Paula Santomauro
Tenho uma mão no bolso e outra pedindo carona pra Lua.

Publicado em: 31/08/2010

Terima - Kasih

Minha vontade era tirar o chinelo e nadar pra sempre naquelas aguas cristalinas.

Claramente nosso Guia nao apoiava meu desejo. Recolhi-me a minha posicao de mera observadora e me contentei a molhar o rosto e as maos.

Assim como contentei-me a ver quase todos os templos de fora. E impossivel viver Bali sem mergulhar no mundo ritualista e simbolico – uma especie de barroco rococo asiatico – que e o Hinduismo Balines.

Porem, nao e facil penetrar a membrana que protégé esta dimensao tao sagrada para seu povo. E de impressionar a maneira como os Balineses,  apesar do turismo massivo que os sustenta, conseguem manter suas tradicoes tao intactas.

Minha primeira foto mental de Bali foi de uma especie de cestinho de bambu todo coloridinho que estava em varios balcoes do aeroporto. Cheguei mais perto e vi que continam biscoitinhos em cima de varias petalas de flores. Muito queridos estes Balineses que oferecem esse agrado aos turistas.

Um milesimo de segundo depois, vi o mesmo cestinho no chao. Nao precisei fazer nenhuma sinapse nerologica para entender que aquilo era na verdade oferenda. Oferendas que sao o comeco, o meio e o fim de tudo o que diz respeito a esta cultura. Oferendas aos montes,  o tempo todo, em todo lugar. Oferendas com as quais eu tropecaria 70 mil vezes nos proximos dias. Oferendas que sao a diferenca principal entre o Hinduismo de Bali e o da India. Oferendas que, segundo nosso guia Made, “ sao pra manter Deus em Bali”.

“E que Deus tambem gosta de comer” – justificou Roy, the boy, nosso primeiro motorista, sobre o arroz ou biscoitinhos sempre presentes nas ofertas – “Deus da arroz pro povo, o povo agradece e da arroz pra Deus”.  E por que as ofertas ficam nos balcoes e nos templos e tambem no chao? – perguntei – “No alto pro deus bom, no chao pro deus mau”.

Curiosa e muito inteligente esta relacao que o Hinduismo Balines tem com a dualidade, o equilibrio. Masculino e feminino. Horizontal e vertical. Assim como e admiravel o respeito e interacao com a natureza. Um templo voltado pro mar, outro pra montanha, outro pro nascer do sol. Ha sempre uma arvore sagrada que protégé.  Cerimonias pra lua cheia, pra lua Nova. E Bali e o palco perfeito pra isso.

“Espero que voces tenham a cabeca aberta para ouvir minhas previsoes”, disse Made, “o dia em que 50% da populacao mundial for Hinduista Balines, o mundo estara a salvo”. Fizemos aquele olhar respeitoso que se faz para uma avo quando ela explica que quem tinha tatuagem na epoca dela nao era bem visto.

“ I can prove” - disse ele pegando um pedregulho e comecando  a rabiscar no chao –  “depois do tsunami de 2004 este vulcao (o Monte Agung, ponto mais alto e maior vulcao da ilha) comecou a entrar em erupcao. Todos os mestres Hindus da ilha reuniram-se aqui no Templo Mae (que fica na base deste vulcao) e fizeram cerimonia. Sacrificaram bufalos, porcos, cabras. O vulcao parou. Em Sumatra o vulcao nao para porque os muculmanos nao querem a ajuda dos Hindus”.

De qualquer forma a natureza de Bali responde. Deus sinceramente esta aqui. Nas flores mais lindas que eu ja vi, chamadas Frangipan, que tem um cheirinho adocicado e que se jogam das arvores sempre no meio do caminho, deixando um rastro delicado e completando a paisagem de flores por todos os lados. Vermelhas, brancas, cor-de-rosa, roxas, lilas, amarelas. Ibiscos, bouganvilles, orquidias, rosas. Um deleite pros olhos e pro coracao. Nao e a toa que as flores, nas ofertas, simbolizam os pedidos.

