Paula Santomauro
Tenho uma mão no bolso e outra pedindo carona pra Lua.

Publicado em: 13/09/2010

Hari Raya

Feliz ano novo Malaio! Feliz fim do Ramadan! Feliz Aniversario Lee!
Penang nos recebeu em ritmo de expectativa. Fomos quase tomados por aquela sensacao de 31 de Desembro, nao fosse pelo fato de que nao fazia nenhum sentido pra nos. Mas a atomosfera era esta por todo o tempo que estivemos em Penang.
Ainda na batalha para encontrar um lugar para comer - chegamos dia 8 o Ramadan acabou dia 10 - fomos parar num cafe escondidinho e char-mo-siiiiiissimo, Tea Home.
Foi como se no meio daquela historia tao antiga - George Town, o centro da Ilha, eh um patrimonio historico - encontrassemos um pedacinho do ceu, onde Lee Yeng e seu marido fazem arte nos incriveis chas quentes e gelados, na decoracao simples e estilosa e no jeito aconchegante de receber os clientes.
Lee eh uma menina de olhar sincero e coracao forte. Premonicao minha, confesso, mas raramente erro. Conversamos super enquanto nos escondiamos do calor massacrante que absorve Pulau (ilha) Penang no meio da tarde.
Ela nos contou um pouco sobre o business deles (o cafe e a loja de chas que fica na frente) e perguntou um tanto sobre nos. Foi interessante tentar resumir nossa vida de vai e volta, enquanto o marido (o qual o nome nao consegui entender), ficava quietinho na cozinha, timido, ouvindo tudo e participando eventualmente.
Foi neste bate-papo que descobrimos que a maioria da populacao ali eh chinesa, que o marido de Lee eh fotografo, que ela faz arte. Em pouco tempo estavamos passeando pela pequenina casa que abriga o cafe e a loja de chas, ouvindo historias sobre objetos antigos resgatados das casas dos avos, as invencoes simples e baratas da decoracao, a vontade de receber pessoas e trocar com elas impressoes do mundo, em palavras timidas e olhares verdadeiros, no quartinho ainda under construction do andar de cima.
No fim, entre fotos e promessas de voltar, Lee nos contou que era seu aniversario, 23 anos aquele dia. Dei-lhe um abraco forte e nos sorrimos cumplices.
No mais Penang nao eh Bela. Senao profunda e decadente. Ou talvez o oposto. O selo da Unesco confere ao lugar todo prestigio que tem, mas foi verdadeiramente na Little India que encontramos vida real. Ou, quem sabe, cenas dos proximos capitulos ;) entre nosso chicken tandoori, minha obsessao por comprar terceiros olhos, a musica Indiana em altissimo volume e os milhares de cartazes de dvds de Bollywood.
A noite fomos da India pra China e nos deliciamos com as baquinhas de comida na rua. Mmmmmm. Soh nao pode olhar como eles lavam os pratos e nem dar muita atencao aos ratos e baratas que passeiam um pouco mais pra la, na expectativa da xepa. Comida boa, ponto. Povo trabalhador, que sao os chineses, verdadeiras maquinas. Pilotam tres panelas ao mesmo tempo em que dao ordem aos assistentes, cobram os clientes e fazem propaganda do prato do dia.
Cansativo soh de ver. Mas pelo menos dormir era mais facil. Os muculmanos daqui vem, a maioria, da India, sendo assim, contentam-se em rezar pra eles. Nada de gritos. Que belezinha.
Eh que eles tb nao sao a maioria. O Budismo em Penang impera.
Budismo Thailandes, Budismo Chines, Budismo Birmanes. Nao sei basicamente nula de nenhum Budismo, mas ja sei que Buda (seja ele de onde for) gosta de incenso. E em todo templo budismo as pessoas sao bem recebidas.
"Primeiro voce reza la fora" - disse um senhor bondoso, enquanto eu fazia minha oracao desajeitada, mas de coracao, na frente da estatua principal. Fomos la fora, aprendemos a deixar 3 incensos pra cada imagem (apesar de nao sabermos quem eh quem) e depois soltamos passarinhos. Sim, vc compra uma gaiolinha com quatro e abre, se os quatro voarem eh boa sorte. Muito esperta eu, achando que estava libertando os bichinhos pra ver na outra esquina um moco prendendo um bocado. Que vida, coitados. Acho que Buda nao ia achar legal.
O chato do dono do nosso hotel Red Inn - que eh bonitinho, mas ordinario (nao o dono, o hotel, pq o dono eh bem feio) - ficava enchendo nosso saco pra tirar os sapatos, nao comer nem beber no quarto, nao fazer barulho, me deu vontade de dizer: cala boca seu ridiculo, os quartos do seu hotel nao tem nem janela.
Mas ele estava cheio dele, porque uma equipe nao sei de onde tinha acabado de gravar um filme sobre mochileiros ali. Aposto que era porno! rs.
E no fim, enquanto a cidade inteira dormia (ou pareia que) no primeiro de Janeiro deles, fomos aos nossos amigos do tea House, saborear mais um papo bacana e descobrimos que Lee e o marido tambem tem planos de viajar pelo mundo, assim que o cafe der um dinheirinho bom. E tambem que Lee tem uma turma de amigos descoladinhos, que faz arte por Penang a fora. Compramos uns postais alternativos de uma amiga dela e nos despedimos com um "see you soon" e um abraco apertado.
Quando era pequena, olhava pela janela imaginando que alguma menininha do outro lado do mundo fazia o mesmo e nos conectavamos de alguma maneira essencial e invisivel. Nao por acaso, tenho a sensacao de estar encontrando estas meninas por aqui e o mundo esta se tornando um pouquinho mais fantastico pra mim!

