Paula Santomauro
Tenho uma mão no bolso e outra pedindo carona pra Lua.

Publicado em: 06/10/2010

Bangkok: home, Southeast Asia, home

Almoço no japa. Passeio no shopping. Manicure. Jantar com as amigas. Eis que não quando, encontro uma versão asiática de uma parte boooa da minha vida brasuca.

Tudo isto é culpa de Cattleya Jaruthavee, uma grande amiga do Giulio, também foto-jornalista, que mora em Bangkok.

Catie é metade Thailandesa metade Inglesa. Sua mãe, Nina, veio fazer um intercâmbio aqui quando tinha 18 anos, conheceu o pai e nunca mais voltou. Aprendeu a falar Thai vendo tv e integrou-se de forma extraordinária nesta cultura tão diferente da dela.

Ver Bangkok de dentro foi muito provavelmente uma das maneiras mais interessantes de conhecer esta cidade (e um pouco deste país) de diferenças sociais berrantes, onde falar mal da família real da cadeia.

‘A primeira coisa que se deve aprender sobre a cultura Thai é que eles empurram tudo pra baixo do tapete’, nos contou Nina, a Inglesa mais carinhosa que já conheci e provavelmente mais uma na lista das melhores pessoas do mundo. ‘A segunda é que a família real Thai são as pessoas mais ricas do mundo, constatado pela Forbes Magazine.’

Só por aí já da pra realizar um pouco de como funcionam as coisas nesta monarquia constitucional onde (como sempre) o rico cada vez fica mais rico e o pobre, cada vez fica mais pobre. E o motivo…todo mundo já conhece.

Em um jantar na beira do rio Chao Phraya, descobrimos que de domingo a família toda almoça junto na casa do tio e que o pai dela fazia parte do movimento estudantil da década de 70, mas depois achou por bem bandear-se para a direita, visto que é ali que estão os contatos, as possibilidades e o dim dim.

Tudo isso em meio a um festerê culinário onde tudo tem que ser uma mistura entre doce, apimentado, ácido e crocante. A comida thai é um deleite, mesmo quando o docinho de amendoim vem enrolado numa folha de alface ou quando a gelatina de coco é verde. Tudo é saborosíssimo. Mmmmmmmmm!

Fora da casa da família Jaruthavee, ‘Banshop’ alimentava o espírito consumista que há em nós. Assim como Kuala Lumpur, comprar é o terceiro verbo mais importante no vocabulário de Bangkok, depois de comer e trabalhar. Porém, aqui não estávamos no meio do bazar do Ramadan, cheio de camisetas de mangas compridas e véus, mas sim num paraíso devastador para nosso budget de mochileiros com malas de rodinha.

No entanto, meu passeio mais incrível pelo mundo das compras não teve nenhuma compra, mas sim a companhia de Noi, a moça que trabalha na casa de Catie. Ela tem 35 anos, veio do nordeste da Thailandia, num movimento de migracão estilo nordeste - São Paulo. Sua única casa em Bkk é a da família Jaruthavee, onde ela trabalha, mora e conheceu seu futuro marido, o guarda da casa. Noi é um daqueles seres de luz. Sempre sorrindo, foi escalada por Catie para tomar conta de mim numa tarde em que ela tinha compromisso.

Eu insisti que não precisava e Catie rebateu dizendo que ela iria adorar. Batata. Por todo tempo ela esteve radiante. Comportando-se com sua simplicidade autêntica. Mesmo sem trocar nenhuma palavra além de ‘ok’ tivemos uma tarde ótima e divertida nos comunicando por olhares e sorrisos.

Das tantas milhares de conversas de bródinha que tive com Catie (porque ela é ótima e é claro que ficamos super amigas) em nossos vários roles de vassoura*, minha viagem pela realidade Thailandesa aconteceu da janela de um carro onde por fora eu julgaria superficialidade e por dentro encontrei nada menos do que senso de justiça, sinceridade e muito respeito.

‘Eles só querem uma outra eleição, é pedir demais?’ - Catie estava lá, quando a primeira bomba estourou - não, não é. Assim como não são reais os números de fatalidades, assim como não foram respeitados os voluntários da Cruz Vermelha ou as zonas neutras que deveriam ser os templos. Assim como tudo foi um pouco suspeito demais, censurado demais, agressivo demais.

E o tapume na frente de um dos prédios destruídos pelas bombas diz: Everything will be ok. Really?

Pelo menos é isso que o governo e a maioria da classe alta (aqui quase não existe classe média, é basicamente A ou Z) quer que o todo da população acredite. Assim, o processo histórico de engolir os sapos segue seu curso, a supremacia de quem tem grana (e contatos) é reafirmada e a ordem e o progresso se estabelecem.

Ninguém sabe o que vai acontecer no futuro Thai. Tampouco fala-se sobre o assunto em qualquer mesa, seja de um bar, seja da família na hora do jantar.

Pelo contrário. Na turma internacionalizada da nossa amiga de duas origens – onde há outros mestiços - inclusive uma garouta meio brasuca, filha de pai Thai e mãe recifense - todo mundo fala Inglês fluente, viaja pacas e estudou fora. Por isso a cultura de expats (expatriados) em BKK é muito forte entre a classe abastada.

Basicamente eles tem uma vida bastante ocidentalizada no sentido cultural e rotineiro, zapeando academia, baladas, jantares, bares, shoppings, cursos e, em 90% dos casos, trabalhando no business da família.

Família não no nosso sentido da palavra. Mais especificamente no sentido da palavra Clã. A família toda do Sr. Jaruthavee mora na mesma rua. Cinco ou seis casas cercadas pelo mesmo muro e portão. É a vó, de descendência chinesa, quem oferece incensos pro Buda em nome e em prol de todos. O vô não mora mais ali, vive do outro lado da cidade com as amantes.

Outra tradição que completa o olho grosso Thai. É muito comum e aceito que homens casados frequentem massagens com happy endings e as esposas, satisfeitas com suas vidas de madame entre motorista e empregada 24h, preferem não saber de nada, e descontar tudo no cartão de crédito dos maridos, afinal, para as outras coisas existe master card.

Enquanto fazia a unha e ‘lia’ uma espécie de Caras versão Thai, interroguei Catie sobre as celebridades e ela não conhecia nenhuma: ‘é que quando fui estudar na Inglaterra achei que era hora de dar um pouco mais de atenção ao meu lado ocidental e me desliguei de algumas coisas daqui. Hoje, percebo o quanto não sou nem uma coisa nem outra e o quanto sou tanto das duas.’

* role de vassoura: gdmt (gíria da minha turma) pra dizer andar por aí de bobeira, dar umas voltas.

Site da Catie: www.cattleyajaruthavee.com fotos interessante de dentro do conflito red x yellow em Bkk e otras cositas (bacanas) más.

Sat Nam ;)

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