Paula Santomauro
Tenho uma mão no bolso e outra pedindo carona pra Lua.

Publicado em: 17/04/2010

Sorry about that

I am sorry. I am really sorry. De verdade, eu sinto muito. Sinto muito e peço desculpas por este tempo de não escrivinhança. Não postança.Mas é que não dava. Não tava dando. Era o dia cinza, todos os dias cinzas, a chuva, a neve, o provedor que falhava. Era a saudade, o natal, o ano novo e o novo ano. As mudanças, a confusão, a necessidade de dormir muito, muito, muito mesmo. Ou de assistir um filme - ou quatro - ou de ficar na cama, jogada sem fazer nada. Uma canal sempre aberto pras lágrimas. O edredon sempre pesado de mais para ser tirado de cima, o aquecimento sempre quentinho suficiente para que não se queira sair, o tempo lá fora sempre úmido e escuro, de um jeito que da medo e remete a pijama e brigadeiro.

Mas o tempo que não pára - clichezando necessariamente Cazuza - foi mudando as folhas do calendário até que o relógio andiantou uma hora, a temparatura aumentou uns 10 graus e as ávores, antes despudoradamente peladas, começaram a despontar brotinhos, folhinhas novas, flores. Primeiro as amarelas, depois as brancas, logo as vermehas. Ainda não pesquisei na wikipédia, mas tenho certeza que há uma ordem no florescer das cores, independente do tipo. Outra hora.

Hoje céu azul. Azul de verdade. Azul sem vergonha, sem noção, sem medo nem culpa. Azul que dá gosto, que alegra, que anima. Azul que ressuscita! Nem tanto ao céu, que a temperatura não tá lá mais do que singelos 15 graus.

Curioso a diferença de referenciais, a facilidade de se adaptar (de certa forma) a padrões. Qualquer 15 graus no Brasil e a gente desenterra o cobertor. Qualquer 15 graus em Londres e a gente desenterra a canga e vai pro parque.

E fica aproveitando o dia lindo, bebendo vinho, jogando conversa fora e, óbvio, tirando um sarro fenomenal do verão de Inglês.O jeito que eles se estiram em qualquer meio metro de verde (cuidado na escolha da cor do seu tapetinho na porta de casa), a mulherada de sutião, os caras sem camisa, uma braquelice que dói os olhos e deve arder de noite, quando vão dormir. Se é que este so queima.

Sol e moleton é mucho sospetioso.

E bolas, ora bolas, bolas por todas as partes, pequenas grandes chutadas lançadas. Fucking balls ameaçando meu Montepulciano D'Abruzzo, minha cabeça, minha paz. Cachorros que simplesmente ignoram uns aos outros. Não latem, não interagem com outros de sua condição. cachorros que são quase robôs. No mais tudo meio parecido com qualquer dia de sol. Crianças tomando sorvete, gente bebendo cerveja, os mais esportivos se exercitando, risdas por todo lado, óculos escuros, um chorinho ali, uma gritaria acolá.

Meu telefone toca. Um amigo figurissima mechama para desabafar. Parafrasei-o-o: sabe, depois de cinco ano nessa terra cinza eu me apeguei aos dias nublados. Fico sempre meio blasé, durmo até mais tarde. De sábado saio de guarda chuva, vou a alguma mostra no Tate ou na National Gallery, pego um cineminha em bayswater, janto num japonês no soho ou um italiano em chelsea. Domingo, durmo até mais tarde de novo, almoço um sunday roast num gastro-pub local e assisto três filmes jogado na cama. Agora este sol? Este céu azul? Não sei o que faço. Me dá uma ânsia. Quero fazer tudo ao mesmo tempo. Churrasco na casa dos amigos, pick-nick no parque, pints na calçada em bricklane, passeiozinho por covent garden. Meu telefone não pára de tocar, não sei que roupa ponho e nao acho a merda da minha canga caso eu decida ir no parque.

Ai, estes dias de sol em Londres são um verdadeiro tormente. Imagina se alguém me liga e eu digo que estou dormindo. Um bafo. Que preguiça do verão. Aberta a temporada de visitas, cerveja quente e pés feios de unhamalfeita e cascão no metrô!

N mesma linha observo um grupo de três casais que acaba de chegar ao parque. Acabaram de almoçar em algum restaurante dos arrededores. Comeram, beberam, desfilaram suas t-shirts e calças pescador e agora, estão no parque. Percebe-se claramente a falta de preparo, de disposição. É uma coisa meio forçada, uma papo já meio sem muito assunto, posturas comvontade de deitar, pés voltados pro protão. Querem ir pra casa, ler seus livros, jogar fifa no playstation, assistir um programa tosco e cochilar na tv, mas não podem. Nunca sabem se este é o último ou, quiçá o único dia de sol Londrino este ano.

Levanto a cabeça da tela do computador, eles não estão mais ali. Foram pra casa, como queriam, mas agora sem a culpa de terem perdido o dia de sol, vão atualizar seu statuts do facebook 'lovely saturday at the park'.

Aiiiiiiiii! A porra da bola me acertou. Sorry? Sorry? Sorry uma ova. Eu é que sou sorry por este inverno inspiracional!

Sat Nam ;)

 

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