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Eu não sou uma piada: a homofobia em Pantanal

A cena do mordomo gay Zaquieu, de Pantanal, trouxe o debate sobre como a violência embutida em “piadas” e “brincadeiras”, hoje enquadradas como crimes, ainda atingem diariamente pessoas LGBTI+

Por JP Polo
(Atualizado em 12/07/2022 - 9h47)
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#PraTodesVerem:
JP Polo é um homem branco, gay, cisgênero, com barba preta, cabelo raspado, vestindo camiseta branca com listras pretas horizontais. Ao fundo tem a bandeira do arco-íris na parede e, na mesinha de madeira ao seu lado, estão alguns livros e um vaso com uma folhagem verde.

 

Goste ou não de novelas, impossível negar que elas são parte fundamental da cultura popular do Brasil e têm seu papel nos debates de temas importantes para a sociedade. Não é de hoje que muitas delas trazem à tona discussões como violência doméstica, doação de órgãos, reforma agrária, racismo, exploração ambiental e tantas outras pautas. Se trouxeram, entretanto, a melhor abordagem ou com a profundidade necessária, essa já seria outra discussão, tão valorosa quanto.

Porém, para a coluna de hoje, vamos focar numa cena de Pantanal que foi ao ar na semana passada. Nela, o mordomo abertamente gay, Zaquieu (interpretado pelo potente e talentoso Silvero Pereira), vai para a fazenda no Mato Grosso do Sul e acaba sendo vítima de piadas, chacotas e humilhações feitas pelos peões que lá vivem, inclusive de Zé Leôncio (Marcos Palmeira), proprietário do local.

A Zaquieu são direcionadas palavras como: “esquisitinho”, “você tá de parabéns, muito ruim”, “não tem espelho em casa, não”, “ele vai chorar”, “esse pavão tem medo até de papagaio”, além de risos maldosos e deboches. Cansado dessa violência, ele escreve uma carta relatando os motivos da partida e retorna ao Rio de Janeiro.

Tenho certeza de que, assim como eu, tantas pessoas LGBTI+ viram suas vidas refletidas na tela da TV, nesse dia. Reviveram suas próprias dores nas lágrimas de Zaquieu. Sentiram de maneira coletiva a solidão, muitas vezes nossa única companheira na trilha da autodescoberta, quando você não se encaixa no padrão de gênero e sexualidade impostos pela sociedade.

Entender-se LGBTI+ foi (ao menos pra mim) ter que conviver com percepções de mim que me tornavam monstruoso no entendimento dos outros; foi ter que olhar para sentimentos e afetividades tão doces que em mim brotavam, porém transformados em medos colossais, devido ao julgamento alheio; foi não poder conviver com outras pessoas de maneira plena, sempre me escondendo, em fuga, receoso de alguém revelar minha versão pecaminosa, reforçada pelos livros sagrados. Foi assim e, algumas vezes, ainda é.

Para tentar amenizar essas dores, alguns de nós (comigo foi assim), tentamos flutuar entre as pessoas, tentar não ser o foco em nenhuma situação, passar despercebido ou ser o legal e divertido com todo mundo, para não ser alvo de bullying. Algumas (ou muitas) vezes, em vão. E clamar por aceitação! Como se o certo fosse o outro me aceitar, ou seja, a pessoa não-LGBTI+ que teria o “poder” de me deixar ser quem eu sou, fortalecendo essa hierarquia simbólica criada historicamente. Um erro, mas também uma boia de salvação quando se é jovem e está se entendendo na sua sexualidade.

Voltando à novela, Zaquieu, quando ainda na chalana a caminho do aeroporto, traduz bem esse nosso sentimento de fuga, como se corrêssemos num labirinto, feito cobaias de uma sociedade intolerante: “Minha vida inteira eu fui motivo de chacotas, alvo das piadas dos outros, dos apelidos, das gozações. Tanto tempo interpretando o papel do mordomo gay, que eu achei que era isso mesmo, que eu servia para fazer os outros rirem, para me apontarem o dedo, que só assim eu seria aceito no mundo deles, sendo a piada que eles tanto queriam.”

Na versão de Pantanal de 1990 (veja acima), o primeiro Zaquieu continuou sendo a piada e não houve nenhum debate mais sério sobre isso. Ao contrário, ao finalizar a cena da leitura da carta, na época, a seguinte frase foi dita: “como todo homossexual, tem a sensibilidade à flor da pele”, reforçando estereótipos.

Nesse remake, entretanto, o desfecho dessa situação é outro. Zé Leôncio é interpelado pela ex-sogra, para quem o mordomo trabalha, e aponta que homofobia é crime (desde 2019, por decisão do STF). O dono das terras, por sua vez, reúne os peões e, em tom enfático, diz: “isso que vocês fizeram tem nome e não é piada, não. É crime. É homofobia”. E finaliza dizendo que se esse fosse um país sério, todos, inclusive ele mesmo, deveriam estar presos.

Imaginar que esses diálogos todos aconteceram na maior emissora, em horário nobre e na novela mais assistida no país é para se considerar. Não como se isso fosse a solução mágica dos problemas que afligem diariamente nós LGBTI+ nem para dar à Globo um grande troféu pelo feito, pois o desenrolar do enredo dessa maneira é o mínimo que se espera. Mas é importante entendermos uma mudança de paradigma, reconhecer o poder dessa mídia e do quanto ela ainda é matéria-prima para outras tantas mídias digitais, que repercutem e expandem o alcance desses diálogos.

Inclusive, a frase final da fala de Zaquieu viralizou e tomou as redes, já deixando essa cena na história da dramaturgia brasileira pró-LGBTI+: “Tanto tempo interpretando o papel do mordomo gay, que eu achei que era isso mesmo, que eu servia para fazer os outros rirem, para me apontarem o dedo, que só assim eu seria aceito no mundo deles, sendo a piada que eles tanto queriam. Acontece que eu sou uma pessoa, eu não sou uma piada.”

LGBTfobia é crime e, definitivamente, violência não é piada. Aquilo que chamam de “piadas” e “brincadeiras” é o que mantém viva a ideia de quem existem pessoas melhores e outras piores. É o que fomenta a estrutura social preconceituosa e discriminatória que coloca de um lado as pessoas que merecem respeito e direitos e, do outro, aquelas que só poderão viver a exclusão, a falta de oportunidades e a morte por serem quem são. Pessoas e suas vivências não são piadas!

#dicadoJP

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