemas líricos, cantigas de acalanto e filmes de cinema.  

 

 

 

 

       

 

 

 

 

Movida pela fé e a ouvir vozes sobrenaturais, a jovem aldeã Joana d'Arc comandou batalhas em trajes masculinos. Mudou os rumos da Guerra dos Cem Anos. Mulher-macho, não pôde dar-se em casamento, senão às juras que fizera a Deus.  Imolada, foi à fogueira por heresia e ofensa aos costumes. Mas, santificada, revive em mosaicos de nossos sonhos. 

 

 

 

 

        

 

 

 

 

Da escuridão medieval e traspassando atlânticas ondas do espaço e do tempo, circula pelos sertões brasileiros o livreto A Donzela que foi à Guerra.  Tal fábula, correndo de boca em boca, cirze uma colcha de quimeras e se remoça na mais fascinante e proibida história de amor da literatura brasileira do século 20: a de Riobaldo e Diadorim, em Grande Sertão: Veredas.

 

 

 

 

       

 

 

 

 

O romance de Guimarães Rosa é uma longa confidência de Riobaldo a um desconhecido. Previne o narrador que as coisas passadas têm a astúcia de se remexerem dos lugares. "Viver é um descuido prosseguido", suspira. Vivendo como jagunço, Riobaldo aproxima-se de um companheiro, o audaz Diadorim.  Endurecido pela rudeza do sertão, seu corpo oscila entre desejo e repulsa àquele jovem. E o coração enamora-se dele. Confessa: "Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego". Só depois de morto, e ao vê-lo sem roupas, descobre-o como uma linda donzela.  Murmura: "aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca... não sabia por que nome chamar, e exclamei me doendo: meu amor".

 

 

 

 

 

Cena da minissérie exibida pela Rede Globo de Televisão.

Direção: Walter Avancini (1985). Bruna Lombardi é Reinaldo Diadorim

 

 

 

 

O amor mais insatisfeito e submisso aos enigmas da vida é este entre ásperos cabras de peia e valentões. Inda que estranho, é universal. Fala do amor natural entre pessoas, essência filosófica da ética e religiões. Toca fundo em vivências que ultrapassam a superfície das codificações sociais.  Mostra o humano na relação afetiva com o outro.  Desmaterializada e imagem da sublimidade, pulsa em nós a idealização duma donzela guerreira, sorrateira face descrita por Carl Jung como um dos atributos da anima (alma). É o ser em estado puro, que nem sempre aceitamos, porém aceso dentro de nós.  Corpo e alma, macho e fêmea, eia, o ancestral e mais delicado dos duetos.

 

 

 

 

    

 

 

poema concreto de Pedro Xisto, realizado em 1966

(He & She) - [S = serpens; H = homo; E = eva] 

 

 

Publicado em: 26/10/2009

A PELE DA SERPENTE

 

 

    

 

 

Por mais que se escreva, é pouco para desvendar os abalos afetivos e choques de identidade por que passaram os imigrantes no crepúsculo de nossa história oitocentista. Do planalto de Piratininga, e empurrados à direita de quem desce o Tietê, os italianos eram uma legião de esperança. Em 12 anos (da Lei Áurea a 1900), desembarcaram em Santos mais de 400 mil esperançosos. Vieram com o sonho de "fazer a América". Porém, além do objetivo de esbranquiçarem o Brasil moreno, substituíram o braço escravo nas lavouras. Nas cidades, em ocupações servis, eram tachados como "carcamanos", devido à má fama de "calcar a mão" alterando a medição das balanças.

 

Vindos de aldeias pobres do Norte e Centro-sul da península, e vistos como polenteiros, suaram pra arrancar do chão o mantimento. Na guerra, a segregação os obrigava a mendigar salvo-conduto quando iam dum lugar a outro; na paz, abraçaram-se aos caboclos e se acaipiraram.  Um amigo narrou-me que a documentação do bisavô o identificava como escritor. Custou entender que, na embarcação em que chegara, era o único que sabia escrever.

 

Repasso a história que me contou Percival Tirapeli, sensível autor de livros sobre arte brasileira. (Ele mesmo traz cinzelado na face um ângulo esculpido em pedra por Aleijadinho). Convivemos muito tempo por leituras recíprocas e singelos favores sem nunca nos vermos pessoalmente. No encontro, gestos de afetuosidade só possíveis numa terra cerzida com os retalhos da ausência. Relato-a com uma tinta a mais donde ressalta o caráter desses imigrantes.

