Paula Santomauro
Tenho uma mão no bolso e outra pedindo carona pra Lua.

Publicado em: 09/03/2011

Terra do Nunca

A todo o momento tinha a sensação de que iríamos encontrar o Peter Pan por lá

O lugar é fantástico. Diria até um pouco surreal. Muito provavelmente a Terra do Nunca foi inspirada nas mais de 4000 ilhotas de rocha (estilo pequenas Colinas) que se espalham sobre o mar tranquilo, esverdeado e um pouco poluído de Halong Bay.

O nome vem da lenda, Halong significa por onde passou o dragão (ou qualquer coisa do tipo). Segundo rege o conto, Deus mandou um dragão para ajudar os Viets a expulsar os Chineses de sua terra e o tal bichinho foi batendo sua cauda de um lado para o outro formando a incrível paisagem que vemos hoje.

Considerada a princial atração do turismo Viet, a melhor maneira de visitar HB, seja apenas para passar um dia ou para dormir uma noite, é comprando um tour organizado.

A príncipio relutamos contra isso, porém fomos obrigados a nos render, visto que acaba ficando mais caro fazer tudo por conta própria.

Depois de três horas de viagem em um micronibus, chegamos ao circo turismótico que é o caes de HB. De sugunda a segunda ao meio dia começa o horário do rush ali. Uma troca frenética de passageiros nos mais de 50 barcos-hotéis que meus olhos puderam enchergar.

Os barcos em geral, e o nosso particularmente, são bonitos e bem arrumados. Dignos do Capitão Gancho. Cabines individuais com ar condicionado e banheiro cinco estrelas (o melhor de toda nossa viagem até agora).

As refeições são inclusas bem como algumas atividades. Visitamos as Vilas flutuantes, formadas por antigos pescadores nomades que viviam em seus barcos errantes e que Tio Ho, com a intenção de controla-los consruiu.

Fomos também a uma caverna que mais paecia uma atração da Universal Studio, sem deixar de espetacular, apesar da iluminação esverdeada e da impressão que um dragão verde gigantesco de mentira, com bafo de peixe viria nos aterrorizar a qualquer instante.

De qualquer forma, no fim o tour acabou se revelando interessante. Uma oportunidade bacana de conhecer nossos primeiros colegas de viagem ocidentais até agora (!!!).

Diana, consultora de moda de NY. Apesar de ser metade Francesa, metade Viet era sua primeira vez no país e a lingua que falava quando criança voltou a tona, graças a sua enorme capaciade de socialização.

Outra figura era Bill. Um senhor perto dos seus 80, Escocês, com passaporte Kiwi e morador do Quênia. O objetivo de sua viagem pela Southeast Asia é um curso de 3 meses de Yoga Egípcia nas Filipinas (?!?). No momento, ele viaja enquanto o curso não começa e seu endereço ‘fixo’é a rua dos mochileiros em Bangkok.

Por outro lado foi também um ótimo momento para conversar descontraídamente com a tripulação – os verdadeiros meninos peridos - quando depois do jantar eles vieram chill out conosco, na sala-convés do barco.

Meu melhor amigo – prometi até apresentá-lo para a Two, a recepcionista do nosso Hotel de Hanoi – foi Vin. Prestes a fazer 25 anos aquela era sua primeira semana como crew manager do A-Class Cruise.

Ele, como Two, é de um povoado perto de Sapa e foi para Hanoi 4 anos atrás em busca de trabalho em hospitalidade. Ha poucos meses recebeu convite para trabalhar neste barco e agora estava começando a nova vida, já que ele e os outros 6 tripulantes moram no barco, no mesmo sistema de uma folga ao mes, pra voltar pra casa e visitar a família.

Relaxar e admirar Halong Bay e todo esquema que a envolve não é difícil. Uma vez superado o trauma inicial do tour organizado, basta usar a teoria da Primark - uma loja do Reino Unido, baratíssima e muito, muito lotada - você sublima todo mundo ao redor, do sólido as pessoas viram vapor para sua mente.

