Paula Santomauro
Tenho uma mão no bolso e outra pedindo carona pra Lua.

Publicado em: 31/08/2010

Terima - Kasih

Minha vontade era tirar o chinelo e nadar pra sempre naquelas aguas cristalinas.

Claramente nosso Guia nao apoiava meu desejo. Recolhi-me a minha posicao de mera observadora e me contentei a molhar o rosto e as maos.

Assim como contentei-me a ver quase todos os templos de fora. E impossivel viver Bali sem mergulhar no mundo ritualista e simbolico – uma especie de barroco rococo asiatico – que e o Hinduismo Balines.

Porem, nao e facil penetrar a membrana que protégé esta dimensao tao sagrada para seu povo. E de impressionar a maneira como os Balineses,  apesar do turismo massivo que os sustenta, conseguem manter suas tradicoes tao intactas.

Minha primeira foto mental de Bali foi de uma especie de cestinho de bambu todo coloridinho que estava em varios balcoes do aeroporto. Cheguei mais perto e vi que continam biscoitinhos em cima de varias petalas de flores. Muito queridos estes Balineses que oferecem esse agrado aos turistas.

Um milesimo de segundo depois, vi o mesmo cestinho no chao. Nao precisei fazer nenhuma sinapse nerologica para entender que aquilo era na verdade oferenda. Oferendas que sao o comeco, o meio e o fim de tudo o que diz respeito a esta cultura. Oferendas aos montes,  o tempo todo, em todo lugar. Oferendas com as quais eu tropecaria 70 mil vezes nos proximos dias. Oferendas que sao a diferenca principal entre o Hinduismo de Bali e o da India. Oferendas que, segundo nosso guia Made, “ sao pra manter Deus em Bali”.

“E que Deus tambem gosta de comer” – justificou Roy, the boy, nosso primeiro motorista, sobre o arroz ou biscoitinhos sempre presentes nas ofertas – “Deus da arroz pro povo, o povo agradece e da arroz pra Deus”.  E por que as ofertas ficam nos balcoes e nos templos e tambem no chao? – perguntei – “No alto pro deus bom, no chao pro deus mau”.

Curiosa e muito inteligente esta relacao que o Hinduismo Balines tem com a dualidade, o equilibrio. Masculino e feminino. Horizontal e vertical. Assim como e admiravel o respeito e interacao com a natureza. Um templo voltado pro mar, outro pra montanha, outro pro nascer do sol. Ha sempre uma arvore sagrada que protégé.  Cerimonias pra lua cheia, pra lua Nova. E Bali e o palco perfeito pra isso.

“Espero que voces tenham a cabeca aberta para ouvir minhas previsoes”, disse Made, “o dia em que 50% da populacao mundial for Hinduista Balines, o mundo estara a salvo”. Fizemos aquele olhar respeitoso que se faz para uma avo quando ela explica que quem tinha tatuagem na epoca dela nao era bem visto.

“ I can prove” - disse ele pegando um pedregulho e comecando  a rabiscar no chao –  “depois do tsunami de 2004 este vulcao (o Monte Agung, ponto mais alto e maior vulcao da ilha) comecou a entrar em erupcao. Todos os mestres Hindus da ilha reuniram-se aqui no Templo Mae (que fica na base deste vulcao) e fizeram cerimonia. Sacrificaram bufalos, porcos, cabras. O vulcao parou. Em Sumatra o vulcao nao para porque os muculmanos nao querem a ajuda dos Hindus”.

De qualquer forma a natureza de Bali responde. Deus sinceramente esta aqui. Nas flores mais lindas que eu ja vi, chamadas Frangipan, que tem um cheirinho adocicado e que se jogam das arvores sempre no meio do caminho, deixando um rastro delicado e completando a paisagem de flores por todos os lados. Vermelhas, brancas, cor-de-rosa, roxas, lilas, amarelas. Ibiscos, bouganvilles, orquidias, rosas. Um deleite pros olhos e pro coracao. Nao e a toa que as flores, nas ofertas, simbolizam os pedidos.

Mas e as praias de Bali? Nao se fala delas? Claro que sim. Estivemos em apenas duas, Balangan Beach e Padang Padang. A primeira seria o cenario da minha viagem pra Bali com minhas amigas. Certamente ficariamos num daqueles bangalos pra surfistas. A segunda foi o lugar onde encontramos mais brasucas ate agora. As duas muito bonitas. Mas confesso que, como nao surfo, dropei mais ondas com o universo mistico da religiao deles.