 

O nono Luigi - disse-me Percival tamborilando a mesa - está sepultado com o primo Ambrósio num lugarejo conhecido pelas águas claras; no idioma indígena, Guapiaçu. Tinha estudos, era bonito, lia jornais e alfabetizava as crianças da colônia. Prosperou com uma pequena gleba, autorizado a comprar após anos de Brasil.  Quando a nona morreu, jovem ainda, como não havia cemitério, foi sepultada em Cedral, distante da família. Por isso minha mãe, desde pequena - falou-me o amigo -, não teve quem lhe penteasse os cabelos.

 

Nos anos 40, o avô voltou à Itália pra se tratar de nó nas tripas. Reencontrou-se com os parentes e lhes trouxe o couro duma enorme sucuri. De espantoso, a pele curtida virou senha familiar.  "Que terra é essa em que se arranca toco misturado com cobra e não se tem onde enterrar a nona?".  Não houve resposta. Acrescentou más notícias: como a sobrinha estava demorando a parir, o marido deu-lhe um soco na barriga pra descer a criança. Cristina morreu.

 

Dia desses, Percival foi à Itália à procura dos antepassados. Fácil chegar a Oderzo, encostado em Treviso. Fazia graus abaixo de zero e mal distinguia, entre as indicações baralhadas na cabeça, a paisagem diluída em névoas. A casa ficava num aluvião, defronte e baldia como a estação do trem que derrama na Áustria. Bateu e uma severa senhora saiu à porta. Falou sobre o avô Luigi, mas ela quis saber da senha: "O que ele trouxe quando veio aqui?". "A pele da serpente!", respondeu.  A matrona o abraçou comovida, e limpando da vista o pó do tempo, o convidou: "Entra, filho, a minestra tá na mesa!".

 

 

   

 

 

 

 

Publicado em: 06/10/2009

MASCANDO CLICHÊS

 

 

 

 

 

  

Não sou rato de biblioteca, mas digo-lhe à boca pequena: aprecio os dicionários, pais dos inteligentes.  Acaba de sair o "Pai dos Burros - Dicionário de lugares-comuns e frases-feitas" (2009, Arquipélago Editorial), de Humberto Werneck. À guisa de prefácio, o laureado autor estabelece um diálogo franco, mas enviesado, com o leitor. Expõe que muita gente coleciona borboletas para espetá-las numa placa.  Ele, unindo o útil ao agradável, reuniu 4500 pérolas surradas da última flor do Lácio inculta e bela. Junta as peças dum quebra-cabeça. E assim, além de jornalista e escritor de estilo apurado, revela-se a bola da vez e tenta a sorte noutra fatia do mercado: a de dicionarista.

 

 

 

 

 

 

A bem da verdade, segundo Werneck, seu livro não visa a coibir abusos daqueles que, com as exceções de praxe, usam termos surrados como ornamentos de cultura e esnobação. Sem alçar voos mais altos, o "Pai dos Burros" não pretende ser um tapa de pelica ou puxão de orelhas naqueles, companheiros de infortúnio, redatores e discursistas afoitos. Pensando bem, nem os deixa em maus lençóis. Antes, e realizando na medida certa a lição de casa, os verbetes do escritor induzem a pensar sobre a quanto andamos na questão espinhosa do dizer, useiros e vezeiros da lei do menor esforço e apropriação de frases alheias e clichês.

 

 

    

 

 

 

Inda que o autor decline de afirmar, para bom entendedor meia palavra basta.  Preenchendo a lacuna que faltava, é certo que seu livro põe em xeque e faz tremer nas bases os cronistas e escrivinhadores que usam e abusam de chavões e estereótipos. E nesse rol se incluiriam também, com o devido respeito, chefes de repartições e fiéis escudeiros, animadores de palanques, letristas de pagode, ghost-writers presidenciais, nobres edis (quando conseguem discursar), eminentes jurisconsultos e autores de petições, eloquentes tribunos, paraninfos, patronos de turmas e oradores em pronunciamentos de inaugurações e em atos fúnebres.