 Aí sim, é possível entregar-se a magia unique de um pôr-do-sol ao sabor de vinho Vietnamita a bordo de um barco bucólico no meio das montanhas flutuantes versao aquaticas de Avatar, um momneto épico que poderia muito bem ser uma releitura moderna de Dalí sobre a terra onde as crianças jamais viram adultos.

Data original do post: 06/10/10

 

 

Publicado em: 09/03/2011

Hanoing

 ‘era um garoto, que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones. Girava o mundo, mas acabou, fazendo a GUERRA DO VIETNÃ! Cabelos longos não usa mais…’

Aterrizamos no aeroporto de Hanoi e esta música começou a tocar no meu ipod mental.

Enquanto meus pensamentos giravam embaçados, procurando nas memorias das aulas de história e geografia tudo o que pudesse saber sobre a II Guerra da Indochina, fui abruptamente atingida por uma visão de horror: quarto ou cinco cadáveres depelados (despelados?) de CA-CHOR-ROS na garupa de uma moto. Provavelmente a caminho de algum restaurante.

Dog Lover’s aqui tem um outro conceito, já dizia a Lonely Planet.

A partir deste momento todos os nossos 11 dias no Vietnã foram para mim uma sucessiva desconstrução de conceitos enraizados, um exercício de tolerância e um caminho de sucessivos repentes de aversão e fascínio.

Imagine uma cena de aracnofobia 3. Agora substitua as aranhas por motos, mobiletes, vespas, jogs, hondas bis e afins.  Adicione inaudíveis decibéis de buzinas de todos os lados e tipos. Por fim, uma pitada de uma cultura onde quase nada lembra nosso pré-conceito ocidental para a palavra civilização.

O Vietnã é um pouco maior que a Itália (+ ou – 300 mil km2) e tem a quinta maior população do mundo, 86 milhões. Não bastasse o fato de que por onde você olha tem muita gente, toda esta gente se aperta em cima das supra-citadas motos. As vezes 5 pessoas na mesma moto!

Motos que não respeitam semáforos. Calçadas que não são lugares para pedestre. Podem ser para motos cortarem caminho, estacionarem, restaurantinhos de rua, crianças brincando, mas não para pedestres. Calçadas e pedestres e semáforos, são cliches remanescentes da época da colonização Francesa. Foram os ocidentais que colocaram isso ali, para o Viets aquilo não tem o mesmo objeto de uso que nós conhecemos.

Isto signifca que caminhar por Hanoi é complexo. Caminhar por Hanoi no horário de rush é tenso. Caminhar por Hanoi no dia da sua festa de 1000 anos foi um pesadelo. Um pesadelo interessante, mas ainda assim, ufaaaaaaa, que bom que acabou!

Quando conseguimos alcançar sãos e salvos o Liberty Hotel, após o momento caótico da perseguição das motos assassinas – na verdade não é perseguição, elas simplesmente ignoram nossa existência, atropelar uma pessoa no Vietnã não é crime, então, pra que se preocupar? – Two, a recepcionista figurinha do nosso hotel nos explicou que nos próximos 10 dias a cidade estaria em festa.

De repente a musiquinha traduzida pelos Engenheiros do Hawaii voltou ao foco da minha atenção.

No outro dia, antes de darmos nosso rolezinho de básico de explorers, Two veio nos fazer o café da manhã.

Você nunca dorme? Perguntei.

“Durmo, durmo aqui. Eu moro aqui”

Como a maioria jovem da população economicamente ativa de Hanoi, Two veio de uma cidadezinha mais ao norte, perto de Sapa. Sua única casa é seu trabalho, suas horas úteis são todas em que está acordada e a única folga são dois ou três dias por mês quando vai pra casa visitar a família.

Apesar – ou talvez por causa – do comunismo, o sobrenome dos Vietnamitas é trabalho. Não tem fim de semana, feriado, folga. Todo mundo mora onde trabalha e a vida gira em torno de trabalhar, comer, dormir, trabalhar. Tudo nos mesmos poucos metros cúbicos.