Claro que uma ilha de 95km por 150km e com 3.5milhoes de habitantes nao pode ser vista muito menos relatada em uma semana. Ainda mais em algumas linhas ansiosas que tentam descrever lugares e sensacoes enquanto tudo se confunde em tanta informacao.

 Os caminhos de um lugar pra outro sao mais longos que eu esperava. E estreitos, estreitissimos. Tenho a nitida impressao de que os carros aqui sao mais finos.. Todo mundo passa onde quer, inclusive onde nao cabe. Aflicao pura!

Mas  e facil desviar o olhar das motinhos suicidas. As paisagens sao quase sempre cenograficas.

Todas as casas tem um templo. Todos os vilarejos tem pelo menos tres. Pra onde quer que voce olhe em Bali, ve um templo e, consequentemente, uma milhao de ofertas. Isto sem falar nos templos principais (Pura Tanah Lot, Pura Ulu Watu, Pura Besakih, Pura Tirta Empul, Pura Kehen, Pura etc e tal) que sao sempre uma visao surreal.

Se nao estiver atravessando um vilarejo a vista se alterna entre poeticos vales de arrozais e uma mata tropical densa que lembra seriamente a nossa atlantica. De leste a Oeste Bali e recortada por vulcoes. Do aviao da pra perceber perfeitamente esta divisao. No centro-norte ha tres lagos e ao redor da ilha ilha toda um sem fim de praias, mas so as do sul de areia branca, as outras sao de areia vulcanica.

Tem Bali pra todo mundo e cada um tem a Bali que quiser. Tem quinhentas mil atividades turisticas (a Floresta dos Macacos e bem massa). A comida e deliciosa – my favorites Mie Goreng, Nasi Goreng, Satay. Os precos, se compararmos com um lugar deste naipe de pop na Europa, sao uma pechincha (duas pessoas comem bem num lugar bacana por US$15).

Entre tudo, o souvenir que levo de Bali e a  gratidao que testemunei ali num sem fim de demostracoes. A ultima vinda de Roy, the Boy.

“ Deus disse: nao fique triste se voce for pobre, nao fique feliz se voce for rico. Apenas sorria. Deus  gosta de sorriso”.

Terima - Kasih (obrigada)

Sat Nam :)

 

Publicado em: 28/08/2010

Welcome to Asia

Cheiro de Yakisoba, calor de grudar. Welcome to Asia. São 7h da manhã e acabamos de aterrisar no aeroporto low cost de Kuala Lumpur, Malásia.

Imediatamente me toco de que nós, sulamericanos, somos tão Ets para os asiáticos, como eles para nós.

Você esteve na América do Sul nos últimos trinta dias? - É uma das peguntas do cartão de imigração.

Começo a ter certeza do que eu já achava, pro mundo em geral existe América do Norte – leia-se basicamente Estados Unidos – Europa, e o resto.

Confesso que fiquei um pouco chateada. Mas a Poliana que há mim achou por bem engolir a explicação do namorado Europeu, nós somos o outro lado do mundo para eles.

O aeroporto não tem ar condicionado (amo e odeio este universo a baixo custo), nossos piores inimigos já se manifestaram: nossas malas. Por menor que elas sejam, incomodam, pesam, caem. Malas. Literalmente. Um mal necessaríssimo.

O Ocidente vence a primeira disputa com o Oriente. Ao invés de um café de uma rede chinesa, lotado, mais barato e sem refrigeração, preferimos o mais ou menos bom e velho Starbucks, com wi fi, air congelando e muitos turistas com seus iced lattes e lap tops.

Justifico comigo mesma que é apenas um momento de transição. Adaptação. Vamos com calma. No minuto seguinte sofro um acesso de mau humor porque tá muito calor, mas o ar tá muito frio, não acho nada na mala, a mochila tá pesada, tô cansada, o que que eu vim fazer neste lugar tão longe? Ninguém merece estar podre de sono e saber que só vai poder relaxar daqui 6h.

O jet leg é um demônio tão poderoso quanto a tpm.

Nosso vôo para Bali, também com Air Asia remontou o cenário dos meus 18 anos e uma viagem de busão pra Bahia. Não fosse a língua completamente inteligível que eles gritavam feito maritacas bêbadas, pensaria estar em um pau-de-arara indo de Feira–de-Santana para Ilhéus. Só faltou a canja na garrafa térmica com a farofa na tampa.