 

 

    

 

 

 

Todos sabem que as armadilhas da linguagem são uma faca de dois gumes. Nesse sentido, o livro de Humberto Werneck pega no contrapé os redatores e falantes que fazem do lugar-comum uma cortina de fumaça em meio à qual se escondem ou, aproveitando-se da ignorância, tentam se projetar. Gesto impensado, oportunismo banal ou ingênua pretensão? Seria chover no molhado afirmar que, a par desse livro, não se esgotam as possibilidades de cairmos na vala comum dos repetidores de formas banais.

 

 

 

  

 

 

 

O escritor mineiro, como sempre, faz uma das suas e, em terreno movediço, come quieto. Seu "Pai dos Burros" supera as expectativas. Induz, dum lado, a reflexão; doutro, o pé no freio. Sem dizer, mas dizendo, traz em seu bojo a exortação à liberdade de expressão com responsabilidade. Passa ao largo das gramatiquices, suas múltiplas facetas e vetustas leis. De certo modo imperdível, e nas devidas proporções, não custa o olho da cara. Por essas e outras, é pegar ou largar. Se não, é continuar alardeando os argumentos repisados nas frases-feitas deste artigo. Sem a menor dúvida e com lágrimas sentidas. E aí, adiós baby! Com certeza.

 

   

 

 

 

 

(banco de imagens: sites da web)

  

 

 

 

Publicado em: 21/09/2009

VIDA DE CACHORRO

 

 

 

 

 

 

Dinorath do Valle. Totó Piruleta e o Menino do Povo

(Ilustração: Flávio Colin) Curitiba: Edições Criar, 1986.

 

 

De cada porta saíram dois ou três meninos com meninas misturadas.  Peguei

o Totó no colo com orgulho: "E olha só o que ele sabe fazer!".  Dei uma piruleta,

soltei o Totó, ele deu duas bem caprichadas. "O nome dele Totó Piruleta", falei.

Desse dia em diante, na lata de comida do Totó, nunca faltou resto...  (p. 15)

 

 

 

 

 

 Meu filho ganhou um singelo mimo: uma poodle saltitante e ladina, a Fifi. Sem mais nem menos, tornei-me avô. E tendo a meu lado um amigo fiel, tão raro hoje em dia, corri ao Pet Shop pra saber das novidades. De cara, levei um kit para os cães modernos: cama estampada, cobertor, vasilhas, brinquedos e, após meticulosa inquirição sobre a idade, estatura e raça do bichinho, feita por entendido em veterinária, um saco de ração.

 

Espantei-me com a rima da hora, por demais sentenciosa: cão só come ração.  Pensei: deve ser horrível passar a vida ingerindo a mesma comida. A existência definitivamente perde o gosto. Relutei em colaborar para que a Fifi se alimentasse como um triste frango de granja ou boi de confinamento cujos destinos são os matadouros. Ela, um novo ente da casa, por sinal o mais ingênuo e, por isso mesmo, feliz.

 

A variedade de rações é extensa. Vêm em sacos ornados de cãezinhos sorridentes.  Como nas bulas, fica-se sabendo que são ricas em cálcio, ácidos graxos para os pelos brilhantes, farelos de carnes, vitaminas e sulfatos. Repassei marcas, preços e eram salgados. Explicaram que se trata de produto superpremium, ultragolden. Nos envelopes de petiscos, ossinhos coloridos como nos cartuns, jamais reconhecíveis por cachorros; persuadiam os olhos e bolsos dos donos.

 

 A me ver chegar com o estranho farnel, Fifi despejou o olhar no sumidouro da meditação. Viu-se definitivamente enquadrada; pior, nas leis perversas do mercado. Se pudesse, diria que prefere mesmo é comida de gente, na lata, como os cães à moda antiga. Indaguei-me: que raios de rações são essas, as quais cachorro que se preze as abomina?

 

Rações em saco viraram um item obrigatório. No Pet Shop argumentaram que refrescam o hálito, evitam o tártaro e realçam a beleza, não sei se em nome dos fabricantes ou de um conselho tutelar dos cachorros hodiernos, imaginário, mas possível.

