Região:

min

max

Anuncie aqui

Carne à base de planta e tecido criado em laboratório: o futuro da comida é tech

Repensar a forma como nos alimentamos é imprescindível para o bem-estar do planeta

Por Fábio Devito
(Atualizado em 26/05/2022 - 15h50)
Compartilhar

Anitta surpreendeu os fãs brasileiros, nesta quinta-feira (26), ao anunciar que ‘fará parte da Fazenda’. O anúncio, no entanto, não diz respeito ao reality show brasileiro, mas sim à Fazenda Futuro – startup que desenvolve produtos de carne à base de plantas. A cantora passará a ser investidora da empresa, atualmente avaliada em R$ 2,2 bilhões. Seu interesse reforça o potencial do “plant based” como um expoente da tecnologia alimentícia na próxima década.

Repensar a forma como nos alimentamos é imprescindível para o bem-estar do planeta. De acordo com informações do GreenPeace, a produção de carne em larga escala é responsável pela emissão de gases poluentes que aceleram os efeitos do aquecimento global.

Em países como o Brasil, que se beneficia da produção de gado para a exportação de alimentos, o impacto chega a ser duplicado, pois não se limita aos gases emitidos pelos animais, mas também pelo aumento do desmatamento necessário para o desenvolvimento pecuário.

Segundo o GreenPeace, para garantir condições climáticas viáveis para as próximas gerações, aliviando os danos causados pelo efeito estufa, é necessário que o consumo de carne e lacticínios seja reduzido em escala global pela metade até 2050.

Uma mudança tão drástica nos hábitos da população dificilmente será atingida sem o apoio de tecnologia. Por isto, nos últimos anos, a indústria tem se dedicado a encontrar alternativas sustentáveis ao consumo de proteína animal.

As iniciativas envolvem desde a substituição da matéria-prima por plantas até o desenvolvimento de carnes 100% sintéticas, feitas em laboratório.

Plant Based

Criada em 2019 pelo brasileiro Marcos Leta, a Fazenda Futuro é referência em produtos plant based. Isto é, alimentos desenvolvidos a partir de matérias-primas vegetais, mas que pretendem atender à demanda de um público que não é necessariamente vegetariano ou vegano.

Utilizando proteínas de leguminosos como a ervilha, a farinha de grão de bico e gorduras derivadas até de frutas, como o coco e grãos de granola, a foodtech desenvolveu um processo que transforma estes ingredientes em alimentos que emulam o sabor e a textura de carnes de boi e frango. Atualmente a empresa conta com mais de 190 produtos e em seu catálogo, incluindo o “hambúrguer do futuro” – seu carro-chefe – que é comercializado em 30 países.

Além do impacto no ambiente, a empresa reforça que o plant based também contribui para a saúde do consumidor.

Embora não tenha revelado a quantia aportada na empresa, Anitta declarou que será uma sócia ativa da startup e participará da startup sempre que necessário na gestão dos negócios.

“Decidi ser sócia da Fazenda Futuro principalmente por acreditar que a tecnologia de alimentos veio para ficar”, declarou a cantora.

 

Hambúrger de planta (Foto: Freepik.com)

Plant Based é seguro?

Apesar dos avanços ambientais, há quem discorde de Anitta sobre o potencial dos alimentos plant based. De acordo com um estudo feito pela revista científica Nature, ainda é preciso cautela na adesão de carnes vegetais em sua dieta.

Mesmo se tratando de proteína, foi constatada uma diferença de até 90% entre enzimas e elementos metabólicos presentes na carne animal e nas carnes vegetais. O estudo ainda levantou que a carne convencional de gado permite a digestão de cerca de 190 metabólitos, enquanto o mesmo prato baseado em vegetais permitirá que o consumidor sintetize apenas 171 destes nutrientes.

Além disso, elementos nutricionais como vitamina B3, docosahexaenóico, glucosamina, hidroxiprolina e antioxidantes como alantoína, anserina, cisteamina, espermina e esqualeno – cuja presença é fundamental para o fortalecimento do corpo humano – não foram encontrados em carnes vegetais.

O estudo conclui que carnes vegetais não devem ser encaradas como alimentos intercambiáveis de uma dieta animal, mas complementares, contribuindo para a diminuição do consumo de carnes.

Carne sintética

As diferenças proteicas das carnes vegetais também são uma preocupação da comunidade científica. Para muitos cientistas, o plant based é apenas um caminho para o próximo passo na evolução humana, mas diversos estudos e empresas apostam na fabricação de alimentos 100% criados em laboratório como alternativa ao consumo animal.

A premissa, que parece tirada de um filme de ficção científica, já é realidade em muitos países e deve chegar ao Brasil em meados de 2024. Estas iniciativas aproveitam da tecnologia de embriões in vitro e do desenvolvimento de células a partir de biorreatores para duplicar os alimentos.

A fabricação começa com a retirada das células do animal por meio de uma biópsia, geralmente feita a partir de células-tronco musculares. A partir daí, estas células são colocadas em um meio de cultura com nutrientes que incentivarão a sua multiplicação, um processo semelhante com o que acontece na fabricação de queijos e iogurtes.

Estes materiais são levados para um biorreator para acelerar o seu desenvolvimento. Em cerca de nove semanas surgem os primeiros filamentos musculares que serão processados em carne moída.

Atualmente, cerca de dez países desenvolvem pesquisas de carnes sintéticas, incluindo Estados Unidos, China e Singapura – um setor que movimenta cerca de US$ 360 milhões (R$ 1,720 bilhão) ao ano.

No Brasil, universidades, startups e empresas começam a avaliar este segmento como parte necessária para o recebimento de investimentos e incentivos tecnológicos. A JBS – atualmente a maior exportadora de proteínas do país – espera que os primeiros filés sintéticos cheguem às casas dos brasileiros nos próximos dois anos.

Um olhar para o futuro

O pensamento científico e tecnológico para estas questões também contribui para outro problema que a humanidade enfrentará nos próximos anos. À medida que o aumento da produção animal contribuirá para a crise climática, o aumento da população humana também exigirá mais comida.

De acordo com o levantamento da ONU, a humanidade deve chegar aos 10 bilhões de habitantes antes de 2050. Para evitar a insegurança alimentar destes novos tripulantes, será necessário aumentar a produção de comida do mundo em cerca de 70%.

O problema é real e as alternativas estão aí. Independentemente do caminho escolhido, ter personalidades como Anitta trazendo visibilidade e promovendo o debate da tecnologia para estas causas é um avanço para que mais pessoas se interessem pelo tema.