Região:

min

max

Anuncie aqui

Só é mimimi pra quem não está na mira

Negar que o preconceito e a discriminação existem é ter uma atitude LGBTIfóbica. É papel de cada pessoa ser agente transformador dessa realidade e exigir do Estado políticas protetivas e eficazes no combate dessas situações

Por JP Polo
(Atualizado em 16/08/2022 - 13h27)
Compartilhar

Vamos começar nossa conversa de hoje com uma das frases, a exemplo de outras que eu já citei em colunas anteriores, que eu e tantas outras pessoas LGBTI+ já escutamos no decorrer da vida, principalmente quando falamos do enfrentamento ao preconceito e da busca de direitos iguais: “Isso tudo é mimimi”.

 

Pra rebater essa frase, existe uma ótima resposta: “mimimi é a dor que não dói em você, mas dói em mim”. Ela traz, no seu cerne, a tentativa de despertar nessa pessoa preconceituosa a consciência de desigualdade existente na sociedade e, também, tem como objetivo buscar algum indício de empatia que possa habitar um ser que desqualifica a dor alheia. Tentativas, né, mores!

 

Quando alguém diminui as consequências reais das opressões vividas por uma pessoa ou um grupo, isso mantém vivo esse sistema de violência que faz com que tantas pessoas sofram diariamente por serem LGBTI+. Quando se diz que a dor da outra pessoa é mimimi, apenas por você não a vivenciar, é, ao mesmo tempo, negar a existência daquele ser como diferente de você, acreditar que existe somente um padrão certo de ser gente nesse mudo e achar que, durante a nossa construção histórica, econômica, política e social, o fato de eu ser gay, bi, lésbica, trans ou travesti, por exemplo, não me coloca na berlinda, no centro do alvo de agressões, da falta de oportunidades e da exclusão em diversos ambientes. Em que mundo essa pessoa vive, pelamor?

 

 

Eu sei que para lidar com pessoas desse tipo, argumentos e dados reais e factíveis, às vezes, não têm muito efeito. Principalmente se a pessoa se agarrar numa fake news ou numa corrente do zap enviada por não-sei-quem que diz absurdos críveis por ela.

 

Mas, para nós que estamos desse lado da força, acreditamos na ciência e, para além, sentimos na pele sobre o que falamos, fatos são fatos! Ao nosso lado, nesses anos de luta dos movimentos por direitos igualitários, tivemos alguns avanços. Entretanto, esse processo de reconhecimento e garantia de direitos só se deu, em larga medida, por resoluções e decisões do Poder Judiciário, não pelo nosso Legislativo. Algumas delas são:

  • permissão da alteração do registro civil de pessoas trans ou não binárias sem a necessidade de cirurgia de redesignação ou laudos médicos;
  • o casamento homoafetivo e a extensão de direitos de herança e direitos previdenciários a cônjuges de relações homoafetivas, mesmo sem comprovação da união homoafetiva;
  • Permissão de pessoas LGBTI+ doarem sangue (recentemente apenas, em 2020).

 

Quando falamos de paridade de direitos, não estamos falando em exclusividade ou de exigir algo a mais. Esse também é outro argumento estapafúrdio que você e eu podemos ouvir (ou já ouvimos) por aí. Não se trata de ter privilégios, mas apenas de ter respaldo e garantia equânime. Ou seja, direitos já garantidos para pessoas heterossexuais e cisgênero (saiba mais sobre esse conceito aqui) que não seguem essa mesma lógica para a comunidade LGBTI+.

 

Os números da violência são vidas e histórias interrompidas

Mas do que adiantam essas resoluções sem o acesso de boa parte da população a um atendimento adequado em delegacias quando são vítimas de agressões ou sem que denúncias possam realmente chegar aos tribunais? Um dos órgãos que tem o papel de uniformizar e racionalizar esses processos, coordenando nacionalmente o planejamento das políticas judiciárias, é o CNJ, Conselho Nacional de Justiça.

 

Na última semana, foi lançado pela instituição o relatório da pesquisa “Discriminação e Violência contra a População LGBTQIA+”, com dados de 2021 que, infelizmente, não são nada positivos:

  • Tivemos um aumento de 88% de estupros;
  • As agressões contra LGBTI+ cresceram 35,2%;
  • Houve 7,2% a mais de homicídios;
  • 7 a cada 10 pessoas LGBTI+ vítimas de homicídio eram negras;

 

Importante destacar que a população negra LGBTI+ acaba sendo a maior vítima das mortes apresentadas nesse estudo. Ou seja, há uma sobreposição do racismo e da LGBTIfobia, potencializando a motivação desses crimes de ódio, colocando essas pessoas numa situação de maior vulnerabilidade.

Além dessa pesquisa, em combate à LGBTfobia, o CNJ lançou também o formulário Registro de Ocorrência Geral de Emergência e Risco Iminente à Comunidade LGBTQIA+ (ROGÉRIA), em homenagem à artista travesti que faleceu em 2017. Ele tem como objetivo proteger pessoas da comunidade durante o registro de ocorrências nas delegacias, por exemplo. A ideia é que agentes públicos tenham mais cuidado nas abordagens e para que consigamos enfrentar e diminuir esses números tão alarmantes.

 

Pesquisas de órgãos como esse são importantes para termos números mais precisos e para que possamos, então, exigir políticas públicas direcionadas a nossa comunidade. Mas, para além das instituições, cabe a cada um de nós se posicionar contra qualquer tipo de preconceito ou discriminação no seu dia a dia, na empresa, no grupo do zap ou do futebol, com os amigos de bar, dentro da família. A educação e execução das leis são algumas das ferramentas para a transformação dessa sociedade num lugar seguro e digno para todas as pessoas LGBTI+.

 

E já que começamos nossa coluna de hoje com uma frase, vamos finalizar com outra, porém essa necessária para a mudança que queremos ver acontecer. Ela é uma das frases mais famosas do ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Desmond Tutu, arcebispo da África do Sul e um dos maiores combatentes do racismo e da segregação racial no seu país, falecido em 2021. Ele dizia: “Se você fica neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor.”

 

Os comentários estão desativados.

Leia também

Ver mais