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Monkeypox: Dúvidas comuns de consultório

Os primeiros sintomas são febre, dores no corpo e na cabeça, calafrios e exaustão, que podem durar em média três dias

Por Naihma Fontana
(Atualizado em 03/08/2022 - 20h03)
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Por que o nome “varíola dos macacos” ou “varíola símia”?

Porque o vírus foi descoberto em 1958 inicialmente em macacos (primatas), com relatos de casos humanos a partir de 1970. No entanto, os primatas não são reservatórios da doença, sendo tão ou mais vítimas como os seres humanos. Assim, não é correto falarmos varíola dos macacos. Esse foi o nome que ficou conhecido popularmente, porque o vírus foi detectado inicialmente em macacos que foram exportados da África para a Dinamarca e a doença foi verificada e identificada neles como um poxvírus. Porém, se sabe que roedores adquirem a doença.

Existem duas linhagens do vírus da varíola dos macacos, com diferentes níveis de gravidade: a da África Ocidental e a da Bacia do Congo (África Central). As infecções humanas com a da África Ocidental são mais brandas que a cepa da Bacia do Congo.

Os países onde a varíola dos macacos é considerada endêmica são Benin, Camarões, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, Gabão, Gana (identificado apenas em animais), Costa do Marfim, Libéria, Nigéria, República do Congo, Serra Leoa e Sudão do Sul.

O vírus em circulação atualmente no nosso país é a cepa mais branda da África Ocidental (doença mais leve, mortalidade de 1%) e cepa do Congo (mortalidade 10%).

A varíola símia é igual à varíola comum?

Apesar de terem algumas semelhanças, os vírus monkeypox, conhecido como varíola dos macacos, e o smallpox, da varíola comum, são diferentes. Os dois vírus são da mesma família (Poxvirida) e do mesmo gênero Orthopoxvirus, e têm uma identidade genética bastante grande, de quase 90%. Porém existem diferenças que fazem com que a varíola infecte apenas os seres humanos e o monkeypox tenha outros tipos de hospedeiros, que seriam os primatas não humanos e os roedores.

Sua origem remonta a epidemias na Idade Média (entre os séculos 10 e 20). Ela se tornou menos mortal a partir da descoberta da vacina contra varíola pelo médico inglês Edward Jenner (1749-1823) ainda no século 18. A vacina foi produzida com base na inoculação da varíola da vaca em humanos, depois de Jenner perceber que indivíduos que ordenhavam ou que haviam tido contato com vacas doentes pela varíola de bovinos (cowpox) não se contaminavam com a varíola humana.

No Brasil, o primeiro surto da varíola ocorreu em 1555 no Maranhão. Desde então, espalhou-se pelo país das cidades portuárias, trazidas pelos portugueses, até chegar ao interior.

A Campanha de Erradicação da Varíola foi criada em 1966, quando substituiu a Campanha Nacional contra a Varíola, de 1962. A vacinação em massa, que imunizava pessoas em praças públicas e em escolas, usava um injetor de pressão para aplicação da vacina, o que permitia imunizar mais pessoas em menos tempo, já que a doença se espalhava como pólvora. Com cobertura e adesão de 100% da população na campanha, o Brasil recebeu a certificação internacional da erradicação da varíola em 1973, segundo dados do Ministério da Saúde.

Já a varíola dos macacos (monkeypox) é considerada uma zoonose viral (vírus transmitido aos seres humanos a partir de animais) com sintomas muito semelhantes aos observados em pacientes com varíola humana, embora seja clinicamente menos grave. O período de incubação da varíola dos macacos é geralmente de seis a 13 dias, mas pode variar de cinco a 21 dias

Quais os sintomas do monkeypox?

Os primeiros sintomas são febre, dores no corpo e na cabeça, calafrios e exaustão, que podem durar em média três dias. Importante enfatizar que esses sintomas são comuns a muitas doenças virais e bacterianas, sendo importante a história de contato íntimo e prolongado com alguém suspeito. Na segunda fase, aparecem lesões na pele, em várias regiões do corpo (boca, mãos, genitais, ânus) e evoluem em cinco estágios. Elas surgem como pequenas manchinhas vermelhas (máculas), sobre as quais crescem bolhas (pápulas) que ficam com secreção amarelada (pústulas). Em seguida, essas bolhas se rompem, formam “casquinhas” (crostas), e depois se curam. Esse processo – entre aparecer a primeira manchinha vermelha, sumir tudo e ficar sem lesões – leva de duas a quatro semanas, normalmente. Durante todo esse período, o contato com as lesões e suas secreções, ou materiais inertes contaminados pode transmitir o vírus.

Se eu estiver doente, preciso me isolar?

