Paula Santomauro
Tenho uma mão no bolso e outra pedindo carona pra Lua.

Publicado em: 18/10/2011

Vendemia

Treviso. Fim de Setembro.

A movimentação debaixo do céu azul celeste ás bordas daquele tabuleiro de mini-árvores trepadeiras carregadas com seus pingentes de uva perfumada me atrai.

Chego perto, respito fundo, me aconchego a uma sombra.

Allora, senhora, se veio nos ajudar na colheita chegou tarde, acabamos de acabar.
Ah que pena! E como foi?
Tivemos una bella anata.
Mas e agora, vocês vão fazer este vinho aonde?
É senhora, a gente cuida da uva, quem faz o vinho é uma indústria aqui perto.
Ah sim? E que vinho fazem, espumante?
Ma no! Esta uva é Cabernet.
E o senhor trabalha com vinhedo faz tempo? 
A uva sempre me encantou, mas trabalhei por toda vida numa fábrica de tecido. Há dez anos atrás quando me aposentei precisavam de ajuda em um vinhedo aqui perto e comecei a trabalhar ali. 
Ma dopo, olha só (ele mostra as mãos com as juntas grossas), me veio o reumatismo. Não posso mais podar, que era minha especialidade.

Ah sim? O senhor era encarregado da poda?
É si, signora. Principalmente. Mas, na verdade, um pouco de tudo. O trabalho no vinhedo é um trabalho contínuo, um ciclo delicado que se repete a cada ano.

É mesmo? E como funciona este ciclo?
Em Novembro tem a poda de inverno, que deixa só os toquinhos das plantas. Em março a poda verde, que corta os galhos mais fracos. Em Junho e Julho tem que tirar as uvas que não são belas pra dar espaço às mais fortes. 
Em Agosto é seco, tem que regar. E fora isso, estar sempre atento às doenças.

Mas que doenças? Praga ou Fungo?
Tem praga e fungo. Por exemplo, tem as borboletinhas que contaminam a uva com o pó das suas asas, tem um fungo que vem da umidade do solo.
E como se está atento a estas coisas?

A senhora já viu rosas no meio de um vinhedo?

Já sim, é lindo.

É, mas não fazem por beleza. Fazem porque se o fungo chega a rosa fica doente primeiro. Assim, os agricultores percebem e tem tempo de administrar a cura ao vinhedo antes de ser atacado.

Veramente? Então as rosas são uma espécie de guarda-costas?

Bella la natura, no?

Belíssima!

Por isso a uva é uma paixão per me, gosto de estar ao ar livre, em contato com as plantas, o solo, o sol.

Ah, mas o senhor é um expert.
No, un sperto no. Un appassionato.

Por 15 anos organizei um festival de degustação de vinho numa cidade aqui perto. Participavam sommeliers, enólogos, jornalistas, chefs e agrônomos de toda Itália. No começo todo mundo tinha uma idéia semelhante de qual vinho era melhor e qual não era tão bom assim. Com o tempo, a tecnologia e a teoria começaram a crescer mais que as uvas e começou a ficar muito difícil julgar.

E o senhor julgava?
Io? Noooooo. Io no! Eu gosto muito de beber o vinho. Não seria capaz de julgar.

A este ponto chega o caminhão que veio buscar as caixas de uva.

Sr. Bruno me saluta:
Va bene signora, não lhe perturbo mais.
Imagine, signore! Grazie pela explicação, não faz idéia do quanto me ensinou.

Todos os outros integrantes da equipe da vendemia, incluindo o imigrante africano típico das colheitas italianas modernas, me salutam.


Fico ali, participando da combinação italiana do azul do céu com o verde do vinhedo, enquanto penso o quão grandiosa é a natureza, que fornece a água e ensina o homem a regar quando não chove, para que a planta não tenha que se nutrir da fruta, fazendo a uva crescer sem açucar e o sabor do vinho do próprio homem não seja ácido.

 

 

This will also change.

 

Publicado em: 09/03/2011

Terra do Nunca

A todo o momento tinha a sensação de que iríamos encontrar o Peter Pan por lá

O lugar é fantástico. Diria até um pouco surreal. Muito provavelmente a Terra do Nunca foi inspirada nas mais de 4000 ilhotas de rocha (estilo pequenas Colinas) que se espalham sobre o mar tranquilo, esverdeado e um pouco poluído de Halong Bay.

O nome vem da lenda, Halong significa por onde passou o dragão (ou qualquer coisa do tipo). Segundo rege o conto, Deus mandou um dragão para ajudar os Viets a expulsar os Chineses de sua terra e o tal bichinho foi batendo sua cauda de um lado para o outro formando a incrível paisagem que vemos hoje.

Considerada a princial atração do turismo Viet, a melhor maneira de visitar HB, seja apenas para passar um dia ou para dormir uma noite, é comprando um tour organizado.

A príncipio relutamos contra isso, porém fomos obrigados a nos render, visto que acaba ficando mais caro fazer tudo por conta própria.

Depois de três horas de viagem em um micronibus, chegamos ao circo turismótico que é o caes de HB. De sugunda a segunda ao meio dia começa o horário do rush ali. Uma troca frenética de passageiros nos mais de 50 barcos-hotéis que meus olhos puderam enchergar.

Os barcos em geral, e o nosso particularmente, são bonitos e bem arrumados. Dignos do Capitão Gancho. Cabines individuais com ar condicionado e banheiro cinco estrelas (o melhor de toda nossa viagem até agora).

As refeições são inclusas bem como algumas atividades. Visitamos as Vilas flutuantes, formadas por antigos pescadores nomades que viviam em seus barcos errantes e que Tio Ho, com a intenção de controla-los consruiu.

