Você já ouviu falar em Síndrome de Guillain-Barré (SGB)? Mas o que é isso? Eu te explico!

Essa síndrome é uma neuropatia periférica (inflamação do sistema nervoso periférico, um sistema de nervos que o cérebro usa para controlar os músculos e glândulas) com paralisia flácida ascendente progressiva que acontece após uma infecção. Doença rara que, mesmo com tratamento, possui mortalidade de 5% e evolução para sequelas permanentes em 20% das pessoas com a síndrome após 1 ano. Acomete, em maioria, homens na faixa dos 50 anos.

Mas como isso acontece?

É um processo imunológico mediado por autoanticorpos, que é desencadeado por mimetismo molecular entre os componentes estruturais dos nervos periféricos e os micro-organismos implicados, que destrói as bainhas de mielina dos nervos. Em outras palavras, o sistema imune “ataca” parte do sistema nervoso periférico e destrói a bainha de mielina (membrana que envolve os nervos), que serve como se fosse a capa dos fios de eletricidade. Esta capa (mielina) não apenas protege os fios (nervos), como também facilita a transmissão de eletricidade (impulsos nervosos). Quando a “capa” é destruída, o nervo exposto pode encostar um no outro e gerar curto-circuito, ou parar de transmitir a corrente elétrica.

A incidência mundial da Síndrome de Guillain-Barré é baixa: 1 a 2 casos para cada 100.000 habitantes por ano.

A maioria dos pacientes apresenta uma doença infecciosa antecedente, mais comumente infecções do trato respiratório superior e gastroenterites (diarreias).

Mais recentemente essa síndrome foi associada a infecção pelo vírus da Zika e, em 2020, ao vírus SARS CoV2 (Covid-19). Outras infecções encontradas na literatura cientifica que podem desencadear essa doença incluem Dengue, Zika, Chikungunya, Citomegalovírus, vírus Epstein-Barr, Sarampo, HIV, influenza A, Mycoplasma pneumoniae, enterovirus D68, hepatite A, B, C, Haemophilus influenzae, além de Campylobacter jejuni (mais comum), bactéria que causa diarreia.

A vacina contra H1N1 na sua versão de 1975 mostrou relação com a síndrome, porém, a vacina de 2009 possui incidência menor que 1 em 1 milhão, ao passo que a doença por Influenza tem incidência 17 vezes maior (17 por milhão).

Sintomas

Essa síndrome pode se apresentar de várias formas. A mais comum delas é a paralisia aguda dolorosa. Os sintomas começam 2 a 4 semanas após uma infecção respiratória (como uma gripe) ou gastrointestinal (como uma diarreia), geralmente benigna (muitas vezes nem leva o doente a procurar atendimento médico). Ou seja, quando o paciente já se sente totalmente curado, inicia-se um formigamento nas pontas dos dedos, uma fraqueza muscular nas pernas, que vai progredindo de forma ascendente (de baixo para cima) em horas ou dias. Geralmente a fraqueza é bilateral (acomete igualmente os dois lados do corpo).

Outras sensações que podem aparecer são dor, dormência, problema de coordenação motora e instabilidade, disartria (o doente não consegue falar direito), pálpebras caídas.

A dor costuma ser latejante e mais intensa nas costas, pernas e braços, que piora a qualquer movimento. Outros sintomas associados:

  1. Taquicardia ou bradicardia (aumento ou diminuição das batidas do coração);
  2. Aumento da pressão arterial;
  3. Diminuição brusca da pressão arterial ao se levantar;
  4. Retenção urinária.

Complicações

A complicação mais temida dessa doença é a evolução para fraqueza dos músculos da respiração, deixando o doente incapaz de respirar sozinho. Outras complicações são incapacidade de andar (deixando o doente dependente de cadeira de rodas); desequilíbrio, incoordenação; cansaço persistente.

Diagnóstico

O diagnóstico é principalmente clínico e não há qualquer exame confirmatório. Os exames laboratoriais podem auxiliar no raciocínio:

  1. Exame de liquor (líquido que fica dentro da coluna, retirada através de punção por agulha, geralmente na região lombar);
  2. Eletroneuromiografia (estudos de condução elétrica do nervo);
  3. Exames de sangue.
  4. Sorologias
  5. Exames de PCR (biologia molecular)

Tratamento

O tratamento da síndrome de Guillain é realizada dentro do hospital, justamente devido ao risco de complicações.

  1. Suporte clínico de acordo com as complicações apresentadas;
  2. Imunoglobulinas (substância que neutraliza os anticorpos que estão atacando os neurônios);
  3. Plasmaférese (uma máquina semelhante a de hemodiálise, que filtra o sangue do corpo retirando as substâncias que estão atacando o sistema nervoso).