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Comparando pandemias simultâneas: Monkeypox e SARS-CoV-2

Por Naihma Fontana
(Atualizado em 25/08/2022 - 13h37)
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A varíola símia ou MonkeyPox (MPXV) é uma doença rara que circula naturalmente em macacos e roedores. É um ortopoxvírus, da mesma família e gênero que o vírus da varíola comum e geralmente não se espalha muito além da África Ocidental e Central, onde é endêmico. Este ano, no entanto, o primeiro surto generalizado da doença se espalhou para além da África, levando a Organização Mundial da Saúde (OMS) a começar a considerar se deve classificar o surto como uma emergência de saúde global. Enquanto estamos vivendo duas pandemias simultâneas, é interessante comparar os dois vírus e suas consequentes doenças para entendermos melhor o que estamos lidando.

O vírus COVID (SARS-CoV-2) é um vírus de RNA de fita simples. É pequeno, com apenas 30 kilobases de ácido nucléico em seu interior. O MPXV, como todos os poxvírus , é um vírus grande, de DNA de fita dupla com quase 200 kilobases de material nuclear e possui uma cápsula viral robusta.

Isso permite que O MPXV possa ficar viável e replicante em superfícies por até 2 semanas.

Sendo o DNA mais estável e menos sujeito a mutações do que o RNA, a taxa de mutações do MPXV em relação ao SARS-CoV-2 é de pelo menos 10 a 100 vezes menor.

No entanto, alguns dados atuais sugerem que o MPXV está mutando mais que o esperado, (50 novas mutações não vistas em cepas anteriores). Normalmente um ortopoxvirus adquire uma ou duas mutações a cada ano.

Como um grande vírus de DNA de fita dupla, a varíola é muito mais capaz de corrigir erros de replicação do que um vírus RNA (como o HIV, por exemplo), o que significa que a atual cepa de varíola deve ter realmente acumulado mutações desde que começou a circular em 2018.

Historicamente, a varíola é transmitida de pessoa para pessoa por contato próximo da pele com lesões de pele aberta, fluidos corporais, material contaminado ou gotículas respiratórias tossidas no ar. Mas a velocidade atual de novas infecções sugere que algo pode ter mudado sobre como o vírus infecta seus hospedeiros — e as novas e rápidas mutações podem ser uma possível causa.

Quando se trata de nossa guerra contra vírus, uma taxa de mutação rápida não está a nosso favor.

O SARS-CoV-2 é essencialmente transportado pelo ar e possui uma taxa de ataque considerável em espaços fechados. O MPXV, por outro lado, devido a seu tamanho maior, não é transmitido de forma tão eficiente por vias aéreas (embora possa ser transmitido dessa maneira). A maior parte do surto atual é devido ao contato pele a pele e, por isso, a relação sexual ser sua principal forma.

Outro aspecto é que o SARS-CoV-2 tem a capacidade de transmitir antes que os sintomas ocorram. Essa é uma distinção importante entre a atual pandemia e o surto de SARS-1 de 2002, quando a triagem de febre nas pessoas era uma estratégia eficaz para impedir sua propagação. Essa estratégia não se mostrou eficaz na pandemia atual, quando a transmissão já ocorria dias antes do primeiro sintoma.

Ainda não está claro se o MPXV pode se espalhar antes que os sintomas se desenvolvam. Está claro que pode se espalhar antes que as lesões se desenvolvam (após a primeira fase da doença, de febre, fadiga, dores musculares, linfonodomegalias) mas a transmissão pré-sintomática ainda é uma questão a ser respondida. Isso seria uma notícia muito ruim.

O número básico de reprodução (R0) é o número médio de indivíduos que uma pessoa doente infectará em condições de tipo selvagem – ou seja, uma população totalmente suscetível sem estratégias de mitigação.

As estimativas para o R0 do Omicron (variante do SARS-CoV-2) são muito altas – algo como 10 a 15, mas eles são construídos em muitas suposições sobre como as coisas seriam ruins se a maioria de nós já não fosse pelo menos parcialmente imune. Basta dizer que o SARS-CoV-2 é um vírus muito contagioso.

As estimativas do R0 para a MPXV, antes do surto atual, tendiam a ficar abaixo de 1, talvez tão alta quanto 1 ou 2, o que explica por que tantos pequenos surtos não vão a lugar nenhum – simplesmente não se espalham para pessoas suficientes. Esse R0 inerente provavelmente vem subindo ao longo do tempo, à medida que a imunidade da população diminui devido à falta de vacinação contra a varíola. A Organização Mundial da Saúde (OMS) coloca o R0 para o surto atual entre 1 a 2, tendendo a ser maior nas comunidades HSH (homens que fazem sexo com homens).

Assim, o R0 do MPXV  é substancialmente menor que o SARS-CoV-2. Pode ser alto o suficiente para sustentar uma pandemia, mas o efeito de um R0 baixo, mas maior que 1, é ter um aumento lento a longo prazo, em vez dos picos vertiginosos que vimos com as várias variantes de coronavírus.

Ambos os vírus podem ser bastante mórbidos, com fadiga e febre caracterizando ambas as síndromes. Mas o SARS-CoV-2 é claramente mais letal, com uma taxa de mortalidade de 0,5%.

O surto atual dá ao MPXV uma taxa de mortalidade de 0,02% , mas, como o COVID nos ensinou, as mortes aumentam com as infecções, especialmente ao alcançar grupos mais frágeis, de modo que esse número pode aumentar.

Desfechos (Óbito e Hospitalizações)
Desfechos (Óbito e Hospitalizações)

Curiosamente, as taxas de hospitalização para infecções por MPXV e SARS-CoV-2 parecem ser muito semelhantes, em torno de 10%. Mas o motivo da hospitalização é diferente. Para o SARS-CoV-2, os indivíduos normalmente são hospitalizados devido a problemas respiratórios, como hipoxemia. O principal fator de hospitalização por MPXV, até agora, é a necessidade de controle da dor.

Além disso, o SARS-CoV-2 é mais grave em idosos do que em crianças; em relação ao MPXV, crianças com menos de 8 anos podem estar em risco de resultados mais graves devido a um sistema imunológico menos desenvolvido. Isso é certamente preocupante.

Ambos os vírus, neste momento, têm vacinas que podem pelo menos reduzir os desfechos desfavoráveis, como formas graves e óbito, embora a melhor vacina contra o MPXV, a Jynneos, esteja com estoque insuficiente. Ambos os vírus têm tratamentos eficazes (Paxlovid para o SARS-CoV-2 e Tecovirimat para o MPXV). Mas o tecovirimat , não é tecnicamente aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) dos EUA para esta doença. Embora tenha sido testado em animais com varíola, foi aprovado para tratar somente a varíola comum.

Em conclusão, esta foi uma breve comparação de dois vírus atuando em pandemias simultâneas com características muito diferentes.

Fica a pergunta: o que aprendemos com elas?

Baseado no texto “COVID vs Monkeypox: A Tale of Two Pandemics” by Dr F. Perry Wilson of the Yale School of Medicine

 

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