Fomos também a uma caverna que mais paecia uma atração da Universal Studio, sem deixar de espetacular, apesar da iluminação esverdeada e da impressão que um dragão verde gigantesco de mentira, com bafo de peixe viria nos aterrorizar a qualquer instante.

De qualquer forma, no fim o tour acabou se revelando interessante. Uma oportunidade bacana de conhecer nossos primeiros colegas de viagem ocidentais até agora (!!!).

Diana, consultora de moda de NY. Apesar de ser metade Francesa, metade Viet era sua primeira vez no país e a lingua que falava quando criança voltou a tona, graças a sua enorme capaciade de socialização.

Outra figura era Bill. Um senhor perto dos seus 80, Escocês, com passaporte Kiwi e morador do Quênia. O objetivo de sua viagem pela Southeast Asia é um curso de 3 meses de Yoga Egípcia nas Filipinas (?!?). No momento, ele viaja enquanto o curso não começa e seu endereço ‘fixo’é a rua dos mochileiros em Bangkok.

Por outro lado foi também um ótimo momento para conversar descontraídamente com a tripulação – os verdadeiros meninos peridos - quando depois do jantar eles vieram chill out conosco, na sala-convés do barco.

Meu melhor amigo – prometi até apresentá-lo para a Two, a recepcionista do nosso Hotel de Hanoi – foi Vin. Prestes a fazer 25 anos aquela era sua primeira semana como crew manager do A-Class Cruise.

Ele, como Two, é de um povoado perto de Sapa e foi para Hanoi 4 anos atrás em busca de trabalho em hospitalidade. Ha poucos meses recebeu convite para trabalhar neste barco e agora estava começando a nova vida, já que ele e os outros 6 tripulantes moram no barco, no mesmo sistema de uma folga ao mes, pra voltar pra casa e visitar a família.

Relaxar e admirar Halong Bay e todo esquema que a envolve não é difícil. Uma vez superado o trauma inicial do tour organizado, basta usar a teoria da Primark - uma loja do Reino Unido, baratíssima e muito, muito lotada - você sublima todo mundo ao redor, do sólido as pessoas viram vapor para sua mente.

 Aí sim, é possível entregar-se a magia unique de um pôr-do-sol ao sabor de vinho Vietnamita a bordo de um barco bucólico no meio das montanhas flutuantes versao aquaticas de Avatar, um momneto épico que poderia muito bem ser uma releitura moderna de Dalí sobre a terra onde as crianças jamais viram adultos.

Data original do post: 06/10/10

 

 

Publicado em: 09/03/2011

Hanoing

 ‘era um garoto, que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones. Girava o mundo, mas acabou, fazendo a GUERRA DO VIETNÃ! Cabelos longos não usa mais…’

Aterrizamos no aeroporto de Hanoi e esta música começou a tocar no meu ipod mental.

Enquanto meus pensamentos giravam embaçados, procurando nas memorias das aulas de história e geografia tudo o que pudesse saber sobre a II Guerra da Indochina, fui abruptamente atingida por uma visão de horror: quarto ou cinco cadáveres depelados (despelados?) de CA-CHOR-ROS na garupa de uma moto. Provavelmente a caminho de algum restaurante.

Dog Lover’s aqui tem um outro conceito, já dizia a Lonely Planet.

A partir deste momento todos os nossos 11 dias no Vietnã foram para mim uma sucessiva desconstrução de conceitos enraizados, um exercício de tolerância e um caminho de sucessivos repentes de aversão e fascínio.

Imagine uma cena de aracnofobia 3. Agora substitua as aranhas por motos, mobiletes, vespas, jogs, hondas bis e afins.  Adicione inaudíveis decibéis de buzinas de todos os lados e tipos. Por fim, uma pitada de uma cultura onde quase nada lembra nosso pré-conceito ocidental para a palavra civilização.

O Vietnã é um pouco maior que a Itália (+ ou – 300 mil km2) e tem a quinta maior população do mundo, 86 milhões. Não bastasse o fato de que por onde você olha tem muita gente, toda esta gente se aperta em cima das supra-citadas motos. As vezes 5 pessoas na mesma moto!

Motos que não respeitam semáforos. Calçadas que não são lugares para pedestre. Podem ser para motos cortarem caminho, estacionarem, restaurantinhos de rua, crianças brincando, mas não para pedestres. Calçadas e pedestres e semáforos, são cliches remanescentes da época da colonização Francesa. Foram os ocidentais que colocaram isso ali, para o Viets aquilo não tem o mesmo objeto de uso que nós conhecemos.

Isto signifca que caminhar por Hanoi é complexo. Caminhar por Hanoi no horário de rush é tenso. Caminhar por Hanoi no dia da sua festa de 1000 anos foi um pesadelo. Um pesadelo interessante, mas ainda assim, ufaaaaaaa, que bom que acabou!

Quando conseguimos alcançar sãos e salvos o Liberty Hotel, após o momento caótico da perseguição das motos assassinas – na verdade não é perseguição, elas simplesmente ignoram nossa existência, atropelar uma pessoa no Vietnã não é crime, então, pra que se preocupar? – Two, a recepcionista figurinha do nosso hotel nos explicou que nos próximos 10 dias a cidade estaria em festa.

De repente a musiquinha traduzida pelos Engenheiros do Hawaii voltou ao foco da minha atenção.

No outro dia, antes de darmos nosso rolezinho de básico de explorers, Two veio nos fazer o café da manhã.

Você nunca dorme? Perguntei.

“Durmo, durmo aqui. Eu moro aqui”

Como a maioria jovem da população economicamente ativa de Hanoi, Two veio de uma cidadezinha mais ao norte, perto de Sapa. Sua única casa é seu trabalho, suas horas úteis são todas em que está acordada e a única folga são dois ou três dias por mês quando vai pra casa visitar a família.