Mas e as praias de Bali? Nao se fala delas? Claro que sim. Estivemos em apenas duas, Balangan Beach e Padang Padang. A primeira seria o cenario da minha viagem pra Bali com minhas amigas. Certamente ficariamos num daqueles bangalos pra surfistas. A segunda foi o lugar onde encontramos mais brasucas ate agora. As duas muito bonitas. Mas confesso que, como nao surfo, dropei mais ondas com o universo mistico da religiao deles.

Claro que uma ilha de 95km por 150km e com 3.5milhoes de habitantes nao pode ser vista muito menos relatada em uma semana. Ainda mais em algumas linhas ansiosas que tentam descrever lugares e sensacoes enquanto tudo se confunde em tanta informacao.

 Os caminhos de um lugar pra outro sao mais longos que eu esperava. E estreitos, estreitissimos. Tenho a nitida impressao de que os carros aqui sao mais finos.. Todo mundo passa onde quer, inclusive onde nao cabe. Aflicao pura!

Mas  e facil desviar o olhar das motinhos suicidas. As paisagens sao quase sempre cenograficas.

Todas as casas tem um templo. Todos os vilarejos tem pelo menos tres. Pra onde quer que voce olhe em Bali, ve um templo e, consequentemente, uma milhao de ofertas. Isto sem falar nos templos principais (Pura Tanah Lot, Pura Ulu Watu, Pura Besakih, Pura Tirta Empul, Pura Kehen, Pura etc e tal) que sao sempre uma visao surreal.

Se nao estiver atravessando um vilarejo a vista se alterna entre poeticos vales de arrozais e uma mata tropical densa que lembra seriamente a nossa atlantica. De leste a Oeste Bali e recortada por vulcoes. Do aviao da pra perceber perfeitamente esta divisao. No centro-norte ha tres lagos e ao redor da ilha ilha toda um sem fim de praias, mas so as do sul de areia branca, as outras sao de areia vulcanica.

Tem Bali pra todo mundo e cada um tem a Bali que quiser. Tem quinhentas mil atividades turisticas (a Floresta dos Macacos e bem massa). A comida e deliciosa – my favorites Mie Goreng, Nasi Goreng, Satay. Os precos, se compararmos com um lugar deste naipe de pop na Europa, sao uma pechincha (duas pessoas comem bem num lugar bacana por US$15).

Entre tudo, o souvenir que levo de Bali e a  gratidao que testemunei ali num sem fim de demostracoes. A ultima vinda de Roy, the Boy.

“ Deus disse: nao fique triste se voce for pobre, nao fique feliz se voce for rico. Apenas sorria. Deus  gosta de sorriso”.

Terima - Kasih (obrigada)

Sat Nam :)

 

Publicado em: 28/08/2010

Welcome to Asia

Cheiro de Yakisoba, calor de grudar. Welcome to Asia. São 7h da manhã e acabamos de aterrisar no aeroporto low cost de Kuala Lumpur, Malásia.

Imediatamente me toco de que nós, sulamericanos, somos tão Ets para os asiáticos, como eles para nós.

Você esteve na América do Sul nos últimos trinta dias? - É uma das peguntas do cartão de imigração.

Começo a ter certeza do que eu já achava, pro mundo em geral existe América do Norte – leia-se basicamente Estados Unidos – Europa, e o resto.

Confesso que fiquei um pouco chateada. Mas a Poliana que há mim achou por bem engolir a explicação do namorado Europeu, nós somos o outro lado do mundo para eles.

O aeroporto não tem ar condicionado (amo e odeio este universo a baixo custo), nossos piores inimigos já se manifestaram: nossas malas. Por menor que elas sejam, incomodam, pesam, caem. Malas. Literalmente. Um mal necessaríssimo.

O Ocidente vence a primeira disputa com o Oriente. Ao invés de um café de uma rede chinesa, lotado, mais barato e sem refrigeração, preferimos o mais ou menos bom e velho Starbucks, com wi fi, air congelando e muitos turistas com seus iced lattes e lap tops.

Justifico comigo mesma que é apenas um momento de transição. Adaptação. Vamos com calma. No minuto seguinte sofro um acesso de mau humor porque tá muito calor, mas o ar tá muito frio, não acho nada na mala, a mochila tá pesada, tô cansada, o que que eu vim fazer neste lugar tão longe? Ninguém merece estar podre de sono e saber que só vai poder relaxar daqui 6h.