 

Bali


Foi preciso mais do que cinco minutos daquele vento morno pra nos trazer de volta a consciência e ao fato de que, definitivamente, precisaríamos encontrar um outro jeito de chegar no hotel.

Sabia que Bali era turística, mas confesso que minha ingenuidade ou ignorância não tinha quantificado exatamente aquilo. Ao passar pelo portão de desembarque  tive  vertigem lendo aquela quantidade absurda de plaquinhas com nomes de Misters Fulano, Hoteis Whatever, Agências Boh.

Em vão. A do nosso suposto Suzuki Jimmy alugado, não estava ali.

Não tendo contado com a astúcia da carteira de habilitação internacional, ficamos na dúvida quando a própria agenciadora de carros de aluguel disse que bastava pagarmos USS$40 para a polícia se nos parassem. E se eles achassem legal parar os dois tchutchos toda hora? Um excesso de suborno seria devastador pro nosso orçamento, pra nossa moral e pro meu espírito.

Cedemos a um taxista que cedeu a nossa pechincha de US$15 até o hotel. No caminho para o taksi ficamos felizes por nosso carro ter dado balão. É que nenhum de nós – apesar de morarmos em Londres – sabe dirigir na mão direita e, muito menos, sabia que a direção na Indonésia é a destra.

Ao longo do pandêmonio de comércio na avenida principal que liga o Aerporto (e a cidade de Denpasar) a Sanur - onde fica nosso hotel - Bali começava a revelar seu lado mais rebelde. 

Legiões de budas em pedra, movéis balineses (!!!), trânsito caótico, spas, centenas de motinhos com gente amontoada e algumas estátuas típicas, foram fazendo cair a ficha de onde estamos.

De repente notei que não havia mais ansiedade dentro de mim. Bali nos acolhia, com seu jeito. Uma palavra nova que meu dicionário acaba de ganhar. Não é exatamento belo, mas é essencialmente Bali.

Depois de 24h de viagem no espaço e no tempo, finalmente atingimos nossa meta: a piscina do Hotel Palm Garden, uma cerveja Bintang e um prato de Mie Goreng.

Sat Nam ;)

 

 

 

 

Publicado em: 24/08/2010

Descolagem

Om. Shanti. Namaste!

É interessantíssimo viajar no tempo. Nas últimas  12h 24 se passaram. Parece que foi ontem. Sempre desconfio do tempo e ele nem liga. Continua passando displicente, me surpreendendo, me assustando.

Estar acima das nuvens é mágico.  Em 5 horas a manhã pulou a tarde e são duas da madruga. As estrelas, mesmo com as nuvens sob meus pés, continuam simplesmente profundas. Numa versão invertida de andar pela vida.

Não gosto particularmente de aviões. Minha relação com eles é uma questão de necessidade. Mas este é um vôo particular. Não só porque estou dentro dele mesmo sem o menor sinal de qualquer presença infantil –é que eu tenho esta coisa de achar que um bebê no vôo garante que chegaremos sãos e salvos - mas sim porque estou voando rumo a um sonho que, de repente, tornou-se desconhecido.

Impressionante como os objetos no espelho parecem mais longe do que realmente estão. Isso que eu quis tanto durante tanto tempo agora me causa tantas sensações que, apesar do desconforto da low budget Air Asia , quase não quero que Kuala Lumpur chegue.

De repente descubro minhas velhas fraquesas revestidas do mesmo medo, desta vez no modelo Sarung.

Não é o fato de não saber o que vai acontecer que me causa arrepios, é a paúra de estar realizando uma coisa que me parecia tão remota, que realmente me nóia. Nunca me dou conta do quanto concretizar um plano é real, até que ele esteja acontecendo. E, então, minha primeira reação é sempre assutada.

O esboço que sai da planilha mental, da planilha do excel, da planinha dos projetos e vira um monte de papeis impressos com reservas e confirmações e páginas de travel guides grifadas em colorido, refletindo toda a excitação deste novo desafio.

Há seis meses atrás quando compramos a passagem não imaginei como meu estômago reagiria a isto tudo. Hoje, oito horas de vôo depois, posso descrever um misto de gratidão e pânico se revesando no controle de minhas emoções (relativamente equilibradas graças a overdose de Rescue Remedy).

Passemos a parte prática. Lutando contra minha tendência a verborréia surreal, vamos falar de dados.