Apesar – ou talvez por causa – do comunismo, o sobrenome dos Vietnamitas é trabalho. Não tem fim de semana, feriado, folga. Todo mundo mora onde trabalha e a vida gira em torno de trabalhar, comer, dormir, trabalhar. Tudo nos mesmos poucos metros cúbicos.

As dimenões aqui também são particulares. Os banquinhos dos bares, cafés e restaurantes de rua tem 15cm de altura. As casas de dia são negócios e de noite uma cama e uma televisão surgem do nada e ocupam algum lugar no meio dos produtos. Todas as construções tem no máximo 4 andares e são estreitas e profundas. Janela é um luxo.

Tudo isto foi o que vimos no Old Quarter. A parte antiga e mais característica da cidade. Num passeio mais longo até o mausoléo do Tio Oh (assim eles chamam Oh Chi Mihn, o Che Guevara Viet), passamos pela parte nova, ruas mais largas, casas maiores e mais imponentes.

Hanoi não tem Mc Donalds, não tem grandes shopping’s. Mas tem microfones tocando música típica entre uma fala e outra – que não entendíamos – do governo.

Hanoi é annoing. Mas é também fascinante. Quase surreal. O comunismo decadente choca e absorve como se vivendo a cidade você tivesse que se despir de qualquer julgamento e simplesmente aceitar a descontrução necessária para deerreter-se no caos do lugar.

Talvez tudo estivesse exacerbado nesta semana especial de aniversário, talvez esta seja a realidade diária da antiga Capital do Vietnã do Norte. Mas uma determinação paira no ar e o espírito Viet Cong justifica-se, ainda que seja impossível explicá-lo.

Mais uma vez o garoto que trocou a guitarra pelo instrumento que sempre faz a mesma nota (ratata) volta a tocar na minha cabeça. Se soubesse que minha playlist do Vietnã seria esta única canção no repeat 100 mil vezes, juro que teria decorado alguma outra com o mesmo tema.

Nas palavras de Two minha ignorância politica viajou e achou melhor não concluir nada e seguir apenas descontruindo…’Esta festa não é para nós, é para o governo’.

Sat Nam ;)

Data original do post: 03/10/10

 

 

Publicado em: 09/03/2011

Dez Dias

Dez dias. Dez dias. Dez dias. Dééééézzzzzzz Diiiiiiiiiii-aaaaaaaaassssss.

 

Este era o único mantra que se repetia incansavelmente na minha cabeça após o primeiro dia de retiro.

 

Dez dias fora do mundo. Dez dias sem falar. Dez dias sem ler, sem ouvir música, sem escrever. Dez dias sem qualquer tipo de contato, a não ser comigo mesma. Dez dias num Dhama Centre em Phisanulok, norte da Thailândia, entre 52 duas outras mulheres Thai.

 

Dez dias da melhor comida vegetariana que já comi na minha vida. Dez dias num lugar lindo, no pé de uma montanha maravilhosa, no meio de uma parte incrivelmente forte de natureza.

 

Dez dias que viraram 8, viraram 6, 3, e passaram. Passaram. Por que o átomo nasce e morre 22 zeros depois do um vezes por segundo, numa vibração mutante que jamais se cansa.

 

Dez dias que passaram porque tudo passa e isto também irá passar. Dez dias que passaram e passaram a fazer tanto sentido na minha existência.

 

Dez dias. Dez dias. Dez dias. Espero tranquila pela oportunidade dos meus próximos dez dias.

 

Quando era hora de voltar a falar, minha vontade era continuar o silêncio. Não porque me sentisse estranha, mas porque a viagem pra dentro do que sou foi a melhor que já fiz em toda minha vida.

Não existe medida ou descrição para a gratidão que sinto pelas voluntárias queridas e determinadas que estavam ali - e que eu queria levar pra casa comigo! - nem para o quanto gostaria de agradecer todas as pessoas que fazem parte dos bastidores da Vipassana Meditation no mundo e nos permitem esta reconexão brilhante com o sentido da vida.

OBRIGADA - Kwop Kun Kap (Thai)

Vipassana Meditation: indico, recomendo e garanto (tem centros nos Brasil)

http://www.dhamma.org/

 

Bahvatu Sabba Mangalan.

 

May all beings be happy.

 

Paz Amor e Harmonia.

 

Sat Nam ;)

 

Data original do post: 27/09/10

 

Publicado em: 06/10/2010

Bangkok: home, Southeast Asia, home

Almoço no japa. Passeio no shopping. Manicure. Jantar com as amigas. Eis que não quando, encontro uma versão asiática de uma parte boooa da minha vida brasuca.

Tudo isto é culpa de Cattleya Jaruthavee, uma grande amiga do Giulio, também foto-jornalista, que mora em Bangkok.

Catie é metade Thailandesa metade Inglesa. Sua mãe, Nina, veio fazer um intercâmbio aqui quando tinha 18 anos, conheceu o pai e nunca mais voltou. Aprendeu a falar Thai vendo tv e integrou-se de forma extraordinária nesta cultura tão diferente da dela.

Ver Bangkok de dentro foi muito provavelmente uma das maneiras mais interessantes de conhecer esta cidade (e um pouco deste país) de diferenças sociais berrantes, onde falar mal da família real da cadeia.

‘A primeira coisa que se deve aprender sobre a cultura Thai é que eles empurram tudo pra baixo do tapete’, nos contou Nina, a Inglesa mais carinhosa que já conheci e provavelmente mais uma na lista das melhores pessoas do mundo. ‘A segunda é que a família real Thai são as pessoas mais ricas do mundo, constatado pela Forbes Magazine.’

Só por aí já da pra realizar um pouco de como funcionam as coisas nesta monarquia constitucional onde (como sempre) o rico cada vez fica mais rico e o pobre, cada vez fica mais pobre. E o motivo…todo mundo já conhece.

