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O benefício eleitoral e a caridade natalina

De um cenário em que mais de 800 milhões de pessoas passam fome no mundo todo, 61 milhões são brasileiras

Por Drika Martim
(Atualizado em 19/08/2022 - 20h23)
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**AVISO AOS NAVEGANTES** Não há aqui qualquer tentativa de desqualificar os benefícios, que são muito necessários e que atuam como reparadores parciais dos diversos problemas enfrentados por milhares de pessoas em todo o país. Distante de mim está a pretensão de criticar o que é devido, cabendo-me apenas a vontade de alcançar um voto à sua consciência, de que a miséria não é pontual, mas sim, diária e constante.

Mas antes que comece o cancelamento e que os haters me façam de “judas” a ser malhado, deixo aqui meu singelo recado! Gente, esses dias tenho trabalhado muito e estou em meio a uma ação da CUFA, que a nível nacional, tem buscando diminuir os riscos da insegurança alimentar de milhares de brasileiras e brasileiros.

Meus últimos dias foram amassando barro nas favelas de Sorocaba e região, levando vouchers de gás de cozinha, para garantir um pouco mais de segurança e dignidade às pessoas. Há aproximadamente um mês, as Nações Unidas, por meio da FAO – a agência que cuida das questões alimentares e de agricultura – apresentou o mapa mundial da fome e logicamente, o Brasil voltou a ser destaque nesse cenário.

(Foto: Arquivo pessoal)

De um cenário em que mais de 800 milhões de pessoas passam fome no mundo todo, 61 milhões são brasileiras e brasileiros, que estão lutando para ter o que comer, muitas vezes não sabendo quando será sua próxima refeição.

De fato, não há grandes novidades nas informações que trago, afinal, a fome é sistêmica e está muito presente em todos os cenários sociais do nosso cotidiano. Se observamos que as ruas e praças estão cada vez mais tomadas de pessoas em situação de rua e também o aumento substancial das ocupações e do número de barracos nas favelas, aí teremos um panorama cada vez mais preocupante, cujos caminhos para a solução, são cada vez mais complexos. Isso, pelo fato de estarem atrelados à questões de saúde, geração de renda, habitação, educação, entre tantos outros elementos que ausentes, que violam e marginalizam pessoas a todo momento.

(Foto: Arquivo pessoal)

Diante desse todo que eu trago para vocês, a minha dor, em muito se concentra na exploração da fome e da miséria como um projeto político. Afinal, benevolência e piedades pontuais, atenuam a dor da barriga vazia, a qual não se resume em dias ou meses. De todos os anos como ativista social, uma das lutas que tenho travado é a desconstrução do assistencialismo oportuno, bem como, da penitência que leva à piedade natalina.

– Caraca Drika, que por** é essa que você tá dizendo?

-Então, minhas caras e meus caros, digo que são caros, os custos da falta de políticas públicas que garantam dignidade igualitária em nosso país e que custam vidas, sonhos e a esperança de muita gente.

Aquilo que não repara os danos e não viabiliza mudanças significativas, dependendo da circunstância, eu considero como algo oportuno, e, para mim, é muito oportuno que muitas pessoas atreladas ao senso comum busquem diluir seus erros diários, de 300 e poucos dias em um ano, acreditando que momentos de caridade virão a reparar tudo aquilo pelo que optaram por não oferecer a si mesmos, como alternativa à uma vida egoísta e individualista.

(Foto: Arquivo pessoal)

Ou seja, tenho meu respeito às pessoas que fazem algo, independente de qualquer coisa. Respeito todo olhar para com o outro e todo olhar para a miséria. Mas muito me incomoda o marketing social de indivíduos e organizações que buscam se escorar no sentimento secular de que o Natal é um momento de amor ao próximo e de caridade. Momento oportuno, não? Gente, a fome não começa amanhã e termina uma semana depois.

A fome perdura e se alastra vagarosamente por todas as vulnerabilidades da nossa sociedade, garantindo “baixas” de uma das maneiras mais cruéis que vemos no mundo. Sendo assim, muito importa a nossa visão para o todo anual, das questões que nos cercam e que podem receber a nossa contribuição além do período do Natal, seja ajudando entidades com doações e voluntariando, ou ainda denunciando e pressionando as autoridades para garantirem o básico para toda as vidas ao nosso redor.

E essas ações podem ser feita diariamente, e causam grandes transformações a médio e longo prazo, distanciando-se da pontualidade que deixa um vácuo muito maior do que podemos imaginar.

Na mesma toada, digo que “peru de Natal” é algo que deve ser muito além do que parece e da mesma forma, o despejo assistencialista que diz resolver algo, no fim não passa de uma operação tapa-buracos daquelas com terra, que a chuva leva nos primeiros momentos.

(Foto: Arquivo pessoal)

Para combater o contraste social e a fome, não é com um cheque marcado com o mesmo número da “urna eletrônica” que as coisas ganharão corpo e se consolidarão em algo permanente e que transforme, realmente, as vidas daqueles que mais precisam.

O benefício é benéfico quando há planejamento e compromisso, e quando há políticas públicas para a viabilização de investimentos que gerem emprego e estabilidade econômica para a vida de todas e todos.

Somente assim, o benefício se torna parte de algo, sendo um reparador de danos mais profundos e também uma ponte para as mudanças necessárias para todo o país.

Mais uma vez, não é pela promessa oportuna de um auxílio temporal, sem grandes programas paralelos que criem oportunidades para a nação, que teremos transformações no cenário de que 3 em cada 10 brasileiros não tem a garantia do prato à mesa e a panela cheia.

Então, os auxílios são necessários, mas jamais devem ser recursos para manobras eleitoreiras. Afinal, deve haver planejamento público para que, na próxima página, não exista apenas a lembrança de algo que foi “bom por um tempo, mas que acabou e de leva, garantiu um convite para que a miséria volte a se sentar à mesa.