 

Em cada canto, um Pet Shop.  Há os delivery, para o banho semanal; outros atendem com hora marcada. Em todos, gôndolas com xampus, remédios, coleiras com pedrinhas faiscantes, agasalhos... Aplicam tosas, tingimentos, escovam dentes e, no arremate, prendem laços coloridos que deixam as fêmeas com as carinhas repuxadas; nos machos, ridículas gravatas. Fantasiam-nos, sem que eles percebam, como extensões infantilizantes de nós mesmos.

 

Parece que os cães perderam a mítica função de existirem como cães.  São adestrados para as necessidades fisiológicas em locais e horas certas, atendem a comandos complicados e se amoldam com psicólogos da fala mansa. Alguns são meio sonsos, estranham a rua e sentem falta do apartamento. Latem arredios e, às tardes, estourando de vontade de mijar, trotam à esquerda dos donos como ornatos vivos da vida atual e consumista.

 

Ah, lá se foram os cães que esnobavam o laçador da carrocinha: o vira-lata. Hoje, programados como recrutas, já não dão piruetas, nem enterram ossos e urinam de felicidade com a chegada do dono. O cão leal e de guarda, o cão já não uiva para a lua ou desaparece com as meias e chinelos. Ressabiado de dar-lhe comida de gente, chego à casa com outro saco de ração. Desacorçoada, Fifi mira meu filho e abana-lhe o cotó. E me devolve, em desalento, um semblante de desgosto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Publicado em: 14/08/2009

PICASSO E OS MESTRES

 

 

 

O filme "Amadeus" (1984), de Milos Forman, trata do ódio do operista italiano Antonio Salieri por Wolfgang Amadeus Mozart.  Compositor oficial da corte da Áustria, a inveja de Salieri por Mozart ardia-lhe nas entranhas a ponto - diz a lenda - de provocar a morte do gênio, em 1791, aos 35 anos.  Numa das cenas, ao receber Mozart em Viena, o imperador tocou-lhe uma marcha composta em sua homenagem por Salieri. Quando lhe deu a partitura, Mozart a recusou, pois a havia memorizado.  Ao piano, não só a executou com perfeição, como lhe fizera prodigiosas variações e melhorias.

 

O introito ilustra uma constante no temperamento e obra de Pablo Picasso. Seus amigos arrepiavam quando o pintor malaguenho os visitava no atelier.  Olhava as telas, elogiava, e voltava pra casa para repintá-las bem melhor. Compulsivamente, pintava e pintava.  Em ausência de um tema, bulia imaginariamente nos quadros dos outros, imitava seus contemporâneos e os mestres do passado, fazia-lhes apropriações, variações, caricaturas, adaptava-os à sua verve ardorosa e inquietude existencial e artística. Amiúde brincante (e até satírico), dessacralizava, parodiava, carnavalizava...  Decompunha cenas originais ou as submetia ao difarce de um "espelho deformante", de tal modo que se realçassem como fingimentos picassianos, sonoras imitações dos objetos visuais imitados.  Era seu jeito de aprochegar-se criticamente da vida como linguagem e transformá-la em nova vida.

 

Tais investidas estéticas e de comportamento se destacaram na exposição do Grand Palais de Paris (outubro de 2008 a fevereiro de 2009), mesmo local que recepcionou Picasso em botão, aos 19 anos. Na plêiade de artistas selecionados, dos renascentistas aos contemporâneos e, naturalmente, Picasso. O esplêndido  álbum alusivo à mostra, Picasso et les Maîtres (Paris, 2009), é imprescindível para o mergulho na obra do gênio espanhol e seu instinto criador, construtivo e iconoclasta. Dou-lhe um singelo mural daquele evento. Repare nas nuanças sutis das colorações e colagens gestuais, nas inversões dos volumes, formas e enquadramentos (como se fossem re-contemplados ao espelho), nas captações dos humores e revelações íntimas dos seres, nos intercâmbios de estilo e diálogos entre as imagens, nas variações e rodeios em torno aos mesmos temas e atmosferas pictóricas. Nesse prazer interativo de internauta, caro internauta, buen viaje!