Seis meses de planejamento

Dois meses de viagem

6 (ou 7?) países

Umas 15 cidades

Pelo menos 10 vôos

13.5kg cada mala

mais uns 10 cada mochila

Uma Canon 40D

Uma camera de bolso

Dois computadores

Eu com quase trinta, querendo ser descolada

Meu namorado fotógrafo super viajado

Este blog

Outras coisas como, lanterna, repelente, 11 blusinhas, 3 shorts, 3 calças larguinhas, dois casaquinhos leves, biquini, bone,  capa de chuva e todo o resto de nossos pertences em baixo da nossa cama, em Battersea, Londres, no nosso quarto sub-locado.

E a grande maioria das pessoas que eu amo do outro lado do Atlântico. E nós atravessando a Rússia e indo ainda mais longe de tudo que até hoje considerei casa. Logo agora que Londres realmente feels like it. Cheia de gente que já tão importante pra mim, entre toda aquela gente diversificada que já tão comum pra mim.

Talvez esta ânsia de viajar tanto para lugares tão remotos seja uma necessidade crônica de fujir de casa.  Talvez sejamos mesmo descolados e precisemos testemunhar e tatear o lado escuro da lua, com diz meu boyfriend.

Talvez eu devesse simplesmente me ater aos fatos, aos tais dados e parar de devanear.

O que espero desta viagem?

Espero de coração estar aberta a todas as esperiências. (Espero também que meu próprio humor colabore com os efeitos  de desconforto devido a transição a leste do planeta e a um monte de coisas que não capisco).

Espero que apesar da nossa pouca bagagem, possamos ser tolerantes com as diferenças, pacientes com nós mesmos, disciplinados o suficiente para não perdermos nenhum vôo, loucos o bastante para abraçarmos as aventuras e abençoados a ponto de encontrarmos em nossos caminhos pessoas especiais que possam tocar nossa alma e, se possível, nos deixar tocar a delas.

Pretendemos com toda nossa humildade viajar de maneira sustentável, respeitando os países e os cidadãos.

Temos interesse particular em toda a espiritualidade que permeia o tema do Oriente e nos fascina de maneira tão magnetizante.

Reconectar-nos com a natureza. Afastar com gratidão tudo o que obscurece a sagrada harmonia de viver. Aprender pelo amor. Trocar energias. Dar mais um passo no caminho da auto-cura e, assim, da nossa evolução. Tudo isso, vivendo cada agora.

Staneh. Espero que a gente se cuide e se jogueeeeeeeeeeeeeee


***


ps: Não posso partir sem antes agadecer.

A todos que fazem parte da realização de mais este sonho. Especialmente a Deus, meu pai Tadeu, minha mãe Gina, minha irmã Rê. Minhas tias Inês e Zina.  Kalma e Vivinha. Meus tios Régi, Pedro e Bu. Meus primos. Meus amigos e minhas amigas (tenho os melhores do mundo, pelo mundo todo e a sorte de não ter linhas suficientes para mencionar todos). Meu namorido, parceiro, companheiro de aventuras, Giulio.

Aos meus avós Fausto, Thereza, Tiso e Lúcia. Que saudade imensa.

Aos meus bisas, trizas e etc - quem honra aos seus não degenera.

As pessoas especiais que cuidam de nós: Chico, Dirce, Madalena, Tati, Maria do Carmo, Jane.

Dedico esta viagem ao universo, minha incessante fonte de inspiração e expiração.

Obigada

Estejamos todos em paz, na luz e no amor.

Que tenhamos cada vez mais fé, aceitação, disciplina, força de vontade e clareza de ações e escolhas.

 

Sat Nam ;)

 

 

Publicado em: 17/04/2010

Sorry about that

I am sorry. I am really sorry. De verdade, eu sinto muito. Sinto muito e peço desculpas por este tempo de não escrivinhança. Não postança.Mas é que não dava. Não tava dando. Era o dia cinza, todos os dias cinzas, a chuva, a neve, o provedor que falhava. Era a saudade, o natal, o ano novo e o novo ano. As mudanças, a confusão, a necessidade de dormir muito, muito, muito mesmo. Ou de assistir um filme - ou quatro - ou de ficar na cama, jogada sem fazer nada. Uma canal sempre aberto pras lágrimas. O edredon sempre pesado de mais para ser tirado de cima, o aquecimento sempre quentinho suficiente para que não se queira sair, o tempo lá fora sempre úmido e escuro, de um jeito que da medo e remete a pijama e brigadeiro.

