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Por Padre Beto
(Atualizado em 19/08/2022 - 8h39)
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Em uma das hilariantes sequências da ótima comédia “A Vida de Brian”, do grupo Monty Python, o protagonista Bryan, um contemporâneo de Jesus Cristo, é perseguido por uma multidão convencida de que ele é o messias.

Em um determinado momento, Bryan afirma categoricamente diante do grupo: “Não sou o messias! Querem me ouvir, por favor? Não sou o messias! Será que entendem?”

O silêncio toma conta da multidão até o exato momento em que uma mulher lembra a todos: “Só o verdadeiro messias nega a sua divindade!”

Bryan não vendo mais como se livrar da situação responde desesperadamente: “O que? O que posso fazer? Pois bem, sou o messias!”

A multidão admirada proclama: “Ele é! É o messias!”. O grupo Monty Python satiriza nesta sequência não exatamente a atitude dos semitas da época de Jesus Cristo, mas sim a necessidade que a sociedade moderna possui de controlar todos os indivíduos exigindo deles uma definição de papéis, ou seja, uma declaração, uma confissão clara de sua identidade.

Segundo Michel Foucault, desde a Idade Média, as sociedades ocidentais colocaram a confissão entre os rituais mais importantes de que se espera a produção da verdade.

Vários fatores contribuíram para dar a ela um papel central na ordem dos poderes civis e religiosos: a regulamentação do sacramento da penitência pelo quarto Concílio de Latrão (1215); o desenvolvimento das técnicas de confissão que vem em seguida; o aperfeiçoamento na justiça criminal dos métodos de interrogatório e de inquérito, a instauração dos tribunais de Inquisição. Enquanto na Antiguidade a confissão significava a garantia de status, de identidade e de valor atribuído sempre a alguém por outra pessoa, na modernidade a confissão passou a ser uma declaração de alguém sobre suas próprias ações e pensamentos.

O indivíduo, durante muito tempo, foi autenticado pela referência dos outros e pela manifestação de seu vínculo com outra pessoa, instituição ou atitude (família, lealdade, proteção), posteriormente passou a ser autenticado pelo discurso de verdade que era capaz de (ou obrigado a) ter sobre si mesmo.

Assim, por um sistema religioso e civil de poder, a confissão da verdade se inscreveu no cerne dos procedimentos de individuação, passando a ser, no ocidente, uma das técnicas mais altamente valorizadas para produzir a verdade.

Desde então criamos uma “cultura confessanda” e o homem do ocidente tornou-se um homem confidente. A confissão, então, difundiu amplamente seus efeitos: na justiça, na medicina, na pedagogia, nas relações familiares, nas relações amorosas, na esfera mais cotidiana e nos ritos mais solenes; confessam-se os crimes, os pecados, os pensamentos e os desejos, confessam-se passado e futuro desejado, confessa-se a infância, confessam-se as próprias doenças e misérias, emprega-se maior exatidão para dizer o mais difícil de ser dito, confessa-se em público, em particular, aos pais, aos educadores, ao médico, àqueles a quem se ama. Confessa-se ou se é forçado a confessar.

Nas sociedades modernas, a obrigação da confissão já está tão profundamente incorporada a nós que não a percebemos mais como efeito de um poder que nos coage, parece-nos, ao contrário, que a verdade, na região mais secreta de nós próprios, não exige nada mais que revelar-se.

Como um ato social, a confissão necessita no mínimo da presença de duas pessoas ainda que às vezes o destinatário esteja oculto e impreciso, como no caso dos diários.

Na formação da palavra (con-fessare) pode ter havido a influência de outras expressões como “fessus caede” (cansado de matar), “fessus aetate” (cansado de viver).

O confidente estaria cansado de ocultar e resolveria abrir-se para ser melhor entendido. De qualquer forma, o ato de confessar-se é sempre um ritual de discurso onde o sujeito que fala coincide com o sujeito do enunciado; é também, um ritual que se desenrola numa relação de poder, pois não se confessa sem a presença ao menos virtual de um parceiro que não é simplesmente o interlocutor, mas a instância que requer a confissão e intervém para julgar, punir, perdoar, consolar, reconciliar.

Diferente da Antiguidade, onde a consulta a uma autoridade, a um mestre, rabino, sábio ou filósofo consistia na orientação de vida, no conselho para a aplicação de técnicas que levassem à felicidade, qualquer ato de confissão hoje está intimamente ligado à culpa, justificação, autodefesa e reconciliação de um vínculo social ou religioso que foi de alguma forma quebrado.

O mais negativo da necessidade de confissão é o outro lado da moeda: autoritarismo social. O coletivo não somente impõe regras de conduta, mas também promove a invasão da individualidade.

 

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