As dimenões aqui também são particulares. Os banquinhos dos bares, cafés e restaurantes de rua tem 15cm de altura. As casas de dia são negócios e de noite uma cama e uma televisão surgem do nada e ocupam algum lugar no meio dos produtos. Todas as construções tem no máximo 4 andares e são estreitas e profundas. Janela é um luxo.

Tudo isto foi o que vimos no Old Quarter. A parte antiga e mais característica da cidade. Num passeio mais longo até o mausoléo do Tio Oh (assim eles chamam Oh Chi Mihn, o Che Guevara Viet), passamos pela parte nova, ruas mais largas, casas maiores e mais imponentes.

Hanoi não tem Mc Donalds, não tem grandes shopping’s. Mas tem microfones tocando música típica entre uma fala e outra – que não entendíamos – do governo.

Hanoi é annoing. Mas é também fascinante. Quase surreal. O comunismo decadente choca e absorve como se vivendo a cidade você tivesse que se despir de qualquer julgamento e simplesmente aceitar a descontrução necessária para deerreter-se no caos do lugar.

Talvez tudo estivesse exacerbado nesta semana especial de aniversário, talvez esta seja a realidade diária da antiga Capital do Vietnã do Norte. Mas uma determinação paira no ar e o espírito Viet Cong justifica-se, ainda que seja impossível explicá-lo.

Mais uma vez o garoto que trocou a guitarra pelo instrumento que sempre faz a mesma nota (ratata) volta a tocar na minha cabeça. Se soubesse que minha playlist do Vietnã seria esta única canção no repeat 100 mil vezes, juro que teria decorado alguma outra com o mesmo tema.

Nas palavras de Two minha ignorância politica viajou e achou melhor não concluir nada e seguir apenas descontruindo…’Esta festa não é para nós, é para o governo’.

Sat Nam ;)

Data original do post: 03/10/10

 

 

Publicado em: 09/03/2011

Dez Dias

Dez dias. Dez dias. Dez dias. Dééééézzzzzzz Diiiiiiiiiii-aaaaaaaaassssss.

 

Este era o único mantra que se repetia incansavelmente na minha cabeça após o primeiro dia de retiro.

 

Dez dias fora do mundo. Dez dias sem falar. Dez dias sem ler, sem ouvir música, sem escrever. Dez dias sem qualquer tipo de contato, a não ser comigo mesma. Dez dias num Dhama Centre em Phisanulok, norte da Thailândia, entre 52 duas outras mulheres Thai.

 

Dez dias da melhor comida vegetariana que já comi na minha vida. Dez dias num lugar lindo, no pé de uma montanha maravilhosa, no meio de uma parte incrivelmente forte de natureza.

 

Dez dias que viraram 8, viraram 6, 3, e passaram. Passaram. Por que o átomo nasce e morre 22 zeros depois do um vezes por segundo, numa vibração mutante que jamais se cansa.

 

Dez dias que passaram porque tudo passa e isto também irá passar. Dez dias que passaram e passaram a fazer tanto sentido na minha existência.

 

Dez dias. Dez dias. Dez dias. Espero tranquila pela oportunidade dos meus próximos dez dias.

 

Quando era hora de voltar a falar, minha vontade era continuar o silêncio. Não porque me sentisse estranha, mas porque a viagem pra dentro do que sou foi a melhor que já fiz em toda minha vida.

Não existe medida ou descrição para a gratidão que sinto pelas voluntárias queridas e determinadas que estavam ali - e que eu queria levar pra casa comigo! - nem para o quanto gostaria de agradecer todas as pessoas que fazem parte dos bastidores da Vipassana Meditation no mundo e nos permitem esta reconexão brilhante com o sentido da vida.

OBRIGADA - Kwop Kun Kap (Thai)

Vipassana Meditation: indico, recomendo e garanto (tem centros nos Brasil)

http://www.dhamma.org/

 

Bahvatu Sabba Mangalan.

 

May all beings be happy.

 

Paz Amor e Harmonia.

 

Sat Nam ;)

 

Data original do post: 27/09/10

 

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