Em um jantar na beira do rio Chao Phraya, descobrimos que de domingo a família toda almoça junto na casa do tio e que o pai dela fazia parte do movimento estudantil da década de 70, mas depois achou por bem bandear-se para a direita, visto que é ali que estão os contatos, as possibilidades e o dim dim.

Tudo isso em meio a um festerê culinário onde tudo tem que ser uma mistura entre doce, apimentado, ácido e crocante. A comida thai é um deleite, mesmo quando o docinho de amendoim vem enrolado numa folha de alface ou quando a gelatina de coco é verde. Tudo é saborosíssimo. Mmmmmmmmm!

Fora da casa da família Jaruthavee, ‘Banshop’ alimentava o espírito consumista que há em nós. Assim como Kuala Lumpur, comprar é o terceiro verbo mais importante no vocabulário de Bangkok, depois de comer e trabalhar. Porém, aqui não estávamos no meio do bazar do Ramadan, cheio de camisetas de mangas compridas e véus, mas sim num paraíso devastador para nosso budget de mochileiros com malas de rodinha.

No entanto, meu passeio mais incrível pelo mundo das compras não teve nenhuma compra, mas sim a companhia de Noi, a moça que trabalha na casa de Catie. Ela tem 35 anos, veio do nordeste da Thailandia, num movimento de migracão estilo nordeste - São Paulo. Sua única casa em Bkk é a da família Jaruthavee, onde ela trabalha, mora e conheceu seu futuro marido, o guarda da casa. Noi é um daqueles seres de luz. Sempre sorrindo, foi escalada por Catie para tomar conta de mim numa tarde em que ela tinha compromisso.

Eu insisti que não precisava e Catie rebateu dizendo que ela iria adorar. Batata. Por todo tempo ela esteve radiante. Comportando-se com sua simplicidade autêntica. Mesmo sem trocar nenhuma palavra além de ‘ok’ tivemos uma tarde ótima e divertida nos comunicando por olhares e sorrisos.

Das tantas milhares de conversas de bródinha que tive com Catie (porque ela é ótima e é claro que ficamos super amigas) em nossos vários roles de vassoura*, minha viagem pela realidade Thailandesa aconteceu da janela de um carro onde por fora eu julgaria superficialidade e por dentro encontrei nada menos do que senso de justiça, sinceridade e muito respeito.

‘Eles só querem uma outra eleição, é pedir demais?’ - Catie estava lá, quando a primeira bomba estourou - não, não é. Assim como não são reais os números de fatalidades, assim como não foram respeitados os voluntários da Cruz Vermelha ou as zonas neutras que deveriam ser os templos. Assim como tudo foi um pouco suspeito demais, censurado demais, agressivo demais.

E o tapume na frente de um dos prédios destruídos pelas bombas diz: Everything will be ok. Really?

Pelo menos é isso que o governo e a maioria da classe alta (aqui quase não existe classe média, é basicamente A ou Z) quer que o todo da população acredite. Assim, o processo histórico de engolir os sapos segue seu curso, a supremacia de quem tem grana (e contatos) é reafirmada e a ordem e o progresso se estabelecem.

Ninguém sabe o que vai acontecer no futuro Thai. Tampouco fala-se sobre o assunto em qualquer mesa, seja de um bar, seja da família na hora do jantar.

Pelo contrário. Na turma internacionalizada da nossa amiga de duas origens – onde há outros mestiços - inclusive uma garouta meio brasuca, filha de pai Thai e mãe recifense - todo mundo fala Inglês fluente, viaja pacas e estudou fora. Por isso a cultura de expats (expatriados) em BKK é muito forte entre a classe abastada.

Basicamente eles tem uma vida bastante ocidentalizada no sentido cultural e rotineiro, zapeando academia, baladas, jantares, bares, shoppings, cursos e, em 90% dos casos, trabalhando no business da família.

Família não no nosso sentido da palavra. Mais especificamente no sentido da palavra Clã. A família toda do Sr. Jaruthavee mora na mesma rua. Cinco ou seis casas cercadas pelo mesmo muro e portão. É a vó, de descendência chinesa, quem oferece incensos pro Buda em nome e em prol de todos. O vô não mora mais ali, vive do outro lado da cidade com as amantes.

Outra tradição que completa o olho grosso Thai. É muito comum e aceito que homens casados frequentem massagens com happy endings e as esposas, satisfeitas com suas vidas de madame entre motorista e empregada 24h, preferem não saber de nada, e descontar tudo no cartão de crédito dos maridos, afinal, para as outras coisas existe master card.

Enquanto fazia a unha e ‘lia’ uma espécie de Caras versão Thai, interroguei Catie sobre as celebridades e ela não conhecia nenhuma: ‘é que quando fui estudar na Inglaterra achei que era hora de dar um pouco mais de atenção ao meu lado ocidental e me desliguei de algumas coisas daqui. Hoje, percebo o quanto não sou nem uma coisa nem outra e o quanto sou tanto das duas.’

* role de vassoura: gdmt (gíria da minha turma) pra dizer andar por aí de bobeira, dar umas voltas.

Site da Catie: www.cattleyajaruthavee.com fotos interessante de dentro do conflito red x yellow em Bkk e otras cositas (bacanas) más.

Sat Nam ;)

Publicado em: 13/09/2010

Hari Raya

Feliz ano novo Malaio! Feliz fim do Ramadan! Feliz Aniversario Lee!
Penang nos recebeu em ritmo de expectativa. Fomos quase tomados por aquela sensacao de 31 de Desembro, nao fosse pelo fato de que nao fazia nenhum sentido pra nos. Mas a atomosfera era esta por todo o tempo que estivemos em Penang.
Ainda na batalha para encontrar um lugar para comer - chegamos dia 8 o Ramadan acabou dia 10 - fomos parar num cafe escondidinho e char-mo-siiiiiissimo, Tea Home.
Foi como se no meio daquela historia tao antiga - George Town, o centro da Ilha, eh um patrimonio historico - encontrassemos um pedacinho do ceu, onde Lee Yeng e seu marido fazem arte nos incriveis chas quentes e gelados, na decoracao simples e estilosa e no jeito aconchegante de receber os clientes.
Lee eh uma menina de olhar sincero e coracao forte. Premonicao minha, confesso, mas raramente erro. Conversamos super enquanto nos escondiamos do calor massacrante que absorve Pulau (ilha) Penang no meio da tarde.
Ela nos contou um pouco sobre o business deles (o cafe e a loja de chas que fica na frente) e perguntou um tanto sobre nos. Foi interessante tentar resumir nossa vida de vai e volta, enquanto o marido (o qual o nome nao consegui entender), ficava quietinho na cozinha, timido, ouvindo tudo e participando eventualmente.
Foi neste bate-papo que descobrimos que a maioria da populacao ali eh chinesa, que o marido de Lee eh fotografo, que ela faz arte. Em pouco tempo estavamos passeando pela pequenina casa que abriga o cafe e a loja de chas, ouvindo historias sobre objetos antigos resgatados das casas dos avos, as invencoes simples e baratas da decoracao, a vontade de receber pessoas e trocar com elas impressoes do mundo, em palavras timidas e olhares verdadeiros, no quartinho ainda under construction do andar de cima.
No fim, entre fotos e promessas de voltar, Lee nos contou que era seu aniversario, 23 anos aquele dia. Dei-lhe um abraco forte e nos sorrimos cumplices.
No mais Penang nao eh Bela. Senao profunda e decadente. Ou talvez o oposto. O selo da Unesco confere ao lugar todo prestigio que tem, mas foi verdadeiramente na Little India que encontramos vida real. Ou, quem sabe, cenas dos proximos capitulos ;) entre nosso chicken tandoori, minha obsessao por comprar terceiros olhos, a musica Indiana em altissimo volume e os milhares de cartazes de dvds de Bollywood.
A noite fomos da India pra China e nos deliciamos com as baquinhas de comida na rua. Mmmmmm. Soh nao pode olhar como eles lavam os pratos e nem dar muita atencao aos ratos e baratas que passeiam um pouco mais pra la, na expectativa da xepa. Comida boa, ponto. Povo trabalhador, que sao os chineses, verdadeiras maquinas. Pilotam tres panelas ao mesmo tempo em que dao ordem aos assistentes, cobram os clientes e fazem propaganda do prato do dia.
Cansativo soh de ver. Mas pelo menos dormir era mais facil. Os muculmanos daqui vem, a maioria, da India, sendo assim, contentam-se em rezar pra eles. Nada de gritos. Que belezinha.
Eh que eles tb nao sao a maioria. O Budismo em Penang impera.
Budismo Thailandes, Budismo Chines, Budismo Birmanes. Nao sei basicamente nula de nenhum Budismo, mas ja sei que Buda (seja ele de onde for) gosta de incenso. E em todo templo budismo as pessoas sao bem recebidas.
"Primeiro voce reza la fora" - disse um senhor bondoso, enquanto eu fazia minha oracao desajeitada, mas de coracao, na frente da estatua principal. Fomos la fora, aprendemos a deixar 3 incensos pra cada imagem (apesar de nao sabermos quem eh quem) e depois soltamos passarinhos. Sim, vc compra uma gaiolinha com quatro e abre, se os quatro voarem eh boa sorte. Muito esperta eu, achando que estava libertando os bichinhos pra ver na outra esquina um moco prendendo um bocado. Que vida, coitados. Acho que Buda nao ia achar legal.
O chato do dono do nosso hotel Red Inn - que eh bonitinho, mas ordinario (nao o dono, o hotel, pq o dono eh bem feio) - ficava enchendo nosso saco pra tirar os sapatos, nao comer nem beber no quarto, nao fazer barulho, me deu vontade de dizer: cala boca seu ridiculo, os quartos do seu hotel nao tem nem janela.
Mas ele estava cheio dele, porque uma equipe nao sei de onde tinha acabado de gravar um filme sobre mochileiros ali. Aposto que era porno! rs.
E no fim, enquanto a cidade inteira dormia (ou pareia que) no primeiro de Janeiro deles, fomos aos nossos amigos do tea House, saborear mais um papo bacana e descobrimos que Lee e o marido tambem tem planos de viajar pelo mundo, assim que o cafe der um dinheirinho bom. E tambem que Lee tem uma turma de amigos descoladinhos, que faz arte por Penang a fora. Compramos uns postais alternativos de uma amiga dela e nos despedimos com um "see you soon" e um abraco apertado.
Quando era pequena, olhava pela janela imaginando que alguma menininha do outro lado do mundo fazia o mesmo e nos conectavamos de alguma maneira essencial e invisivel. Nao por acaso, tenho a sensacao de estar encontrando estas meninas por aqui e o mundo esta se tornando um pouquinho mais fantastico pra mim!