Sat Nam ;)

Publicado em: 13/09/2010

Ambulantemente KL

Socorro, tem um camelo^ (nao o animal, a barraquinha) atras de mim. Outro na frente. Outro do lado. E do outro lado. Na diagonal. Em cima. Em baixo. Peloamor alguem pode por gentileza nos dizer onde eh a saida deste labirinto de barraquinhas ambulantes? Ou entao chamar o rappa!
Imagine um verdadeiro aglomerado de Vinte e Cincos de Marco em pleno vinte e quatro de Dezembro. Imaginou? Kuala Lumpur no Ramadan eh assim.
Nossa chegada na 'capitar' foi chocante. Nao tanto pela cidade, que eh uma capital nacional super busy como tantas outras, mas muito mais pelo impacto em relacao a toda amistosidade das cidades menores a que nos habituamos tao facilmente em duas semanas de Indonesia.
Nada mais de sorrisinhos faceis. Mendigos pelas ruas. Gente querendo tirar vantagem. Gente. Gente. Gente. Gente saindo pelo ladrao, barulho, poluicao, sujeira. Onde tem espaco, tem um bazar.
Achar onde comer tambem nao foi uma tarefa facil - no Ramadan, varios restaurantes fecham ou ficam escondidos, por respeito a quem esta jejuando. Mas nos nao estamos, porra!!!
De repente nosso refugio sao as pracas de alimentacao dos shoppings, nao fosse pelo fato de que o ar condicionado em todo lugar eh tao tao forte que a gente entra com calor e em cinco minutos, tem que vestir o moleton.
A cidade eh cinza como londres, embora quente como Manaus. Tudo na versao olhos puxados e com a trilha sonora das mesquistas obrigando a gente a ouvir suas preces a elevados decibeis.
Nao eh que eu nao tenha gostado de Kuala Lumpur. Eh soh que um gringo turistando em Sampa deve sentir a mesma estranheza.
Eh necessario conhecer as capitais, principalmente pra entender o poder da palavra GLOBALIZACAO. Porem, eh nas cidades pequenas que os paises revelam seus segredos e as pessoas se separam da multidao e viram os individuos unicos que fazem a magia de viajar.

Confesso que estou aliviada de estarmos partindo. Dois dias em Kuala Lumpur, ja deu!

Sat Nam ;)

Publicado em: 09/09/2010

I love Yogja

Ela tem um piercing na lingua. Ele aprendeu ingles vendo filmes Americanos. A outra manja pacas de historia e ja foi varias vezes pra Europa. Todos eles tem MUCULMANO escrito nas suas carteiras de identidade. Todos eles nascidos em Yogjakarta.

As meninas nao fazem o Ramadan.

"Eh que quando voce comeca a crescer e ninguem te responde porque as mulheres devem ficar atras dos homens nas mesquitas, por exemplo, fica dificil entender e mais ainda aceitar". Eh assim que a Tina, nossa guia e explicadora de religioes - a do piercing na lingua - se sente.

