Região:

min

max

Anuncie aqui

É possível ser portador de HIV e ter um filho sem o vírus?

Ser portadora do vírus HIV e poder ter um filho sem o vírus é uma das maiores conquistas da Medicina Moderna

Por Naihma Fontana
(Atualizado em 06/07/2022 - 12h47)
Compartilhar

Em meados dos anos 80, surgia uma doença desconhecida e altamente letal: a SIDA (ou AIDS). Tida como uma doença estigmatizante por muito tempo, devido à baixa oferta de tratamentos eficazes e o diagnóstico tardio, hoje ser portador de HIV significa uma vida praticamente normal.

Evidências consistentes e robustas evidenciam que o tratamento antirretroviral de alta eficácia (TARV) torna o vírus indetectável na corrente sanguínea, e isso implica ausência de transmissibilidade, o famoso I=I (indetectável = intransmissível).

Assim, o portador do vírus HIV em tratamento regular, ou melhor, a pessoa que convive com HIV/AIDS não mais experimenta os efeitos deletérios do vírus sobre a imunidade, como visto outrora. É mais um portador de doença crônica compensada, como acontece com o diabetes ou a hipertensão arterial sistêmica.

Na gestante, isso não é diferente. O tratamento contra HIV pode e deve ser usado na gestante PVHIV (portadora de vírus HIV). Segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas para Aids (Unaids), 82% das grávidas que vivem com o vírus no mundo tiveram acesso, no ano passado, aos medicamentos antirretrovirais que suprimem a quantidade de vírus, ou carga viral, no organismo, a ponto de torná-la indetectável no sangue.

Só na América Latina e no Caribe, quase 31 mil bebês nasceram sem HIV, entre 2010 e 2017, graças a esse protocolo. No Brasil, de 2007 a 2017, houve uma redução de 42% no número de casos de transmissão vertical de HIV, apesar de ter ocorrido, nesse mesmo período, um crescimento de 21,7% no número de gestantes infectadas.

Como ser PVHIV e ter o sonho de ser mãe ou pai?

A gestante PVHIV precisa aderir de forma integral à terapia antirretroviral ao longo de toda a gravidez para que o HIV fique indetectável na circulação. Com a rotina de medicamentos respeitada, a preocupação seguinte é a forma de engravidar. A reprodução assistida é a opção mais segura e pode acontecer de diversas formas, dependendo de qual dos parceiros é o portador do HIV.

Caso a mulher seja a portadora, uma opção é a inseminação intrauterina (IIU), pois já que o parceiro não tem o vírus, a introdução impede o contágio e garante que o sêmen chegue ao óvulo, tendo chances bastante seguras de gravidez.

Quando ambos são portadores, o IIU impede que exista uma transferência de diferentes sorotipos de vírus entre os parceiros. Quando a qualidade do sêmen não é muito alta, a indicação é a fertilização in vitro (FIV), que é segura e mais efetiva.

Se o portador for o parceiro, a FIV é uma opção, mas deve acontecer por meio de uma injeção intracitoplasmática de espermatozoides. A IIU também é uma saída para quando o progenitor tem o vírus, porém é necessária uma “filtragem” do sêmen. Nesse caso, o plasma, que é onde estão os leucócitos e as partículas virais, é separado do sêmen em laboratório, sendo necessário fazer uma avaliação de amostragem para garantir que realmente não há o vírus no produto.

É preciso que a grávida faça acompanhamento constante com médicos e utilize os remédios antirretrovirais específicos para gestantes de maneira correta. Na hora do trabalho de parto ou pouco antes da cesárea, de qualquer modo, a mãe recebe o antirretroviral zidovudina (AZT) por via endovenosa e, logo após o nascimento, o mesmo medicamento também é administrado à criança por via oral – tudo com a finalidade de minimizar a contaminação do bebê, que, afinal, sempre acaba exposto ao sangue materno ao nascer, mesmo na cesárea.

No caso de a mulher não ter feito tratamento contra o HIV no pré-natal, ou ter apresentado carga viral igual ou superior a 1.000 cópias/ml no último trimestre gestacional, o esquema preventivo para o recém-nascido também conta com mais um antirretroviral, a nevirapina. Independentemente dos fármacos usados, o tempo de duração desse tratamento varia de quatro a seis semanas.

Métodos não têm garantia de 100%

Ainda que todos esses cuidados sejam seguidos, não é 100% garantido que o bebê não contraia HIV. Se seguidas todas as recomendações, a chance de transmissão do HIV da mãe para o bebê reduz para menos de 1%, mas ainda existe.

Como o bebê carrega os anticorpos anti-HIV da mãe nos primeiros meses após nascer, o exame que indica uma eventual contaminação nos primeiros meses só pode ser o referente à carga viral (biologia molecular), e não o teste sorológico clássico (Anti-HIV), que vai se mostrar positivo nesse momento.

A determinação da quantidade de vírus deve ser feita de duas a três vezes entre o primeiro e o segundo mês, ou conforme orientação médica pediátrica. Havendo dois resultados com vírus detectáveis, considera-se a criança infectada e, até os 12 meses, inicia-se o tratamento, qualquer que seja o valor da carga de vírus e da contagem de CD4.

O período pós-parto é igualmente decisivo para completar o esquema de combate à transmissão vertical. Mas nem todas as famílias prosseguem em acompanhamento. Conforme dados do Unaids, do 1,1 milhão de bebês expostos ao HIV no ano passado nos 23 países mais afetados por HIV, só 63% foram testados até os 2 meses de idade.

Mesmo com carga viral indetectável, o seguimento pediátrico precisa continuar porque a resposta definitiva de que o bebê não tem mesmo o vírus só vem após 18 meses. Se a sorologia estiver positiva depois desse período, o diagnóstico de HIV fica confirmado e o tratamento com antirretrovirais também é realizado conforme o estado do paciente e os resultados da carga viral e da contagem de CD4, célula de defesa que é o principal alvo do HIV – quanto maior sua quantidade, menor o comprometimento imunológico e a vulnerabilidade às complicações do vírus.

Vale lembrar que, como o HIV também pode ser transmitido pelo aleitamento, a amamentação é contraindicada para gestantes PVHIV, mesmo que o vírus não possa ser detectado no sangue.

No Brasil, desde 1999, crianças nascidas de mães que vivem com HIV têm direito a uma fórmula láctea em quantidade suficiente para sua alimentação ao menos até 6 meses de idade. A mulher, por sua vez, recebe medicamento para inibir a lactação.

A OMS concede uma certificação às nações que reduzem as taxas de transmissão vertical a níveis inferiores a 2% – ou dois casos de HIV em crianças a cada 100 gestantes infectadas. Cuba foi o primeiro país a receber o documento, seguida por Tailândia, Armênia e Moldávia. No Brasil, com suas dimensões continentais, por enquanto apenas três municípios com mais de 100 mil habitantes – condição para receber o reconhecimento – conseguiram atingir esse objetivo: Curitiba e Umuarama, ambos no Paraná, e, mais recentemente, São Paulo.

Ser PVHIV e poder ter um filho sem o vírus é uma das maiores conquistas da Medicina Moderna. Muitas pessoas, inclusive profissionais de saúde, ignoram essa possibilidade por desinteresse ou preconceito. Essa questão última, na verdade, é o maior desafio que há quando o assunto é HIV e o conhecimento é a maior arma para combatê-lo.