 

 

 

          

 

 

                                                                                           1. Nicolas Poussin. Autorretrato (1650, Musée du Louvre, Paris)

                                                     2. Picasso. Autorretrato (1901, Col. Particular)

 

 

 

      

                                                             

                                      1. Paul Gauguin. Autorretrato (1893-94, Col. Particular)

                                                2. Picasso. Autorretrato (1901, Musée Picasso, Paris)

 

 

 

      

 

                                                1. August Renoir. Cabeleireira (1900-01, Musée Picasso, Paris)

                                                2. Picasso. Cabeleireira (1906, Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque)

 

 

 

 

      

                                              

                                            1. Debois. A toalete de Psiquê (Séc. 17, Musée Chateau, Fontainebleau)

                                            2. Picasso. O Entreter (1923, Col. Particular)

 

 

  

 

      

 

 1. Edgar Degas. O Absinto (1875, Musée d'Orsay, Paris)

2. Picasso. A bebedora de absinto (1901, State Hermitage Museum, S. Petersburgo)

 

                                                                

 

 

      

 

                                              1. José de Rivera. Domócrito (1630, Museo del Prado, Madri)

                                               2. Picasso. Retrato de Ambrósio (1910, Museu Pouchkin, Moscou)

 

 

 

 

       

 

1. El Greco. A Visitação (1606-14, Hause Collection, Washington DC)

2. Picasso. As duas irmãs (1902, State Hermitage Museum, S. Petersburgo)

 

 

  

 

      

 

                                          1. Edouard Manet. Desjejum na relva (1863, Musée d'Orsay, Paris)

                                          2. Picasso. Desjejum na relva (1960, Hahmad Colletion, Londres)

 

 

 

 

       

 

                                                  1. Edgard Degas. As passadeiras (1884-86, Musée d'Orsay, Paris)

                                                  2. Picasso. A Passadeira (1904, The Salomon Guggenheim Museum, Nova Iorque)

 

 

 

  

      

 

                                              1. El Greco. A visão de S. João (1608-14, Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque)

                                              2. Picasso. As senhoritas d'Avignon (1907, MoMA, Nova Iorque)

 

 

 

 

      

 

                                                      1. Velázquez. Las Meninas - detalhe (1656, Museo del Prado, Madri)

                                                      2. Picasso. Infanta Margarida (1957, Museo Picasso, Barcelona)

 

 

 

  

 

      

 

 

1. Nicolas Poussin. O Rapto das sabinas (1637-38, Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque)

2. Picasso. O Rapto das sabinas (1962, Centre Pompidou, Paris)

 

 

 

  

Eia, ese Picasso, que se marchó de esta vida en 1973,

musicante y poeta, con dos Pablos: Casals y Neruda.

Salud a los trés, y a nosotros!

 

  

  

     

 

 

 

Publicado em: 02/08/2009

PITANDO PINTANDO PICASSO

 

 

 

Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

("Tabacaria" - Fernando Pessoa) 


Inspiração: ato ou efeito de inspirar (introduzir nos pulmões),

ou de ser inspirado.  Espécie de alento, sopro criador. 



Grandioso:

 Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso

 

 

 

     

 (Fumava, na certa uma locomotiva!)

 

 

Um pintor é um homem que pinta o que vende. Um artista,

por sua vez,  é um homem que vende o que pinta.

(Picasso)

 

 

       

 (Arremedando John Wayne, pistola na mão, piteira na outra,

 não largava o patrulhado cigarro.)

 

 

Minha mãe dizia: Se queres ser um soldado, serás general;

se queres ser um monge, acabarás sendo Papa.

Eu quis ser pintor e tornei-me... Picasso.

   

 

      

 (Fumava, fumava e fumava.)

 

Eu não procuro, eu acho. (Picasso)


      

(Pitava e pintava.  Que olhar achador e rapino!)


Há pessoas que transformam o sol numa simples mancha

amarela, mas há aquelas que fazem de uma simples

mancha amarela o próprio sol.  (Picasso)

 

 

      

 (Fumava e pintava.  Ai, cara medidativa e carão esbugalhado!) 


     

(Realidade e ficção se esfumaçavam. Um

coelho de papel a brincar com um perro de verdade)




A inspiração existe, mas tem que te encontrar trabalhando. (Picasso)

 

 

       

 (Tabaqueava e dançava.)


Leva-se muito tempo para ser jovem. (Picasso)

  

   

 (Pintava e bordava, a sublimar

os dotes das locomotivas!)