Sat Nam ;)

Publicado em: 13/09/2010

Ambulantemente KL

Socorro, tem um camelo^ (nao o animal, a barraquinha) atras de mim. Outro na frente. Outro do lado. E do outro lado. Na diagonal. Em cima. Em baixo. Peloamor alguem pode por gentileza nos dizer onde eh a saida deste labirinto de barraquinhas ambulantes? Ou entao chamar o rappa!
Imagine um verdadeiro aglomerado de Vinte e Cincos de Marco em pleno vinte e quatro de Dezembro. Imaginou? Kuala Lumpur no Ramadan eh assim.
Nossa chegada na 'capitar' foi chocante. Nao tanto pela cidade, que eh uma capital nacional super busy como tantas outras, mas muito mais pelo impacto em relacao a toda amistosidade das cidades menores a que nos habituamos tao facilmente em duas semanas de Indonesia.
Nada mais de sorrisinhos faceis. Mendigos pelas ruas. Gente querendo tirar vantagem. Gente. Gente. Gente. Gente saindo pelo ladrao, barulho, poluicao, sujeira. Onde tem espaco, tem um bazar.
Achar onde comer tambem nao foi uma tarefa facil - no Ramadan, varios restaurantes fecham ou ficam escondidos, por respeito a quem esta jejuando. Mas nos nao estamos, porra!!!
De repente nosso refugio sao as pracas de alimentacao dos shoppings, nao fosse pelo fato de que o ar condicionado em todo lugar eh tao tao forte que a gente entra com calor e em cinco minutos, tem que vestir o moleton.
A cidade eh cinza como londres, embora quente como Manaus. Tudo na versao olhos puxados e com a trilha sonora das mesquistas obrigando a gente a ouvir suas preces a elevados decibeis.
Nao eh que eu nao tenha gostado de Kuala Lumpur. Eh soh que um gringo turistando em Sampa deve sentir a mesma estranheza.
Eh necessario conhecer as capitais, principalmente pra entender o poder da palavra GLOBALIZACAO. Porem, eh nas cidades pequenas que os paises revelam seus segredos e as pessoas se separam da multidao e viram os individuos unicos que fazem a magia de viajar.

Confesso que estou aliviada de estarmos partindo. Dois dias em Kuala Lumpur, ja deu!

Sat Nam ;)

Publicado em: 09/09/2010

I love Yogja

Ela tem um piercing na lingua. Ele aprendeu ingles vendo filmes Americanos. A outra manja pacas de historia e ja foi varias vezes pra Europa. Todos eles tem MUCULMANO escrito nas suas carteiras de identidade. Todos eles nascidos em Yogjakarta.

As meninas nao fazem o Ramadan.

"Eh que quando voce comeca a crescer e ninguem te responde porque as mulheres devem ficar atras dos homens nas mesquitas, por exemplo, fica dificil entender e mais ainda aceitar". Eh assim que a Tina, nossa guia e explicadora de religioes - a do piercing na lingua - se sente.

Uma das razoes pela qual ela, apesar de ser Muslin no papel, eh praticante ativa de Javanismo. Foi com ela que aprendemos um pouco do caleidoscopio religioso que eh Yogja. Islamismo, Animismo, Budismo, Hinduismo, Javanismo tudo junto misturado.

As religioes e filosofias se influenciam, se intercalam, coexistem. Mesmo quem faz Ramadan, nao veste verde quando vai perto do mar, pois a deusa do Oceano Indico gosta desta cor e pode levar a pessoa embora.

Tudo tem sempre uma conexao intrinseca com a natureza. Tudo acaba sendo muito parecido com o ambiente.

De repente me vi rezando Pai-Nosso e Ave Maria com um indonesiano chamado Emmanuel (!!!!), de frente para um altar com Jesus Cristo na cruz, numa 'gereja' que era um misto de mesquita asiatica - um teto e zero paredes - e um lugar de animismo, ou o que a gente chamaria de macumba.

Me conectei super com a Tina, que se interessou quando falei um poquinho que sei sobre Caballah que tem minha idade, eh casada e tem um business de pecas de Vespa (motinho) com o marido. Ela eh descoladinha e super plugada no mundo e ainda assim, a fe e uma presenca fortissima em sua vida.

"O sonho de 90% dos Indonesianos eh peregrinar a Meca. Aqui em geral nao existe a cultura de viajar. Nao fosse a vida social, gastariamos muito pouco", foi Fita, nossa outra guia, a que ja viajou pra Belgica e pra Holanda pela organizacao ViaVia da qual faz parte, quem nos contou.

Mas como assim vida social? - me espanto, visto que aqui nao tem nem bar, quanto mais balada (porque o Islam proibe firmente bebida alcoolica).

"Eh que quando tem uma festa ou alguem fica doente, a gente tem que dar dinheiro" - salario minimo na Indonesia: entre US$75 e US$150 - "qualquer coisa como 50.000 Rupias pelo menos" (US$5!!!!).

Caraca, pensei eu, imagina que coisa boa. Quando voce ta precisando de uma graninha, faz uma festa e nao trabalha por um mes. Rs. Acabaram de inventar a profissao da minha mae (que adora dar festinhas).

Foi tambem a Fita que nos motivou a ver o Sol Nascer em Borodur, templo Budista considerado pela Unesco uma das 7 Maravilhas do mundo antigo.

Ter uma das maravilhas exclusivamente para voce durante 30 minutos tem preco, US$100, mais vale muuuuuuuito mais do que isto.

4h da madruga, subimos no templo ainda fechado ao publico, sob o manto de todas as estrelas do mundo e ao som das preces Muculmanas que vinham das mesquitas que cercam o templo por todos os lados. Foi a segunda oportunidade que a vida me deu de meditar em ponto energetico do planeta e por cada segundo estive com os olhos lacrimenjantes, o corpo inteiro arrepiado e o coracao agradecido. A sensacao nao eh deste mundo!

Enquanto o sol vai nascendo e outras pessoas vao subindo, o som das preces e substituido pelo dos sapos, depois pelos galos e depois pelas vozes e as formas das estupas vao se delineando na aquarela cor de laranja e azulada. Momento sagrado.

Entre tanta informacao, um certa confusao comeca a correr pelas minhas veias curiosas. E eh como se pela primeira vez pudesse manusear a diferenca entre Ocidente e Oriente. "Primeiro Deus, depois a gente", Roy the Boy tinha nos dito em Bali. E eh exatamente esta fe, que chego a invejar, que define estas pessoas. Determinando suas condutas, seus caminhos, seus valores. Seus sorrisos.