Mas o tempo que não pára - clichezando necessariamente Cazuza - foi mudando as folhas do calendário até que o relógio andiantou uma hora, a temparatura aumentou uns 10 graus e as ávores, antes despudoradamente peladas, começaram a despontar brotinhos, folhinhas novas, flores. Primeiro as amarelas, depois as brancas, logo as vermehas. Ainda não pesquisei na wikipédia, mas tenho certeza que há uma ordem no florescer das cores, independente do tipo. Outra hora.

Hoje céu azul. Azul de verdade. Azul sem vergonha, sem noção, sem medo nem culpa. Azul que dá gosto, que alegra, que anima. Azul que ressuscita! Nem tanto ao céu, que a temperatura não tá lá mais do que singelos 15 graus.

Curioso a diferença de referenciais, a facilidade de se adaptar (de certa forma) a padrões. Qualquer 15 graus no Brasil e a gente desenterra o cobertor. Qualquer 15 graus em Londres e a gente desenterra a canga e vai pro parque.

E fica aproveitando o dia lindo, bebendo vinho, jogando conversa fora e, óbvio, tirando um sarro fenomenal do verão de Inglês.O jeito que eles se estiram em qualquer meio metro de verde (cuidado na escolha da cor do seu tapetinho na porta de casa), a mulherada de sutião, os caras sem camisa, uma braquelice que dói os olhos e deve arder de noite, quando vão dormir. Se é que este so queima.

Sol e moleton é mucho sospetioso.

E bolas, ora bolas, bolas por todas as partes, pequenas grandes chutadas lançadas. Fucking balls ameaçando meu Montepulciano D'Abruzzo, minha cabeça, minha paz. Cachorros que simplesmente ignoram uns aos outros. Não latem, não interagem com outros de sua condição. cachorros que são quase robôs. No mais tudo meio parecido com qualquer dia de sol. Crianças tomando sorvete, gente bebendo cerveja, os mais esportivos se exercitando, risdas por todo lado, óculos escuros, um chorinho ali, uma gritaria acolá.

Meu telefone toca. Um amigo figurissima mechama para desabafar. Parafrasei-o-o: sabe, depois de cinco ano nessa terra cinza eu me apeguei aos dias nublados. Fico sempre meio blasé, durmo até mais tarde. De sábado saio de guarda chuva, vou a alguma mostra no Tate ou na National Gallery, pego um cineminha em bayswater, janto num japonês no soho ou um italiano em chelsea. Domingo, durmo até mais tarde de novo, almoço um sunday roast num gastro-pub local e assisto três filmes jogado na cama. Agora este sol? Este céu azul? Não sei o que faço. Me dá uma ânsia. Quero fazer tudo ao mesmo tempo. Churrasco na casa dos amigos, pick-nick no parque, pints na calçada em bricklane, passeiozinho por covent garden. Meu telefone não pára de tocar, não sei que roupa ponho e nao acho a merda da minha canga caso eu decida ir no parque.

Ai, estes dias de sol em Londres são um verdadeiro tormente. Imagina se alguém me liga e eu digo que estou dormindo. Um bafo. Que preguiça do verão. Aberta a temporada de visitas, cerveja quente e pés feios de unhamalfeita e cascão no metrô!

N mesma linha observo um grupo de três casais que acaba de chegar ao parque. Acabaram de almoçar em algum restaurante dos arrededores. Comeram, beberam, desfilaram suas t-shirts e calças pescador e agora, estão no parque. Percebe-se claramente a falta de preparo, de disposição. É uma coisa meio forçada, uma papo já meio sem muito assunto, posturas comvontade de deitar, pés voltados pro protão. Querem ir pra casa, ler seus livros, jogar fifa no playstation, assistir um programa tosco e cochilar na tv, mas não podem. Nunca sabem se este é o último ou, quiçá o único dia de sol Londrino este ano.

Levanto a cabeça da tela do computador, eles não estão mais ali. Foram pra casa, como queriam, mas agora sem a culpa de terem perdido o dia de sol, vão atualizar seu statuts do facebook 'lovely saturday at the park'.

Aiiiiiiiii! A porra da bola me acertou. Sorry? Sorry? Sorry uma ova. Eu é que sou sorry por este inverno inspiracional!

