Paula Santomauro
Tenho uma mão no bolso e outra pedindo carona pra Lua.

Publicado em: 18/10/2011

Vendemia

Treviso. Fim de Setembro.

A movimentação debaixo do céu azul celeste ás bordas daquele tabuleiro de mini-árvores trepadeiras carregadas com seus pingentes de uva perfumada me atrai.

Chego perto, respito fundo, me aconchego a uma sombra.

Allora, senhora, se veio nos ajudar na colheita chegou tarde, acabamos de acabar.
Ah que pena! E como foi?
Tivemos una bella anata.
Mas e agora, vocês vão fazer este vinho aonde?
É senhora, a gente cuida da uva, quem faz o vinho é uma indústria aqui perto.
Ah sim? E que vinho fazem, espumante?
Ma no! Esta uva é Cabernet.
E o senhor trabalha com vinhedo faz tempo? 
A uva sempre me encantou, mas trabalhei por toda vida numa fábrica de tecido. Há dez anos atrás quando me aposentei precisavam de ajuda em um vinhedo aqui perto e comecei a trabalhar ali. 
Ma dopo, olha só (ele mostra as mãos com as juntas grossas), me veio o reumatismo. Não posso mais podar, que era minha especialidade.

Ah sim? O senhor era encarregado da poda?
É si, signora. Principalmente. Mas, na verdade, um pouco de tudo. O trabalho no vinhedo é um trabalho contínuo, um ciclo delicado que se repete a cada ano.

É mesmo? E como funciona este ciclo?
Em Novembro tem a poda de inverno, que deixa só os toquinhos das plantas. Em março a poda verde, que corta os galhos mais fracos. Em Junho e Julho tem que tirar as uvas que não são belas pra dar espaço às mais fortes. 
Em Agosto é seco, tem que regar. E fora isso, estar sempre atento às doenças.

Mas que doenças? Praga ou Fungo?
Tem praga e fungo. Por exemplo, tem as borboletinhas que contaminam a uva com o pó das suas asas, tem um fungo que vem da umidade do solo.
E como se está atento a estas coisas?

A senhora já viu rosas no meio de um vinhedo?

Já sim, é lindo.

É, mas não fazem por beleza. Fazem porque se o fungo chega a rosa fica doente primeiro. Assim, os agricultores percebem e tem tempo de administrar a cura ao vinhedo antes de ser atacado.

Veramente? Então as rosas são uma espécie de guarda-costas?

Bella la natura, no?

Belíssima!

Por isso a uva é uma paixão per me, gosto de estar ao ar livre, em contato com as plantas, o solo, o sol.

Ah, mas o senhor é um expert.
No, un sperto no. Un appassionato.

Por 15 anos organizei um festival de degustação de vinho numa cidade aqui perto. Participavam sommeliers, enólogos, jornalistas, chefs e agrônomos de toda Itália. No começo todo mundo tinha uma idéia semelhante de qual vinho era melhor e qual não era tão bom assim. Com o tempo, a tecnologia e a teoria começaram a crescer mais que as uvas e começou a ficar muito difícil julgar.

E o senhor julgava?
Io? Noooooo. Io no! Eu gosto muito de beber o vinho. Não seria capaz de julgar.

A este ponto chega o caminhão que veio buscar as caixas de uva.

Sr. Bruno me saluta:
Va bene signora, não lhe perturbo mais.
Imagine, signore! Grazie pela explicação, não faz idéia do quanto me ensinou.

Todos os outros integrantes da equipe da vendemia, incluindo o imigrante africano típico das colheitas italianas modernas, me salutam.


Fico ali, participando da combinação italiana do azul do céu com o verde do vinhedo, enquanto penso o quão grandiosa é a natureza, que fornece a água e ensina o homem a regar quando não chove, para que a planta não tenha que se nutrir da fruta, fazendo a uva crescer sem açucar e o sabor do vinho do próprio homem não seja ácido.

 

 

This will also change.

 

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