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Motociclista sorocabano fugiu dos EUA para não ser morto

Depois de infringir as regras de um clube de motociclistas americano, um jovem morador de Sorocaba foi jurado de morte e precisou fugir às pressas de um encontro

Por Rubens Maximiano
(Atualizado em 01/08/2022 - 16h21)
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Na década de 1980 não havia internet. Os meios de comunicação da época eram, basicamente, rádio, TV, jornal e revista. E foi justamente por meio de uma revista especializada que o jovem sorocabano MF (vamos chamá-lo dessa forma) conheceu um clube de motociclistas americano chamado Jokers.
Aficionado por motociclismo, MF estava encantado com o estilo de vida dos americanos e passou a se corresponder com os associados do Clube.
Depois de várias trocas de correspondências, o sorocabano foi ganhando a simpatia dos americanos. O ápice da relação, foi quando a confraria dos Jokers ofereceu a MF a “honra máxima” de fazer parte do grupo.
A partir daquele momento MF poderia ostentar a “honrosa” insígnia (patch) dos Jokers, que era uma alusão ao coringa, o palhaço do mal das histórias em quadrinhos. Orgulhoso pela aceitação, o motociclista da cidade tratou de costurar o patch na lapela do seu casaco mais vistoso.
Poucas pessoas conheciam os clubes de motociclistas naqueles anos. A única informação que se tinha era sobre os Hells Angels, uma famosa organização de motociclistas da Califórnia, criado em 1948.
O grupo se caracterizava pela utilização de motocicletas exclusivamente americanas, especialmente as Harley Davidson. Tinham o hábito de cortar e aumentar o garfo e também de substituir o guidão original por um outro, produzido artesanalmente, bem maior e mais alto.
Eram conhecidos como “choppers”. O nome era uma referência ao verbo inglês to chop, que também significa cortar ou segmentar. Ou seja, os chopers eram os segmentadores de garfos das motos. Mais tarde a indústria de motocicletas percebeu o desejo do consumidor por esse tipo de motocicleta e passou a customizar o estilo.
Outra característica dos clubes era a utilização de casacos pretos de couro, calças jeans, cintos com fivelas personalizadas e botas de cano longo.
Para o Departamento de Justiça americano, o grupo era suspeito de compor uma organização criminosa, embora, nos últimos anos o Hells Angels tenha feito vigorosos esforços para romper essa imagem negativa, realizando até ações sociais de caridade.
Na medida do possível, o Joker sorocabano ia se adaptando ao estilo dos colegas americanos. Comprou um casaco preto de couro, mandou fazer botas de cano longo, possivelmente na requisitada sapataria do Zé Betti (irmão do ator Paulo Betti), forjou uma fivela prateada com uma estrela de cinco pontas e deixou o cabelo crescer.
O problema era a moto. Naquela época era proibido importar veículos. As únicas motos americanas que se via nas ruas, eram as Harley Davidson, de batedores da polícia militar ou de algum corpo diplomático. Quando esses veículos envelheciam eram feitos leilões para o consumidor civil.
A única solução encontrada por MF foi adaptar a Honda Turuna 125cc ao padrão chopper. Esticou os garfos, levantou o guidão, personalizou a pintura e pendurou no bagageiro duas sacolas em couro preto, confeccionadas sob encomenda, conhecidas como alforge.
Já tinha o emblema do clube, as roupas, a bota e a moto. MF era, finalmente, o representante dos Jokers, em Sorocaba.
A amizade com os colegas americanos foi crescendo. Depois de muitas correspondências e alguns telefonemas, MF foi convidado a participar do encontro anual do Clube em Daytona, na Flórida.
Como o convite foi feito com antecedência, MF tratou de economizar nos meses que antecederam o evento. Basicamente só precisava do dinheiro da passagem aérea, porque um dos associados, conhecido como Fat Jack, se solidarizou com o motociclista sorocabano e ofereceu sua casa durante o período da festa.
Fat Jack era bastante conhecido nos clubes americanos. Era um típico chopper: barbudo, muito gordo, casaco de couro o tempo todo, fumante e pouco afeito a higiene pessoal. Pelo peso avantajado e a vida sedentária, respirava com dificuldade e não conseguia dormir deitado. Passava as noites sentado numa poltrona num canto da sala, ao lado de uma mesinha redonda, onde ficava a garrafa do Jim Beam e um cinzeiro abarrotado de bitucas de cigarro.
A medida em que ia conhecendo os outros associados do Clube, o nosso amigo sorocabano foi se soltando. MF já havia morado nos Estados Unidos durante a adolescência, num intercâmbio estudantil, por isso falava inglês com fluência.
Foi nesse momento que o incauto motociclista começou a correr riscos. Um dos pontos altos da festa é a fogueira de motos japonesas. Os choppers odiavam motos orientais. Por isso empilhavam dezenas delas, jogavam gasolina e vibravam com a calorosa comemoração.
Com as chamas refletindo luzes alaranjadas nos rostos dos coringas em êxtase, ao redor da fogueira, MF confidenciou a um dos colegas que a sua moto era justamente uma Honda, adaptada ao estilo chopper, igual aquelas que estavam sendo queimadas. A revelação caiu como uma bomba. A história do brasileiro que fazia parte do clube e que tinha uma Honda foi ganhando contornos de drama.
Ao fim da noite quando voltou à casa do anfitrião americano, MF foi recebido como um espião infiltrado que acaba de ser descoberto. Suas roupas estavam jogadas num canto ao lado da mala. Em poucas palavras Fat Jack recomendou ao sorocabano que deixasse os Estados Unidos imediatamente, porque um grupo de executores estava a procura dele. MF havia cometido a maior infâmia possível ao utilizar a insígnia do Clube, montado numa Honda. A pena para esse tipo de desonra era uma só: a morte.
Fat Jack arrancou a insígnia do casaco do visitante, como fosse a cerimônia de degradação militar, e declarou em tom marcial, que ele era indigno do privilégio de pertencer ao Clube.
MF terminou de fechar a mala na rua. Chegou no aeroporto pouco antes dos ex-colegas enfurecidos, que por razões obvias foram proibidos de entrar na área de embarque.