O jet leg é um demônio tão poderoso quanto a tpm.

Nosso vôo para Bali, também com Air Asia remontou o cenário dos meus 18 anos e uma viagem de busão pra Bahia. Não fosse a língua completamente inteligível que eles gritavam feito maritacas bêbadas, pensaria estar em um pau-de-arara indo de Feira–de-Santana para Ilhéus. Só faltou a canja na garrafa térmica com a farofa na tampa.

 

Bali


Foi preciso mais do que cinco minutos daquele vento morno pra nos trazer de volta a consciência e ao fato de que, definitivamente, precisaríamos encontrar um outro jeito de chegar no hotel.

Sabia que Bali era turística, mas confesso que minha ingenuidade ou ignorância não tinha quantificado exatamente aquilo. Ao passar pelo portão de desembarque  tive  vertigem lendo aquela quantidade absurda de plaquinhas com nomes de Misters Fulano, Hoteis Whatever, Agências Boh.

Em vão. A do nosso suposto Suzuki Jimmy alugado, não estava ali.

Não tendo contado com a astúcia da carteira de habilitação internacional, ficamos na dúvida quando a própria agenciadora de carros de aluguel disse que bastava pagarmos USS$40 para a polícia se nos parassem. E se eles achassem legal parar os dois tchutchos toda hora? Um excesso de suborno seria devastador pro nosso orçamento, pra nossa moral e pro meu espírito.

Cedemos a um taxista que cedeu a nossa pechincha de US$15 até o hotel. No caminho para o taksi ficamos felizes por nosso carro ter dado balão. É que nenhum de nós – apesar de morarmos em Londres – sabe dirigir na mão direita e, muito menos, sabia que a direção na Indonésia é a destra.

Ao longo do pandêmonio de comércio na avenida principal que liga o Aerporto (e a cidade de Denpasar) a Sanur - onde fica nosso hotel - Bali começava a revelar seu lado mais rebelde. 

Legiões de budas em pedra, movéis balineses (!!!), trânsito caótico, spas, centenas de motinhos com gente amontoada e algumas estátuas típicas, foram fazendo cair a ficha de onde estamos.

De repente notei que não havia mais ansiedade dentro de mim. Bali nos acolhia, com seu jeito. Uma palavra nova que meu dicionário acaba de ganhar. Não é exatamento belo, mas é essencialmente Bali.

Depois de 24h de viagem no espaço e no tempo, finalmente atingimos nossa meta: a piscina do Hotel Palm Garden, uma cerveja Bintang e um prato de Mie Goreng.

Sat Nam ;)

 

 

 

 

Publicado em: 24/08/2010

Descolagem

Om. Shanti. Namaste!

É interessantíssimo viajar no tempo. Nas últimas  12h 24 se passaram. Parece que foi ontem. Sempre desconfio do tempo e ele nem liga. Continua passando displicente, me surpreendendo, me assustando.

Estar acima das nuvens é mágico.  Em 5 horas a manhã pulou a tarde e são duas da madruga. As estrelas, mesmo com as nuvens sob meus pés, continuam simplesmente profundas. Numa versão invertida de andar pela vida.

Não gosto particularmente de aviões. Minha relação com eles é uma questão de necessidade. Mas este é um vôo particular. Não só porque estou dentro dele mesmo sem o menor sinal de qualquer presença infantil –é que eu tenho esta coisa de achar que um bebê no vôo garante que chegaremos sãos e salvos - mas sim porque estou voando rumo a um sonho que, de repente, tornou-se desconhecido.

Impressionante como os objetos no espelho parecem mais longe do que realmente estão. Isso que eu quis tanto durante tanto tempo agora me causa tantas sensações que, apesar do desconforto da low budget Air Asia , quase não quero que Kuala Lumpur chegue.

De repente descubro minhas velhas fraquesas revestidas do mesmo medo, desta vez no modelo Sarung.

Não é o fato de não saber o que vai acontecer que me causa arrepios, é a paúra de estar realizando uma coisa que me parecia tão remota, que realmente me nóia. Nunca me dou conta do quanto concretizar um plano é real, até que ele esteja acontecendo. E, então, minha primeira reação é sempre assutada.