Sat Nam ;)

 

Publicado em: 23/11/2009

Tanto Faz

“Tanto Faz é fundamental”. Totalmente. E eu não posso nem dar os devidos créditos ao respectivo escrivinhador da frase acima, que vim a ler no posfácio deste livro que tanto me fez, visto que meu amigo empresteiro arranca-o da minha mão enquanto eu, pesarosamente, comentava num suspiro fundo, contemplando nostálgica aquele meu já tão bom e velho companheiro de metro: acabei. Economizei, li bem devagarinho, voltei algumas páginas até, mas acabei.

 

É, acaba mesmo. Disse ele sorrindo de orelha-a-orelha enquanto tomava de volta seu brinquedo favorito. Sempre acaba.

 

Droga. Acabou e nem tem mais nas livrarias. Agora vou ter esse toc novo. De entrar em cada sebo por que passar procurando por TANTO FAZ do REYNALDO MORAES. Este e também todos os outros integrantes da coleção Cantada Literária, da editora que esqueci o nome (tem google pra quê?).

 

Uma turma bacana que nos anos 80 e pouco, enquanto eu e minha geração aprendíamos a falar, já se descolava por aí, num jeito profundo e original de fazer arte sem fazer mistério.

 

Se não estivesse em pleno ócio criativo – leia-se: minha criatividade está com preguiça – deslancharia uma bela ode agradecendo ao Reynaldão (ou Ricardinho, o cara do book), acima de tudo, pelas gargalhadas singulares que me causou entre as cinco estações da Victoria line que tenho que encarar antes de atingir meu rotineiro destino de everyday.

 

Embora não apenas de gargalhadas me tanto fizeste o onicitado libro. Também me remeteu a Bougart, Casablanca, sambinhas aleatóreos, pinceladas poéticas, tragadas de um senso de humor inteligente, sarcástico e escrachado pra caralho (sorry about that). Além de, como não poderia deixar de ser, promover sinapses filosóficas em meu neurôcios psicóticos originando idéias fantásticas das quais perdi cada fio da meada ao descer na estação.

 

Tanto Faz. O que importa é que este é meu mais novo the book on the table ao lado da minha cama, pra que toda vez que a isnpiração falhar (e ela é boa nisso!) ele esteja ali, firme, com tesão suficiente pra me animar.

 

Eu, Reynaldo, Ricardo, o amigo espresteiro, o escrivinhador do posfácio, Londres, Paris, Brasil , década de 80, dois mil e pico e toda a turma dessa tal Cantada Literária temos em comum o fato de que Tanto Faz é um clássico que tanto faz.

Publicado em: 04/11/2009

Tudojuntomixturado

É bom chegar lá. Perceber numa outra língua novas ferramentas pra boa e velha caixa de expressar. Chorar na tecla sap. Rir sem subtitles. Ia comprar qualquer coisa. Notei na entrada a nigeriana e seu penteado embrulhado em papel preto brilhoso. Impossível não pensar: what? E segui, antropologisando meu ego numa tentativa de aceitar que cada qual com seu próprio óculos enchergador de mundo. Fui saindo. A muçulmana de burca preta ia entrando. Só os olhos de fora. Notou, como se fosse possível não notar, a mesma nigeriana ostentando aquele seu penteado. Com seus dois olhinhos que o mundo todo podia ver ela disse tudo. Como quem vê e não acha assim tããão legal. Isso é Londres. Talvez seja o caso do Islamismo tapar também os olhos das mulheres. Pela expressividade daquele olhar de quem viu um homem com a cueca por cima da calça, talvez devam deixar tudo de fora e tampar o parzinho de janelas que fala em qualquer idioma. Saudade é palavra que em Inglês não há. Carinho também não. Nem cafuné. E também não pode usar delicious pra dizer que estava delicioso, a não ser se estiver falando falando do pudim, do drink de morango, do estrogonoffe de frango. As vezes da saudade de carinho. Só pra não perder o hábito de desejar sempre algo que falta.

