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Medida Provisória

Filme marca a estreia de Lázaro Ramos na direção e conta a história de um Brasil imaginário futurista distópico, ou não

Por Gabriel Candido
(Atualizado em 18/07/2022 - 11h54)
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Da mistura de “Black Mirror” e “The Handmaid’s Tale” nasce um projeto ousado, autoral e retrata por meio de símbolos um Brasil futurista mas com conceitos atuais e longe de ser superado.

O longa traz a história de um um futuro distópico. O governo brasileiro decretou uma medida provisória, em uma iniciativa de reparação pelo passado escravocrata, provocando uma reação no Congresso Nacional. O Congresso então aprova uma medida que obriga os cidadãos negros a migrarem para a África na intenção de retornar a suas origens.

A aprovação afeta diretamente as vidas do casal formado pela médica Capitú (Taís Araújo) e pelo advogado Antônio (Alfred Enoch), e também do jornalista André (Seu Jorge), que mora com eles no mesmo apartamento. Neste apartamento, os personagens debatem questões sociais e raciais, além de compartilharem anseios que envolvem a mudança de país.

O maior destaque fica para o protagonista que não está na tela, Lázaro Ramos. Vinte anos após sua estreia no cinema nacional com o excelente “Madame Satã” (2002) dirigido por Karim Aïnouz. Lázaro agora se mostra um grande contador de história, que utiliza a ironia e a comédia mas com um peso emocional forte.

Existe um subtexto muito presente, principalmente relacionado ao racismo e um discurso racista que ainda colhe frutos dentro de um Brasil, que historicamente tenta o tempo todo apagar um passado escravagista. Aliás, vale a indicação da série de livros do excelente Laurentino Gomes (1808, 1822 e 1889), que acabou de lançar a parte três sobre a “Escravidão”.

Em algumas cenas, o subtexto fica mais explícito e traz paralelos entre o discurso que se sobrepõe aos fatos. Um dos exemplos é a cena “Rua Machado de Assis”.

Medida Provisória (Foto: Divulgação)

Inspiração

A Medida Provisória é inspirada na peça “Namíbia, não!”, que foi escrita por Aldri Anunciação e conta a história sem tratar do racismo diretamente. O texto induz o espectador a pensar sobre na medida em que acompanha o drama dos primos e o debate acerca da possibilidade de voltar para a África.

A peça teatral é um sucesso de público e crítica. O espetáculo alcançou mais de 400 mil espectadores em dez estados brasileiros. Na formação original participaram os atores Aldri Anunciação e Flávio Bauraqui. Ao longo dos quatro anos da peça, os atores Sérgio Menezes e Fernando Santana passaram a integrar o time que se revezam na interpretação dos papéis de André e Antônio.

Elenco de peso

Além de Taís Araújo, o filme tem como protagonista o ator inglês/brasileiro Alfred Enoch que para quem não se lembra, esteve nas adaptações de Harry Potter nos cinemas.

Mas, quem chama o tempo todo a atenção em cena, seja nas cenas cômicas ou no drama, é o Seu Jorge. Representa toda a ironia do contexto, mas ao mesmo tempo, carrega o peso emocional.

Medida Provisória (Foto: Divulgação)

Premiações

Medida Provisória ganhou o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cinema de Memphis, nos EUA, e foi exibido no Festival de South By Southwest, um dos mais importantes eventos de arte e tecnologia do mundo.

Afrofuturismo

Em determinado momento, o filme aborda sobre o afrofuturismo, que é um movimento cultural, estético e político que se manifesta no campo da literatura, do cinema, da fotografia, da moda, da arte, da música, a partir da perspectiva negra, e utiliza elementos da ficção científica e da fantasia para criar narrativas de protagonismo negro, por meio da celebração de sua identidade, ancestralidade e história.

Em geral, obras pertencentes a este movimento procuram retratar um futuro grandioso, caracterizado tanto pela tecnologia avançada quanto pela superação das condições determinadas pela opressão racial, dentro do contexto da vivência africana e diaspórica.

Cinema Brasileiro de alta qualidade

É nítido as inspirações que Lázaro teve para realizar sua estréia, existe ali uma inspiração do Cinema Novo de Glauber Rocha (que um dia terá um texto aqui), um cinema simples, mas extremamente crítico e como é bom ver o cinema brasileiro forte e que venha mais.

É óbvio que o filme receba uma série de críticas, principalmente de uma camada mais reacionária, que é bem grande e presente em nosso país, mas concomitantemente, traz a reflexão necessária que é super importante, que jamais deverá ser simplificada em apenas “mimimi”. É um debate forte e necessário, de um país que se moldou com os 388 anos de escravidão.

Ouvir Elza Soares em uma das cenas finais do filme é de uma força e emoção de arrepiar (Elza Soares – O Que Se Cala).

Medida Provisório é essencial para a discussão, em ambos os lados, traz um Brasil “futurista” mas tão presente nos dias atuais. Com 1h34 o filme faz uma reflexão necessária e essencial.

Medida Provisória está no catálogo do Globoplay.