Nao eh que a gente nao tenha Deus no Ocidente. E so que a gente teoriza Deus e eles praticam Deus. Assim, vivem o Universo Deus muito mais do que nos.

O que se pode dizer de um pais em que sua religiao esta literalmente rotulada em sua identidade?

Anio, o gerente do nosso hotel que aprendeu ingles nos filmes, soh anda descalca e, como os outros meninos que trabalham ali, vive no facebook. Todos eles sempre sorridentes e prontos a nos agradar, desligam o computador as 6h da tarde quando eh hora de comer pra quem faz o Ramadan.

Eh Deus na pratica, no matter what.

Sat Nam ;)

Publicado em: 31/08/2010

Terima - Kasih

Minha vontade era tirar o chinelo e nadar pra sempre naquelas aguas cristalinas.

Claramente nosso Guia nao apoiava meu desejo. Recolhi-me a minha posicao de mera observadora e me contentei a molhar o rosto e as maos.

Assim como contentei-me a ver quase todos os templos de fora. E impossivel viver Bali sem mergulhar no mundo ritualista e simbolico – uma especie de barroco rococo asiatico – que e o Hinduismo Balines.

Porem, nao e facil penetrar a membrana que protégé esta dimensao tao sagrada para seu povo. E de impressionar a maneira como os Balineses,  apesar do turismo massivo que os sustenta, conseguem manter suas tradicoes tao intactas.

Minha primeira foto mental de Bali foi de uma especie de cestinho de bambu todo coloridinho que estava em varios balcoes do aeroporto. Cheguei mais perto e vi que continam biscoitinhos em cima de varias petalas de flores. Muito queridos estes Balineses que oferecem esse agrado aos turistas.

Um milesimo de segundo depois, vi o mesmo cestinho no chao. Nao precisei fazer nenhuma sinapse nerologica para entender que aquilo era na verdade oferenda. Oferendas que sao o comeco, o meio e o fim de tudo o que diz respeito a esta cultura. Oferendas aos montes,  o tempo todo, em todo lugar. Oferendas com as quais eu tropecaria 70 mil vezes nos proximos dias. Oferendas que sao a diferenca principal entre o Hinduismo de Bali e o da India. Oferendas que, segundo nosso guia Made, “ sao pra manter Deus em Bali”.

“E que Deus tambem gosta de comer” – justificou Roy, the boy, nosso primeiro motorista, sobre o arroz ou biscoitinhos sempre presentes nas ofertas – “Deus da arroz pro povo, o povo agradece e da arroz pra Deus”.  E por que as ofertas ficam nos balcoes e nos templos e tambem no chao? – perguntei – “No alto pro deus bom, no chao pro deus mau”.

Curiosa e muito inteligente esta relacao que o Hinduismo Balines tem com a dualidade, o equilibrio. Masculino e feminino. Horizontal e vertical. Assim como e admiravel o respeito e interacao com a natureza. Um templo voltado pro mar, outro pra montanha, outro pro nascer do sol. Ha sempre uma arvore sagrada que protégé.  Cerimonias pra lua cheia, pra lua Nova. E Bali e o palco perfeito pra isso.

“Espero que voces tenham a cabeca aberta para ouvir minhas previsoes”, disse Made, “o dia em que 50% da populacao mundial for Hinduista Balines, o mundo estara a salvo”. Fizemos aquele olhar respeitoso que se faz para uma avo quando ela explica que quem tinha tatuagem na epoca dela nao era bem visto.

“ I can prove” - disse ele pegando um pedregulho e comecando  a rabiscar no chao –  “depois do tsunami de 2004 este vulcao (o Monte Agung, ponto mais alto e maior vulcao da ilha) comecou a entrar em erupcao. Todos os mestres Hindus da ilha reuniram-se aqui no Templo Mae (que fica na base deste vulcao) e fizeram cerimonia. Sacrificaram bufalos, porcos, cabras. O vulcao parou. Em Sumatra o vulcao nao para porque os muculmanos nao querem a ajuda dos Hindus”.

De qualquer forma a natureza de Bali responde. Deus sinceramente esta aqui. Nas flores mais lindas que eu ja vi, chamadas Frangipan, que tem um cheirinho adocicado e que se jogam das arvores sempre no meio do caminho, deixando um rastro delicado e completando a paisagem de flores por todos os lados. Vermelhas, brancas, cor-de-rosa, roxas, lilas, amarelas. Ibiscos, bouganvilles, orquidias, rosas. Um deleite pros olhos e pro coracao. Nao e a toa que as flores, nas ofertas, simbolizam os pedidos.

Mas e as praias de Bali? Nao se fala delas? Claro que sim. Estivemos em apenas duas, Balangan Beach e Padang Padang. A primeira seria o cenario da minha viagem pra Bali com minhas amigas. Certamente ficariamos num daqueles bangalos pra surfistas. A segunda foi o lugar onde encontramos mais brasucas ate agora. As duas muito bonitas. Mas confesso que, como nao surfo, dropei mais ondas com o universo mistico da religiao deles.

Claro que uma ilha de 95km por 150km e com 3.5milhoes de habitantes nao pode ser vista muito menos relatada em uma semana. Ainda mais em algumas linhas ansiosas que tentam descrever lugares e sensacoes enquanto tudo se confunde em tanta informacao.

 Os caminhos de um lugar pra outro sao mais longos que eu esperava. E estreitos, estreitissimos. Tenho a nitida impressao de que os carros aqui sao mais finos.. Todo mundo passa onde quer, inclusive onde nao cabe. Aflicao pura!

Mas  e facil desviar o olhar das motinhos suicidas. As paisagens sao quase sempre cenograficas.

