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Ninguém “vira” homem, lobisomem ou LGBTI+ só porque ouviu falar sobre o tema, tá?

A dúvida que paira é se “eu falar sobre isso com meu filho ou filha, não estarei incentivando a ser LGBTI+?”. Certamente sexualidade não é algo que você escolhe na gôndola do mercado, utiliza e depois escolhe outra. Conhecimento liberta, não aprisiona

Por JP Polo
(Atualizado em 19/07/2022 - 16h39)
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#PraTodesVerem: JP Polo é um homem branco, gay, cisgênero, com barba preta, cabelo raspado. Veste camiseta preta, está sentado numa poltrona vermelha, ao fundo tem a bandeira do arco-íris na parede e, na mesinha de madeira ao seu lado, estão alguns livros, uma vaso com uma folhagem verde e uma pequena bandeira do movimento de trans e travestis nas cores rosa, azul e branco.

 

Há alguns anos trabalhando como consultor em empresas, fazendo palestra e dando treinamentos sobre os temas de Diversidade, Equidade e Inclusão, quando falo especificamente das questões LGBTI+, com certa frequência eu recebo a seguinte pergunta:

“Eu devo falar sobre isso com uma criança ou adolescente? Se falar, eu não estarei incentivando ou normalizando isso?”
Às vezes, a pergunta vem num tom mais provocativo, querendo me colocar na parede; outras vezes, demonstrando um medo do adulto sentir-se culpado por transformar seu filho ou filha numa pessoa LGBTI+, caso fale sobre o assunto em casa. Rara são as vezes em que a pergunta vem com o objetivo de ampliar o diálogo, como uma dúvida sincera e que busca argumentos nos quais se apoiar.

(Foto: Divulgação)
JP Polo aborda sobre temas ligados à diversidade (Foto: Divulgação)

Mais recentemente, o que também tem provocado essa pergunta foi o lançamento da nova animação da Disney e Pixar, Lightyear, um spin-off que conta a história do astronauta que inspirou a fabricação do Buzz, o boneco queridinho do Andy em Toy Story. No filme atual, existe um casal de mulheres lésbicas e um beijo entre elas, de poucos segundos. O filme já foi proibido em alguns países do Oriente Médio e Ásia e tem deixados algumas mães, pais e responsáveis sem saber como lidar com o tema, caso a criança traga isso à tona.Tentando ser didático, dividi a minha resposta em 4 pontos. Relembrando a pergunta padrão:

“Eu devo falar sobre isso com uma criança ou adolescente? Se falar, eu não estarei incentivando ou normalizando isso?”

1. Na base da pergunta, já identificamos o preconceito implícito: se você acha que falar sobre algo é “normalizá-lo”, é porque você já parte do pressuposto que ser LGBTI+ não é normal, que pode ser algum tipo de distúrbio, erro de caráter ou até mesmo patologia. Vamos aos fatos: desde 1990, a homossexualidade não faz mais parte da lista de doenças da OMS (Organização Mundial de Saúde) e a transexualidade também foi retirada da classificação de transtornos mentais, pelo mesmo órgão, em 2018. No Brasil, existem ainda regulamentações específicas proibindo profissionais de psicologia de realizar práticas de “cura” ou “terapias de conversão” para pessoas LGBTI+; Se não é doença ou distúrbio mental, não há necessidade de cura, ok? É, então, parte da condição humana e, portanto, algo normal;

2. Sexualidade não é roupa no cabide que você escolhe ao acordar. “Hoje estou me sentindo mais bissexual, então é assim que eu vou ser nesse dia”. Quando falamos de orientação sexual e identidade de gênero, ninguém “vira” nada. Inclusive, comento durante minhas palestras, que ninguém “se transforma” em gay após me ouvir, só porque eu sou gay e porque expliquei os conceitos. Definitivamente, não tenho esse superpoder.

mulher com uma bandeira (Foto: Freepik)
JP Polo aborda sobre temas ligados à diversidade (Foto: Divulgação)

3. Na minha infância e adolescência, ao ter consciência das narrativas e simbologias à minha volta, eu fui percebendo que fugia àquele roteiro hetero que a mim era imposto a todo momento: na família, escola, pelas mídias… Mesmo sem saber nomear ou conceituar quem eu era na época, eu já sentia quem eu era e qual era meu interesse. Assim como acontece com pessoas heterossexuais e cisgênero, que se entendem dessa forma, mas com a diferença de que elas não precisam pensar sobre esse tema porque a nossa sociedade abraça e aplaude quem assim se identifica. Ou seja, eu nasci e cresci num ambiente que me ensinava a todo tempo ser hetero, mas mesmo assim eu “não virei um”. Por que, então, o contrário seria válido: alguém “virar” LGBTI+, se assim não se entende, só porque falamos sobre o tema?

4. Se, na minha infância e adolescência, existissem animações como Lightyear que traz representatividade pra telona e apresenta novas formas de afetividade fora do padrão dominante, as coisas seriam diferentes pra mim. Se, além disso, eu tivesse com quem conversar sobre isso, um adulto que me acolhesse e dissesse apenas “tá tudo bem, você não é errado, nem pecador, nem nada disso”, certamente isso teria me livrado de muitos sofrimentos. Eu poderia ter sido poupado das crises de choro, da ansiedade, da depressão e das muitas vezes em que pensei que seria melhor não viver. Meus pais fizeram o que puderam, como puderam e são pessoas incríveis. Sou muito grato a eles e à minha própria resistência, que me faz estar aqui hoje com orgulho de ser quem sou e fazendo do meu trabalho uma ferramenta de transformação.

Duas mulheres felizes deitam-se com a bandeira lgbt no jardim (Foto: Freepik)
JP Polo aborda sobre temas ligados à diversidade (Foto: Divulgação)

Portanto, fugir de conversas e temas como esse não vão fazê-los desaparecer da face da Terra, nem vai transformar ninguém em algo que já não seja ou que vai se entender no decorrer da vida. A grande e importante diferença quando falamos sobre isso e não negamos sua existência é transformar espaços, como o escolar, familiar e a sociedade de maneira geral, em ambientes seguros para pessoas que se identificam como LGBTI+. Informação e conhecimento abrem a mente e incentivam o diálogo, o respeito impera e o preconceito não tem vez.

#dicadoJP
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Livro infantil – “É tudo família!” (autora: Alexandra Maxeiner)