Sim. A forma de transmissão é através do contato com as lesões, fluidos corporais, saliva (menos importante) e áreas contaminadas com fluidos das lesões.

Crianças até 8 anos, história de eczema, gestantes, imunossuprimidos consistem no grupo de risco para formas graves e óbito.

Quem tomou a vacina contra varíola está protegido?

Estudos dos anos 80/90 mostrou que a vacina da Varíola Humana provê uma proteção de 85% aproximadamente contra a Variola Símia. No entanto, não se sabe ao certo se após 40 anos a proteção se mantém.  A orientação é que, mesmo vacinado, todos tomem as devidas precauções individuais.

Temos vacina contra a monkeypox?

Em 2019, o FDA dos Estados Unidos aprovou a vacina Jynneos para monkeypox e SmallPox, uma vacina de 3ª geração produzida pela empresa dinamarquesa Bavarian Nordic A/S. Ela é feita a partir de uma forma modificada do vírus vaccínia, um “primo” do vírus da varíola comum e da varíola símia, ou seja, não contém os vírus que causam a varíola comum ou a varíola dos macacos e pode proteger contra ambas as doenças. Jynneos contém uma forma modificada do vírus vaccinia chamada Modified Vaccinia Ankara, que não causa doenças em humanos e não é replicante, o que significa que não pode se reproduzir em células humanas. Essa vacina é administrada em 2 doses com intervalo de 4 semanas entre elas e estará disponível em setembro deste ano no Brasil.

O outro imunizante licenciado para uso nos Estados Unidos chama-se ACAM2000. No entanto essa vacina, que é de primeira geração, tem efeitos colaterais significativos.

A vacinação contra monkeypox será feita para toda a população?

Apesar de disponíveis em alguns países, as vacinas contra a doença estão direcionadas, até o momento, apenas a profissionais que atuam de forma direta com o vírus em laboratórios, profissionais da saúde expostos à contaminação, ou para familiares e pessoas próximas de indivíduos contaminados.

Existe tratamento contra a monkeypox?

Não existe um tratamento específico, mas os antivirais criados para curar a varíola humana também podem ser utilizados para a varíola dos macacos. Tais como, os remédios Tecovirimat, Cidofovir, e o Brincidofovir, que são aprovados nos Estados Unidos. Além disso, deve-se evitar o uso de ácido acetilsalicílico.

Essa doença é restrita aos “gays”?

Absolutamente não! O atual surto da doença iniciou no público HSH (homens que fazem sexo com homens), mas poderia ter tido início em crianças, idosos, heterossexuais, etc. Qualquer pessoa que tenha contato com um portador do vírus da monkeypox está sujeito a adquirir a doença, mas como indivíduos HSH normalmente interagem e convivem mais entre si, estamos vendo mais pessoas desse público com a doença.

Disseminar essa teoria é contraproducente, pois faz com que pessoas que não fazem parte do grupo dos HSH sintam-se erroneamente desprovidos da possibilidade de contágio, e acabam por não se proteger adequadamente, além de mostrar o quanto a pessoa está desinformada ou, eventualmente, é ignorante das formas de transmissão e contágio desse vírus. Os próprios fatos científicos mostram que a transmissão não tem nenhuma relação com a opção sexual. Neste primeiro momento, o risco de se adquirir a doença é probabilisticamente maior em relações eventuais entre dois homens e proporcionalmente ao número de parceiros pela prevalência atual maior neste grupo. A prevalência é dinâmica, e pode mudar a qualquer momento, portanto temos que nos informar sobre a epidemiologia atual, sem criar rótulos equivocados.

Há grupo de risco para óbito relacionado à monkeypox?

Sim. Imunossuprimidos, idosos, portadores de câncer e neoplasias hematológicas, gestantes, crianças menores que 8 anos, crianças portadoras de eczema ou doenças crônicas de pele constituem grupo de risco aumentado para forma grave da doença e óbito.

Como se proteger da monkeypox?

 A principal forma de prevenção, hoje, é o conhecimento do risco: você saber que existe o vírus monkeypox circulando e saber que, para “pegar”, é preciso um contato íntimo e prolongado. É importante ficar atento se alguém com quem você se relaciona – alguém que mora na sua casa, com quem você namora, com quem você tem relações sexuais, por exemplo – tem alguma lesão e pode estar doente. Além disso, usar máscara em locais fechados, higienizar as mãos com frequência são medidas interessantes, até definirmos o papel das gotículas na transmissão. E, por fim, reduzir o número de parceiros sexuais eventuais, principalmente se sob efeito de álcool e entorpecentes, que levaria a um estado de desatenção na pronta detecção de uma lesão suspeita no corpo do(a) parceiro(a), por exemplo.