Todas as casas tem um templo. Todos os vilarejos tem pelo menos tres. Pra onde quer que voce olhe em Bali, ve um templo e, consequentemente, uma milhao de ofertas. Isto sem falar nos templos principais (Pura Tanah Lot, Pura Ulu Watu, Pura Besakih, Pura Tirta Empul, Pura Kehen, Pura etc e tal) que sao sempre uma visao surreal.

Se nao estiver atravessando um vilarejo a vista se alterna entre poeticos vales de arrozais e uma mata tropical densa que lembra seriamente a nossa atlantica. De leste a Oeste Bali e recortada por vulcoes. Do aviao da pra perceber perfeitamente esta divisao. No centro-norte ha tres lagos e ao redor da ilha ilha toda um sem fim de praias, mas so as do sul de areia branca, as outras sao de areia vulcanica.

Tem Bali pra todo mundo e cada um tem a Bali que quiser. Tem quinhentas mil atividades turisticas (a Floresta dos Macacos e bem massa). A comida e deliciosa – my favorites Mie Goreng, Nasi Goreng, Satay. Os precos, se compararmos com um lugar deste naipe de pop na Europa, sao uma pechincha (duas pessoas comem bem num lugar bacana por US$15).

Entre tudo, o souvenir que levo de Bali e a  gratidao que testemunei ali num sem fim de demostracoes. A ultima vinda de Roy, the Boy.

“ Deus disse: nao fique triste se voce for pobre, nao fique feliz se voce for rico. Apenas sorria. Deus  gosta de sorriso”.

Terima - Kasih (obrigada)

Sat Nam :)

 

Publicado em: 28/08/2010

Welcome to Asia

Cheiro de Yakisoba, calor de grudar. Welcome to Asia. São 7h da manhã e acabamos de aterrisar no aeroporto low cost de Kuala Lumpur, Malásia.

Imediatamente me toco de que nós, sulamericanos, somos tão Ets para os asiáticos, como eles para nós.

Você esteve na América do Sul nos últimos trinta dias? - É uma das peguntas do cartão de imigração.

Começo a ter certeza do que eu já achava, pro mundo em geral existe América do Norte – leia-se basicamente Estados Unidos – Europa, e o resto.

Confesso que fiquei um pouco chateada. Mas a Poliana que há mim achou por bem engolir a explicação do namorado Europeu, nós somos o outro lado do mundo para eles.

O aeroporto não tem ar condicionado (amo e odeio este universo a baixo custo), nossos piores inimigos já se manifestaram: nossas malas. Por menor que elas sejam, incomodam, pesam, caem. Malas. Literalmente. Um mal necessaríssimo.

O Ocidente vence a primeira disputa com o Oriente. Ao invés de um café de uma rede chinesa, lotado, mais barato e sem refrigeração, preferimos o mais ou menos bom e velho Starbucks, com wi fi, air congelando e muitos turistas com seus iced lattes e lap tops.

Justifico comigo mesma que é apenas um momento de transição. Adaptação. Vamos com calma. No minuto seguinte sofro um acesso de mau humor porque tá muito calor, mas o ar tá muito frio, não acho nada na mala, a mochila tá pesada, tô cansada, o que que eu vim fazer neste lugar tão longe? Ninguém merece estar podre de sono e saber que só vai poder relaxar daqui 6h.

O jet leg é um demônio tão poderoso quanto a tpm.

Nosso vôo para Bali, também com Air Asia remontou o cenário dos meus 18 anos e uma viagem de busão pra Bahia. Não fosse a língua completamente inteligível que eles gritavam feito maritacas bêbadas, pensaria estar em um pau-de-arara indo de Feira–de-Santana para Ilhéus. Só faltou a canja na garrafa térmica com a farofa na tampa.

 

Bali


Foi preciso mais do que cinco minutos daquele vento morno pra nos trazer de volta a consciência e ao fato de que, definitivamente, precisaríamos encontrar um outro jeito de chegar no hotel.

Sabia que Bali era turística, mas confesso que minha ingenuidade ou ignorância não tinha quantificado exatamente aquilo. Ao passar pelo portão de desembarque  tive  vertigem lendo aquela quantidade absurda de plaquinhas com nomes de Misters Fulano, Hoteis Whatever, Agências Boh.

Em vão. A do nosso suposto Suzuki Jimmy alugado, não estava ali.

Não tendo contado com a astúcia da carteira de habilitação internacional, ficamos na dúvida quando a própria agenciadora de carros de aluguel disse que bastava pagarmos USS$40 para a polícia se nos parassem. E se eles achassem legal parar os dois tchutchos toda hora? Um excesso de suborno seria devastador pro nosso orçamento, pra nossa moral e pro meu espírito.

Cedemos a um taxista que cedeu a nossa pechincha de US$15 até o hotel. No caminho para o taksi ficamos felizes por nosso carro ter dado balão. É que nenhum de nós – apesar de morarmos em Londres – sabe dirigir na mão direita e, muito menos, sabia que a direção na Indonésia é a destra.

Ao longo do pandêmonio de comércio na avenida principal que liga o Aerporto (e a cidade de Denpasar) a Sanur - onde fica nosso hotel - Bali começava a revelar seu lado mais rebelde. 

Legiões de budas em pedra, movéis balineses (!!!), trânsito caótico, spas, centenas de motinhos com gente amontoada e algumas estátuas típicas, foram fazendo cair a ficha de onde estamos.

De repente notei que não havia mais ansiedade dentro de mim. Bali nos acolhia, com seu jeito. Uma palavra nova que meu dicionário acaba de ganhar. Não é exatamento belo, mas é essencialmente Bali.

Depois de 24h de viagem no espaço e no tempo, finalmente atingimos nossa meta: a piscina do Hotel Palm Garden, uma cerveja Bintang e um prato de Mie Goreng.

Sat Nam ;)

 

 

 

 

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