Uma das razoes pela qual ela, apesar de ser Muslin no papel, eh praticante ativa de Javanismo. Foi com ela que aprendemos um pouco do caleidoscopio religioso que eh Yogja. Islamismo, Animismo, Budismo, Hinduismo, Javanismo tudo junto misturado.

As religioes e filosofias se influenciam, se intercalam, coexistem. Mesmo quem faz Ramadan, nao veste verde quando vai perto do mar, pois a deusa do Oceano Indico gosta desta cor e pode levar a pessoa embora.

Tudo tem sempre uma conexao intrinseca com a natureza. Tudo acaba sendo muito parecido com o ambiente.

De repente me vi rezando Pai-Nosso e Ave Maria com um indonesiano chamado Emmanuel (!!!!), de frente para um altar com Jesus Cristo na cruz, numa 'gereja' que era um misto de mesquita asiatica - um teto e zero paredes - e um lugar de animismo, ou o que a gente chamaria de macumba.

Me conectei super com a Tina, que se interessou quando falei um poquinho que sei sobre Caballah que tem minha idade, eh casada e tem um business de pecas de Vespa (motinho) com o marido. Ela eh descoladinha e super plugada no mundo e ainda assim, a fe e uma presenca fortissima em sua vida.

"O sonho de 90% dos Indonesianos eh peregrinar a Meca. Aqui em geral nao existe a cultura de viajar. Nao fosse a vida social, gastariamos muito pouco", foi Fita, nossa outra guia, a que ja viajou pra Belgica e pra Holanda pela organizacao ViaVia da qual faz parte, quem nos contou.

Mas como assim vida social? - me espanto, visto que aqui nao tem nem bar, quanto mais balada (porque o Islam proibe firmente bebida alcoolica).

"Eh que quando tem uma festa ou alguem fica doente, a gente tem que dar dinheiro" - salario minimo na Indonesia: entre US$75 e US$150 - "qualquer coisa como 50.000 Rupias pelo menos" (US$5!!!!).

Caraca, pensei eu, imagina que coisa boa. Quando voce ta precisando de uma graninha, faz uma festa e nao trabalha por um mes. Rs. Acabaram de inventar a profissao da minha mae (que adora dar festinhas).

Foi tambem a Fita que nos motivou a ver o Sol Nascer em Borodur, templo Budista considerado pela Unesco uma das 7 Maravilhas do mundo antigo.

Ter uma das maravilhas exclusivamente para voce durante 30 minutos tem preco, US$100, mais vale muuuuuuuito mais do que isto.

4h da madruga, subimos no templo ainda fechado ao publico, sob o manto de todas as estrelas do mundo e ao som das preces Muculmanas que vinham das mesquitas que cercam o templo por todos os lados. Foi a segunda oportunidade que a vida me deu de meditar em ponto energetico do planeta e por cada segundo estive com os olhos lacrimenjantes, o corpo inteiro arrepiado e o coracao agradecido. A sensacao nao eh deste mundo!

Enquanto o sol vai nascendo e outras pessoas vao subindo, o som das preces e substituido pelo dos sapos, depois pelos galos e depois pelas vozes e as formas das estupas vao se delineando na aquarela cor de laranja e azulada. Momento sagrado.

Entre tanta informacao, um certa confusao comeca a correr pelas minhas veias curiosas. E eh como se pela primeira vez pudesse manusear a diferenca entre Ocidente e Oriente. "Primeiro Deus, depois a gente", Roy the Boy tinha nos dito em Bali. E eh exatamente esta fe, que chego a invejar, que define estas pessoas. Determinando suas condutas, seus caminhos, seus valores. Seus sorrisos.

Nao eh que a gente nao tenha Deus no Ocidente. E so que a gente teoriza Deus e eles praticam Deus. Assim, vivem o Universo Deus muito mais do que nos.

O que se pode dizer de um pais em que sua religiao esta literalmente rotulada em sua identidade?

Anio, o gerente do nosso hotel que aprendeu ingles nos filmes, soh anda descalca e, como os outros meninos que trabalham ali, vive no facebook. Todos eles sempre sorridentes e prontos a nos agradar, desligam o computador as 6h da tarde quando eh hora de comer pra quem faz o Ramadan.

Eh Deus na pratica, no matter what.

Sat Nam ;)

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