Publicado em: 04/11/2009

Tem coisas que só Londres faz por você II

Você já viveu de casaco? Pois é, aqui se vive assim. Seus casacos ficam pendurados na porta. Quando você vai ali do lado comprar leite, mete o casacão por cima do pijama e ninguém imagina sua descompostura. Quando você vai sair de casa pra trabalhar coloca entre a roupa e o casaco mais uma blusa, de lã por exemplo. Aí você pega sua chave, seu ipod, seu Oyster (carteirinha do metro), seu celular, sua bolsa, a sacola que contém seu sapato alto (não dá pra caminhar na rua de salto) e sempre sua umbrella. Também conhecida como guarda-chuva. Guarde bem: nunca, nunca, nunca ouse esquecer sua umbrella. Enfim lá está você, embrulhada na sua armadura contra o frio - que inclui ainda cachecol, luvas e gorro – até que chega no Metro. Antes de mais nada um dos carinhas que distribui os tablóides gratuitos enfia um na sua cara. Você prende aquilo entre o queixo e o ombro e continua seu caminho. Sorte que a tinta do jornal daqui é especial e não suja a pele. Senão todo mundo ia viver com o pescoço encardido de preto. Entao voce rebusca seu Oyster em algum bolso e passa na catraca. O metro é um forno: hora do efeito cebola. As pessoas literalmente se descascam correndo e se atropelando entre as escadas e corredores do underground. Suas mãos escorregam por conta das luvas, em um braço a bolsa mega pesada e no outro a sacola dos sapatos. O jornal encaixado no vão pescoco-ombro, e você pretende tirar seus casacos como? Desenvolver a habilidade de um polvo, nessa situação é uma técnica interessante. No meu caso, a esta altura chego na plataforma suando. Estaciono, coloco os pertences no chão, entre as pernas. Arranco uma luva, arranco o gorro, arranco o cachecol. Jogo tudo na sacola do sapato. Antes de poder tirar o casaco tenho que tirar dos bolsos o ipod - nessa hora o fone escapa do meu ouvido - o celular e o oyster card. Tudo correndo, porque daí o metro já chegou. Cato as coisas do jeito que dá e entro no vagão procurando um lugar pra sentar. Eis que então comeca minha sessãoo check list: confiro se tudo que tava nos bolsos do casaco está agora nos bolsos da calca. O celular eu sempre tenho certeza que perdi, até que acho. Leio a primeira notícia sobre como a Victoria Beckham prefere o cabelo do David e é hora de fazer baldiação. Pego minhas tralhas, subo escada, desço escada, atravesso 3 corredores, pronto. Espero o outro metro. Mal entro nele e já comeco a recolocar minhas coisas. O casaco, a parafernália nos bolsos, o gorro, as luvas. Cheguei. Na beira da catraca para sair meu oyster sempre encana em sumir. Quase morro pisoteada. Saio da estação e é como se eu tivesse aberto a porta do freezer. Meu nariz fica imediatamente vermelho e minha boca racha na mesma hora. Preciso do batonzinho. Onde está mesmo o batonzinho? Ah sim, na minha bolsa gigante onde eu nunca acho nada. Vou andando meio capenga, procurando o tal baton, desviando das pessoas, olhando pro lado errado na hora de atravessar e tentando achar o celular pra descobrir toda a vez que estou pelo menos 7 minutos atrasada. Dou risada da minha própria cara e sigo minha caminhada desastrada, individual e comunitária rumo a mais um dia de aventuras na Terra da Rainha. Eis que não quando começa a chover. Abro minha bolsa da Marry-Poppins a procura do guarda-chuva – eu disse que ele era indprescindível - e já fico planejando com que mão vou segurá-lo. Ainda não sou um polvo, mas um dia chego lá. Para quem não gosta de vida normal, isso aqui é poesia!

Publicado em: 04/11/2009

Estranho-Esquisito

Estranho-Esquisito o que não dá pra entender, não dá pra identificar, não dá pra saber de onde vem, pra onde vai, como e porque. Estranho-Esquisito é quando o silêncio parece compacto, o coração parece molenga, a cabeça parece confusa. Estranho-Esquisito é cor-de-burro-quando-foge. Não parece com nada, não lembra ninguém. Estranho-Esquisito é mal-estar de gripe. Terça-feira a noite. O Big Brother de London que todo mundo só dorme. Estranho-Esquisito é quando tava metade cheio e fica metade vazio. É quando estava a plenos pulmões e precisou tomar impulso. Estranho-Esquisito é ter a certeza de que a próxima Primavera sempre vai chegar e ainda assim temer o inverno. É saber que o quebra-cabeça se encaixa e ainda assim achar que a peça não existe. É saber que tudo dá certo e viver com insônia. Estranho-Esquisito é achar que não merece o que tá bom e reclamar quando tá mal. É ser tão mais fácil aguentar um dia todo de ressaca do que um mês inteiro sem beber. Estranho-Esquisito é ser humano e fazer escolhas por medo, desconfiar da sabedoria da vida e ainda assim confiar tanto. Estranho-Esquisito. Mosquito preso no metrô. Muçulmana tretando com junkie. Cada sapato pra um lado. Dor de cabeça. Dia nublado. Panela enferrujada. Mudança. Preguiiiça de tudo. Estranho-Esquisito. É.

