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Irmandade

Produção nacional da Netflix aborda, com a ficção, um tema real no Brasil

Por Gabriel Candido
(Atualizado em 16/05/2022 - 19h25)
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Série ambientada nos anos 90, Irmandade conta a história de Cristina (Naruna Costa), advogada que descobre o envolvimento do seu irmão Edson (Seu Jorge) com uma facção criminosa em ascensão. Edson é o líder do grupo e está preso, e dentro da prisão, faz com que Cristina seja pressionada pela polícia para ser uma informante.

Produzida pela O2, responsável por obras como Marighella, Cidade de Deus e Ensaio Sobre a Cegueira e com Pedro Morelli na liderança do projeto, Irmandade chega em sua segunda temporada, e ao que tudo indica, a terceira está a caminho.
Apesar de ter sido afetada pela pandemia de COVID-19, a primeira temporada, exibida em 2019, teve seu retorno acontecendo apenas nesta semana (maio de 2022), com seis capítulos.

A Netflix tem em seu histórico séries relacionadas ao tema, como por exemplo, Narcos (Colômbia e México), e é claro que o Brasil chamaria a atenção para o tema. Mas ao contrário da produção de sucesso Narcos, Irmandade é uma história 100% fictícia, apesar de inúmeros paralelos sobre a vida real.
Em um país onde as duas maiores facções criminosas (PCC e Comando Vermelho) foram criadas e estabelecidas dentro de instituições do Estado, como os presídios, era de se esperar que a série explorasse esse tema e desenvolvesse uma trama tão bem elaborada que parece a vida real.

Com um elenco que conta com Seu Jorge, Naruna Costa, Lee Taylor e Hermila Guedes, a trama conta a história de um grupo que se forma dentro de um presídio no estado de São Paulo nos anos 90. O grupo é formado para estabelecer as regras de dentro do presídio, além de fortalecer financeiramente suas ações fora da cadeia, a série aborda a criação e ascensão da facção.

Afinal, diferente dos Quartéis de Drogas da Colômbia e México, ou da Máfia Italiana nos Estados Unidos, as maiores facções criminosas do país foram estabelecidas dentro de instituições do próprio estado.

No meio dessa história existe um desenrolar familiar, que move a trama e liga os pontos e suas motivações. Apesar de focar no personagem do Seu Jorge, que brilha e rouba a atenção do espectador em todas as cenas, a personagem da Naruna carrega toda a intensidade da história.

Um dos pontos que chama muita a atenção é o nível de detalhes para criar a imersão de um Brasil dos anos 90, carregado de desigualdade social, músicas cafonas, programas policiais e de auditório (se bem que isso existe até hoje). Carros, telefones fixos e os detalhes na sinalização de rua, demonstram o investimento da Netflix em contar com o mercado brasileiro, que é bem representativo.

Com uma primeira temporada que fez sucesso fora do país, é de se imaginar que a segunda siga pelo mesmo caminho, afinal, ela é sim, melhor que a primeira e traz um novo nível para a história. E qualquer um que estuda minimamente sobre a guerra do tráfico no Brasil, sabe os rumos que aquela história pode tomar no futuro.

 

Participações especiais e trilha

Ice Blue, integrante do Racionais, e a formação original do RZO (Sandrão, Helião e DJ CIA) participam da segunda temporada. Além das participações, a série conta com uma playlist nacional de peso, como Sistema Negro, Pavilhão 9, Thaíde e Dj Hum, além da mistura do pagode anos 90 como os grupos Sem Compromisso, Só Pra Contrariar, Negritude Junior e o cantor Amado Batista.

História ficcional com um Brasil real

Apesar de a produção negar que a história seja baseada na realidade, fica impossível não fazer relação à criação do PCC. Todos os elementos estão lá, as motivações, a inércia de um estado corrupto que deixou essa brecha para que grupos tomassem conta do sistema prisional e por consequência, fora das prisões também. Principalmente na primeira temporada, que existe uma cena idêntica do que aconteceu em fevereiro de 2001 quando em uma série de rebeliões aconteceram por todo o estado de SP de fato, mostrando o PCC para o mundo.

Irmandade é um retrato de um Brasil violento, esquecido, desigual e explora em suas duas primeiras temporadas uma realidade que muitos não conhecem, ou fingem que não existe. As consequências ao retratar a vida de pessoas sendo impactadas pela violência cotidiana, a série aumenta o discurso hipócrita de ambos os setores envolvidos. A Irmandade tem tudo para gerar discussões no futuro, merece seu tempo e sua atenção, tanto pela produção, roteiro e atuações como também o debate social.

Afinal, o sistema prisional brasileiro falhou e dentro de sua falha, assistiu de camarote a criação do Crime Organizado.

*Se você assistiu e gostou, indico também o documentário “Notícias de uma Guerra Particular” de 1999, dirigido por João Moreira Salles. É antigo, um pouco datado, mas é lá que entendemos como e o porquê a guerra às drogas não funciona no Brasil.

As duas temporadas de Irmandade estão na Netflix.

Primeira Temporada:

Segunda Temporada: