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Varíola dos macacos e LGBTI+: informação contra a estigmatização

Por JP Polo
(Atualizado em 02/08/2022 - 13h30)
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#PraTodesVerem: JP Polo é um homem branco, gay, cisgênero, com barba preta, cabelo raspado, está sentado numa poltrona, ao fundo tem a bandeira do arco-íris na parede e, na mesinha de madeira ao seu lado, estão alguns livros e um vaso com uma folhagem verde.

 

Estigmatizar é classificar de maneira negativa, é definir rótulos para pessoas ou grupos que os condene a preconceitos e discriminações, fortalecendo, assim, a marginalização social. Mas o que isso tem a ver com a discussão atual da varíola dos macacos ou, como também tem sido chamada, Monkeypox?

Os casos da doença têm se concentrado na população LGBTI+, mais de 95% dos que já foram notificados. E, mais recentemente, o diretor geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), orientou que “homens que fazem sexo com homens” (HSH) devem diminuir o número de parceiros sexuais como um método de estancar a transmissão. Essa declaração tem como foco, sobretudo, homens gays e bissexuais, porém essa nomenclatura técnica é muito utilizada pela área de saúde pois existem muitos homens que têm relações sexuais com outros homens, mas não se identificam com tais orientações.

Se por um lado a fala da OMS tem seu valor, pelo fato da população LGBTI+ ser considerada mais vulnerável à doença nesse momento, ela também pode dar a ideia de que a varíola dos macacos seja uma doença que atinge apenas essa população, reforçando estigmas que nossa comunidade por anos vem combatendo. Lembrando: a Monkeypox pode atingir qualquer pessoa, independente da sua orientação sexual ou identidade de gênero.

Essa declaração abre a possibilidade de recriminar pessoas e suas atividades sexuais como sendo elas as responsáveis por esse surto e pela disseminação nos diversos países. Assim como foi nos anos 80 quando a epidemia do HIV e Aids foi considerada a peste gay e isso ganhou as manchetes de jornais e revistas da época. Essa estigmatização só vem grifar os preconceitos que nós já vivemos diariamente e não colabora em nada com os esclarecimentos necessários para, de maneira efetiva, combater, diagnosticar e tratar a doença. Além disso, pode gerar uma perigosa e falsa ideia de imunidade para pessoas heterossexuais e cisgêneros (ou seja, pessoas não-LGBTI+).

Outro ponto problemático dessa declaração é recomendar a abstinência sexual como uma política pública de combate a uma doença. Recentemente, no início de 2020, essa discussão também veio à tona no país, só que não com foco numa doença, mas também no entendimento de ser uma recomendação equivocada. À época, a abstinência sexual foi o mote de uma campanha federal como método para se evitar a gravidez na adolescência. A sociedade civil e outras instituições confrontaram a escolha devido a ineficácia dessa recomendação pois não há, nem mesmo, evidências científicas que comprovem o êxito da abstinência sexual como método contraceptivo.

Paralelo feito, é fundamental pensar em outros caminhos para o combate à transmissão da Monkeypox. Vale ressaltar que o Diretor Geral da OMS também fez a seguinte observação: “o estigma e a discriminação podem ser tão perigosos quanto qualquer vírus e aumentar o surto da doença”. Assim, temos que exigir uma vacinação ágil e focada nas populações com maior vulnerabilidade, ampliar a testagem, buscar tratamentos eficazes e levar informação de qualidade para todas as pessoas. O que vem acontecendo é que, com esse estigma da varíola dos macacos ser uma nova doença apenas de pessoas LGBTI+, não se fala sobre e, por ser uma comunidade já enjeitada e violentada, pouco se faz no que se diz respeito a políticas públicas amplas e de qualidade para o combate efetivo. Esse é um direito nosso enquanto sociedade.

Informação e prevenção

A varíola dos macacos é um vírus transmitido de uma pessoa para outra (reforçando: independente da sua orientação sexual e identidade de gênero), sobretudo pelo contato com as lesões, os fluidos corporais, gotículas respiratórias e materiais contaminados, como, por exemplo, roupas de banho e de cama.

A contaminação também pode se dar pelo contato com a pele durante o sexo, incluindo beijos, sexo oral e com penetração com alguém que tenha sintomas. Os sintomas são:
• Bolhas e feridas na pele, que coçam e doem;
• Febre;
• Calafrios;
• Dor de cabeça;
• Dor muscular;
• Cansaço excessivo,
• Dor nas costas.

É necessário ficar atento aos sintomas e buscar atendimento médico logo no início (Foto: Freepik)
É necessário ficar atento aos sintomas e buscar atendimento médico logo no início (Foto: Freepik)

Caso seja possível diminuir o número de parceiros, faça. E fique atento ao ciclo da doença, sua transmissão e busque auxílio médico logo nos primeiros sintomas. Importante saber que é uma doença que tem cura e a pessoa se recupera em algumas semanas. O que precisamos é de informação científica e de qualidade, séria e sem juízo de valor. Não precisamos de informação carregada de preconceito e segregação que só fortalecem os estigmas que a comunidade já sofre!

Abaixo, reproduzo um informativo divulgado e traduzido pelo médico infectologista Vinícius Borges (@doutormaravilha) e pela ONG Instituto Multiverso (@multiversoinstituto), baseado num material da NBC Chicago.

Informativo divulgado e traduzido pelo médico infectologista Vinícius Borges e pela ONG Instituto Multiverso (Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)