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Direito de violar, uma narrativa nos tempos de todos os tempos

Por Drika Martim
(Atualizado em 28/07/2022 - 13h10)
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Não é de hoje que violar uma mulher é algo rotineiro na sociedade mundial e na história da humanidade.
Ser mulher, ao menos nesse plano terreno no qual vivemos, para além de ser uma luta diária e um ato de resistência, em muitos casos também é uma tortura constante e um terrorismo que consome a alma só pelo falo de ser quem sou e quem somos.
Ser mulher é algo único, seja nas dádivas ou nos infernos pessoais e coletivos de cada dia.
⁃ Por falar em coletivo, ô inferno que é ser mulher nos coletivos, sejam eles sobre rodas ou trilhos! Que mundo!
Me incomoda o fato de ser recorrente a necessidade de reforçar a realidade da mulher, ainda mais num país que insiste em nos objetificar, nos cortando em pequenas partes que possam se traduzir em seios, bundas e outras coisas mais, que preencham a satisfação de homens perversos, pervertidos, patológicos e naturalmente tarados.
Olha gente, minha vida, a vida das mulheres como um todo, não anda nada fácil.
Se não nos matam, nos violam, nos agredirem e nos destroem, as vezes pela simples satisfação de o fazer, e de nos ter como algo, mas nunca como alguém.
Hoje me deparei com uma mulher negra, jovem, cheia de vida e resistente feito aço, denunciando o assédio sexual de um cara, que se dá o direito de “elogiá-la” dizendo que queria fazer amor com ela. Aí eu pergunto: isso é elogio? Quantas de nós passamos por isso diariamente? Até quando indivíduos irão se apropriar da nossa liberdade e da nossa intimidade querendo invadi-la a qualquer custo?
Eu estava suficientemente “contente” com o ato repugnante que tomou conta da agenda social na última semana, quando um indivíduo que certamente, por diversas vezes foi chamado de Doutor, se permitiu violar uma mulher no momento de maior vulnerabilidade, e no momento que de certo seria o mais feliz e mais importante da vida dela. Sim, ele não perdoou nem mesmo aquela fração de tempo, que talvez fosse a de maior segurança e de maior realização, e sim, ele fez questão de destruir qualquer possibilidade que ela pudesse carregar de que aquilo fosse algo grandioso como deveria ser.
Numa mesa de cirurgia, desacordada, confiando no coletivo de pessoas que estão ali para cuidar de nós, um demônio ocupa espaço entre pessoas, como um rato, trilha seu caminho e corrompe o que vê pela frente.
Infelizmente esses não são fatos isolados, são rotina, são realidades, muitas vezes escondidas, veladas e ocultadas, mas que precisam ganhar visibilidade pois nós precisamos dizer: BASTA!
Nossa cruz ou fardo é pesado, cansativo e sufocante. Nossa cruz vem sendo trazida ao longo da história, sem uma única possibilidade de que ela seja anulada de nossa trajetória mundial.
O direto de nos violar é ainda mais amplo que o nosso direito à vida, à dignidade, à educação, aos sonhos e a ser feliz. Nosso direito em ser mulher e ser livre ainda esbarra no direito daqueles que optam por nos violar e não são punidos, isso quando não nos tiram da condição de vítima e nos fazem as vilãs da história. Numa história de ficção de muito mau gosto, certamente diriam que o estuprador da mulher na sala de parto, foi provocado pelos lábios expostos e convidativos dela, ou ainda, que os cabelos da mulher negra e suas costas estavam dialogando com o tarado, dizendo coisa obscenas para ele. Sim, a inversão se constrói com muito mais facilidade do que o apoio, a empatia ou a compaixão pelas mulheres vítimas de qualquer tipo de violência.
Nossa narrativa, nos tempos de todos os tempos é sempre a mesma, mulher, menina, adolescente, idosa ou adulta, desde cedo e no mais tardar, é sempre um alvo de uma sociedade que ainda não aprendeu a nos respeitar.
Inúmeras e incontáveis são as histórias, do “direito de nos violar”, seja na mutilação de meninas como Waris Dirie, ou seja, na infância interrompida de uma menina negra, feita de incubadora, por um projeto de justiça malsucedido, que relativiza o estupro como algo a ser tratado como rotineiro e normal.
Me perdoem o grande desabafo, mas estou cansada, porém não morta e sei que juntas vamos continuar a lutar!
“Minha luta diária é para ser reconhecida como sujeito, impor minha existência numa sociedade que insiste em negá-la.” Djamila Ribeiro