 

A qualidade de um pintor depende da quantidade de passado

que ele carrega consigo. (Picasso)

 

 

 

 

Despediu-se-nos aos 92 anos, pintando, fazendo o diabo...  Ah, e pitando. 

(1881 - 1973)

(fotos do artista-fotógrafo David Douglas Duncan, retiradas dos livros

The private world Pablo Picasso, Pablo Picasso, Picasso's Picasso,

Goodbye Picasso e da edição em português de O ateliê silencioso)

  

 

 

Publicado em: 28/07/2009

CRÔNICA DE PARAFUSOS

 

 

 

 

 

A palavra "parafuso" não se sabe donde veio, se do grego, aramaico ou do latim.   A coisa "parafuso" existe pra andar à roda de si, como o tempo pontiagudo escavando a eternidade. Metálico, é sulcado pela fenda funda na cabeça, estigmatizando-lhe o sinal de mais ou menos, depende da chave (ai, como me enrolo com a philips na mão!). Viver na lua é ter um parafuso de menos, ou de mais - quem sabe? -, girante aqui no mundo.  Gente baratinada é que entrou em parafuso, no obscuro dos pensamentos e inebriantes vinhos.  Parafusos, coisas, tempos e palavras são a quintessência do giro sem fim. Não se sabe aonde chegar. Como alguém, desparafusado, a escrever a crônica de parafusos.

 

 

 

           

 

 

 

Toda santa hora os humanos raciocinam, parafusam ideias.  Não há outro jeito de pensar, senão com palavras!  Não há outro modo de existir, senão com palavras!  Como disse o filósofo, se parafuso, logo existo. E, parafusando, é assim que, num enlevo, a criança põe-se a pensar sem saber que pensou. Para o cronista, porém, atarraxado em palavras, o descobrimento de si e do mundo o colocou à anteporta da loucura.  Loucura - confessa - donde poucas vezes conseguiu sair.

 

 

 Indaga: "Hoje, segunda-feira, segundo dia da semana... Por quê?".  É óbvio, a segunda deveria ser a primeira-feira. Até se diz, convidativamente: "bom fim de semana!".  E o camarada vai pra casa descansar. Também com o Altíssimo assim se deu.  Pra aplacar a solidão primordial de ser único, fez a lida insana de criar o mundo, parafusando cada coisa em seu lugar. Após seis dias, porque ninguém é de ferro, descansou.   Sucede que, sendo o Senhor o "dominus", o que domina e denomina, criou o dia de si: o domingo.  Ora, se até na lógica divina extensiva à humana o dia do Senhor representa o fim, como pode ser o princípio?  Definitivamente, a segundona brava é a primeira-feira, cê não acha? 

 

 

     

 

 

Outras minhocas esquentavam os parafusos do cronista: "Os nomes que dão aos meses, que absurdo!" Aprendera em criança que novembro, que lembra 9, é o mês 11; dezembro, que lembra 10, é 12; setembro, que lembra 7, é o mês 9.   Não saiu da rota em parafuso até que enxergara, por meio de outras palavras, que os anos na antiga Roma começavam em março.  Júlio César alterou o calendário e, numa ajeitada, o papa Gregório o reformou.  Então, fevereiro, no passado, seria pra nós dezembro, fim de ano.  E, só assim, novembro seria de fato 9. Contudo, inda mais encasquetado, o cronista pergunta: "Se resolveram mexer na contagem dos anos, por que mantiveram aos meses antigas palavras? Foi preguiça ou frouxidão dalgum parafuso?". 

 

 

    

 

 

A confusão não reside em palavras, mas nas pessoas que as criaram.  Porém, se as inventaram para pensar, e se parafusam ideias com palavras, por que usam vocábulos tortos pra pensamentos retos?  Ainda: se nos velhos tempos, o calendário iniciava em março e, ademais, se abril significava "abrir", por que março não é abril, o começo?  Nesse ponto, se lhe perdeu a rosca - o cronista. Girou disperso em espiral, flutuante, como rolha intrusa na botelha de vinho. Tomou o Vallium e, formigando-lhe as antenas, esqueceu-se de si.  Adormeceu.

 

 

   

Que mês estamos, Beavis?

 

Romildo Sant' Anna. Todos os direitos reservados.2010