O esboço que sai da planilha mental, da planilha do excel, da planinha dos projetos e vira um monte de papeis impressos com reservas e confirmações e páginas de travel guides grifadas em colorido, refletindo toda a excitação deste novo desafio.

Há seis meses atrás quando compramos a passagem não imaginei como meu estômago reagiria a isto tudo. Hoje, oito horas de vôo depois, posso descrever um misto de gratidão e pânico se revesando no controle de minhas emoções (relativamente equilibradas graças a overdose de Rescue Remedy).

Passemos a parte prática. Lutando contra minha tendência a verborréia surreal, vamos falar de dados.

Seis meses de planejamento

Dois meses de viagem

6 (ou 7?) países

Umas 15 cidades

Pelo menos 10 vôos

13.5kg cada mala

mais uns 10 cada mochila

Uma Canon 40D

Uma camera de bolso

Dois computadores

Eu com quase trinta, querendo ser descolada

Meu namorado fotógrafo super viajado

Este blog

Outras coisas como, lanterna, repelente, 11 blusinhas, 3 shorts, 3 calças larguinhas, dois casaquinhos leves, biquini, bone,  capa de chuva e todo o resto de nossos pertences em baixo da nossa cama, em Battersea, Londres, no nosso quarto sub-locado.

E a grande maioria das pessoas que eu amo do outro lado do Atlântico. E nós atravessando a Rússia e indo ainda mais longe de tudo que até hoje considerei casa. Logo agora que Londres realmente feels like it. Cheia de gente que já tão importante pra mim, entre toda aquela gente diversificada que já tão comum pra mim.

Talvez esta ânsia de viajar tanto para lugares tão remotos seja uma necessidade crônica de fujir de casa.  Talvez sejamos mesmo descolados e precisemos testemunhar e tatear o lado escuro da lua, com diz meu boyfriend.

Talvez eu devesse simplesmente me ater aos fatos, aos tais dados e parar de devanear.

O que espero desta viagem?

Espero de coração estar aberta a todas as esperiências. (Espero também que meu próprio humor colabore com os efeitos  de desconforto devido a transição a leste do planeta e a um monte de coisas que não capisco).

Espero que apesar da nossa pouca bagagem, possamos ser tolerantes com as diferenças, pacientes com nós mesmos, disciplinados o suficiente para não perdermos nenhum vôo, loucos o bastante para abraçarmos as aventuras e abençoados a ponto de encontrarmos em nossos caminhos pessoas especiais que possam tocar nossa alma e, se possível, nos deixar tocar a delas.

Pretendemos com toda nossa humildade viajar de maneira sustentável, respeitando os países e os cidadãos.

Temos interesse particular em toda a espiritualidade que permeia o tema do Oriente e nos fascina de maneira tão magnetizante.

Reconectar-nos com a natureza. Afastar com gratidão tudo o que obscurece a sagrada harmonia de viver. Aprender pelo amor. Trocar energias. Dar mais um passo no caminho da auto-cura e, assim, da nossa evolução. Tudo isso, vivendo cada agora.

Staneh. Espero que a gente se cuide e se jogueeeeeeeeeeeeeee


***


ps: Não posso partir sem antes agadecer.

A todos que fazem parte da realização de mais este sonho. Especialmente a Deus, meu pai Tadeu, minha mãe Gina, minha irmã Rê. Minhas tias Inês e Zina.  Kalma e Vivinha. Meus tios Régi, Pedro e Bu. Meus primos. Meus amigos e minhas amigas (tenho os melhores do mundo, pelo mundo todo e a sorte de não ter linhas suficientes para mencionar todos). Meu namorido, parceiro, companheiro de aventuras, Giulio.

Aos meus avós Fausto, Thereza, Tiso e Lúcia. Que saudade imensa.

Aos meus bisas, trizas e etc - quem honra aos seus não degenera.

As pessoas especiais que cuidam de nós: Chico, Dirce, Madalena, Tati, Maria do Carmo, Jane.

Dedico esta viagem ao universo, minha incessante fonte de inspiração e expiração.

Obigada

Estejamos todos em paz, na luz e no amor.

Que tenhamos cada vez mais fé, aceitação, disciplina, força de vontade e clareza de ações e escolhas.

 

Sat Nam ;)

 

 

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