Publicado em: 04/11/2009

Crouch End

Como será Crouch End? Será um bairro como outro qualquer de Londres? Será que as casinhas são todas Vitorianas e tem um off license (os mercadinhos daqui) a cada esquina? Ou será que tem um parque lindo e um restaurante delicioso de comida Etíope? Não sei e, provavelmente, nunca saberei, já que Crouch End é o ponto final do meu busão e eu não tenho a menor intensão de ir lá conferir como é. Aos lugares em que nunca vou chegar. Às pessoas que jamais conhecerei. Aos planos que nunca farei. Aos caras que nunca beijarei. Aos momentos que não vou passar. As tantas coisas que não vou viver. As vitórias que não vou alcançar, aos erros que não vou cometer, aos brindes que não terei tempo de fazer. Às crases que eu nunca sei onde colocar. À tudo que não vou experimentar, testar, tentar, acertar, ousar, me jogar...a tudo o que não vou ser: Obrigada! Pela falta que não me fazem, pela ansiedade que deixam de me causar. Alguém me diz que vai pra Aushwitz, eu não sinto nenhuma vontade de ir também. Minha amiga está pensando em colocar silicone, eu não. Tem um vestido de um designer descolado que custa uns vários vários Pounds, eu não faço a mínima questão de tê-lo. A viagem pra Austria não me anima, a luta pela independência da Papaua New Guinea não me excita (embora eu tenha tremenda compaixão pela causa). A calça pink da menina no metro não me instiga a comprar uma igual. E eu não tenho nenhuma intenção de aprender a dançar zuck. Aos tantos nãos que dão tranquilidade e espaço aos “sins”. À todos os nãos que a gente escolhe, para que os “sins” signifiquem muito mais. À todos os nãos que vem por aí e aos grandes “sins” que trazem por trás. À todos os nãos. À todos os “sins”. Sem nenhum tanto faz. Ou talvez. Para algumas coisas, desvendar. Para outras, imaginação. Existir sem mistérios faz tanto sentido quanto sorrir sem alma, dormir sem sono, viver sem coração. Crouch End deve ser aquele lugar, além do horizonte, pra lá de Marrakesh, onde os sonhos se realizam e tudo pode acontecer.

Publicado em: 04/11/2009

Tem coisa que só Londres faz por você

Mal saí de casa já fui obrigada a ouvir um "fiu, fiu" de um Árabe. Os ärabes que me desculpem, mas só mesmo um deles pra enchergar motivo de "fiu, fiu" debaixo de tanta roupa. Vai ver, eles desenvolveram visão de Raio-X pra enchergar além das burcas. Entro no metro e duas chinesinhas estão conversando. Elas e seus risinhos. Elas e seu mandarim compulsivo. Elas e seu Chinês barulhento. Caraca, como é que isto pode ser a língua materna de alguém? A China deve parecer uma gaita desafinada. Saio do metro perturbada e resolvo ir de busão. Escolha errada. Mulecada indo pra escola, elas de sainha xadrez e penteados volumosos, eles e seu estilinho "sou do gueto, mas tenho que usar este uniforme com gravata". Bixo, eles fazem barulho. Tenho zero paciência com adolescente. Em qualquer idioma. Ok, vou apé. Se ao menos conseguisse andar na rua. Experimente cruzar a Oxford Street em horário de pico, talvez se você possuir o cajado de Moisés esses Hare Chrisnas calem seus chocalhos estridentes. Aiiiiiiiiiii, que susto. Pode parar esta ambulância e manda-lá me levar pro hospital mais próximo com suspeita de explosão de tímpano. Precisa ser tão alta esta sirene? Deve ser pra sobressair aos decibéis de todas as línguas do mundo. Ufa, cheguei! Silêncio. O tlec-tlec dos teclados é um mantra pros meus ouvidos. Ou seria, não fosse o fato de que o chefe chegou animado e resolveu ouvir Música Popular Indiana no último volume. Que ótimo, se a Portuguesa resolver colocar um Fado e a Nigeriana tiver vontade de cantar um rap do seu país eu juro que vou chamar a London School of Samba e aí, vamos ver quem fala mais alto. Pra dias de TPM Londres deveria ter versão close caption.

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