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Após gelo diplomático, Bolsonaro e Biden se reunirão pela 1ª vez

Uma extensa lista de tópicos é mencionada por diplomatas brasileiros quando o assunto é o encontro bilateral, mas os aliados de Bolsonaro sabem que o que pode render manchetes é a conversa sobre eleições no Brasil

Por Estadão Conteúdo
(Atualizado em 09/06/2022 - 10h12)
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Diferentes no estilo e na visão política, os presidentes Jair Bolsonaro e Joe Biden terão seu primeiro encontro hoje em Los Angeles. Se tudo der certo nas previsões do Itamaraty e da Casa Branca, o encontro será lembrado apenas pela foto dos dois presidentes juntos. A reunião foi articulada às pressas e não houve a costura de uma agenda comum.

Biden evitou qualquer contato com Bolsonaro desde que assumiu a Casa Branca, em janeiro de 2021, mas se dobrou à ideia de um encontro bilateral com o brasileiro na iminência de sediar uma Cúpula das Américas esvaziada. Garantir a reunião foi a forma como encontrou para atrair Bolsonaro, que até então se sentia desprezado pelo americano.

Uma extensa lista de tópicos é mencionada por diplomatas brasileiros quando o assunto é o encontro bilateral, mas os aliados de Bolsonaro sabem que o que pode render manchetes é a conversa sobre eleições no Brasil. Bolsonaro coloca em xeque a legitimidade da eleição de Biden, como cópia do discurso de seu ídolo, o ex-presidente Donald Trump. Também seguindo o exemplo do republicano, o presidente brasileiro ataca o sistema eleitoral do Brasil, o que preocupa a Casa Branca.

Nos anos em que Trump era presidente, Bolsonaro teve três amigáveis reuniões com o americano, incluindo uma recepção oficial na Casa Branca, algo que Biden nunca ofereceu.

 

Eleições

De nenhum dos lados há a expectativa de que seja um encontro de “caneladas”, mas Biden não deve se furtar aos assuntos incômodos, segundo a Casa Branca.

O conselheiro de Segurança Nacional, Jake Sullivan, afirmou ontem que o americano tratará da questão de eleições “abertas, livres, justas, transparentes e democráticas” no Brasil. Parlamentares do Partido Democrata e ativistas ainda pedem que Biden cobre Bolsonaro um posicionamento a respeito do desaparecimento do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira na Amazônia.

A Casa Branca também quer tratar da questão ambiental, cara ao governo Biden. Segundo Sullivan, é uma área onde pode haver progresso concreto na relação entre os dois países.

Diplomatas próximos a Bolsonaro dizem que o presidente está pronto para comentar bons resultados do Brasil na questão, adotados desde abril do ano passado, após pressão dos americanos pelo compromisso com metas concretas para reduzir o desmatamento. Diplomatas brasileiros argumentam que a reunião poderia desfazer a imagem de que Bolsonaro é um pária internacional.

 

Biden e América Latina

O logo da Cúpula das Américas virou uma piada nos corredores do evento em Los Angeles. Na imagem, triângulos formam o mapa da região, segundo um embaixador presente, o retrato do encontro: cada figura apontando para lados diferentes. Para analistas e diplomatas, a ausência de uma estratégia americana revela que a América Latina não é uma prioridade para os EUA.

“A América Latina é a parte do mundo que tem recebido menos atenção e não é priorizada”, diz Ian Bremmer, fundador da consultoria Eurasia Group. A desorganização dos americanos é citada por representantes de governos como uma demonstração de pouco engajamento com a região.

 

Agenda

A definição da agenda, diretrizes logísticas para circular no local e outros acertos considerados praxe no dia a dia desse tipo de evento foram articulados de última hora. Documentos de conteúdo dos assuntos tratados foram apresentados aos países pouco antes do encontro, segundo diplomatas. Na véspera da chegada de Joe Biden, ninguém sabia direito o que esperar.

A cúpula não mudará a diretriz da política externa americana e não servirá para dar sinal de unidade regional. Dias antes, a Casa Branca se recusava a confirmar a lista de convidados. Ao excluir Cuba, Venezuela e Nicarágua, Biden provocou ausências marcantes, como a do mexicano Andrés Manuel López Obrador. Não fossem as confirmações de última hora de Jair Bolsonaro (Brasil) e Alberto Fernández (Argentina), o encontro ficaria esvaziado.

A política externa americana está concentrada no Hemisfério Norte: a parceria europeia e com a Otan, a guerra na Ucrânia e a busca por uma estratégia na Ásia na disputa com a China. Em casa, Biden enfrenta inflação alta, queda nos índices de aprovação e a possibilidade de perder a maioria no Congresso na eleição legislativa de novembro.

Os EUA sediam a reunião pela primeira vez desde o lançamento do fórum, em 1994. Na época, 34 líderes se reuniram em Miami. A exceção foi Cuba. De um lado, os EUA buscavam expandir comércio e investimentos, sob a euforia do recém-assinado Nafta. Do outro, uma onda de redemocratização e abertura comercial dava impulso a uma reunião que lançaria a ideia da criação da área de livre-comércio das Américas (Alca). “Era um período em que a OEA adotava medidas para combater ameaças à democracia”, disse Mark Feierstein, da consultoria Albright Stonebridge Group, ex-assessor da Casa Branca.

 

Parceria

Para a cúpula deste ano, Biden anunciou o que chamou de “Parceria das Américas para Prosperidade Econômica”. “Um novo acordo histórico para impulsionar nossa recuperação e o crescimento da economia regional”, descreveu a Casa Branca.

A proposta é parecida com a apresentada para a região Indo-Pacífico e não inclui uma expansão clara do fluxo de comércio e investimentos. A ideia é fortalecer cadeias de produção e incluir questões sociais e ambientais na pauta.

“Não há vontade política de ampliar o acesso ao mercado americano. Se Biden não puder prover isso, há pouco o que avançar em comércio, que é uma das duas prioridades para a região. A outra é imigração”, disse Bremmer.

“Os americanos falam em construir infraestrutura resiliente, sustentabilidade, são todas coisas legais, mas é o tipo de coisa que você anuncia quando não tem uma agenda.”

 

Gasto inteligente

Questionado por jornalistas sobre o fato de os EUA não se comprometerem com investimentos na região, o conselheiro de Segurança Nacional, Jake Sullivan, defendeu a política do governo e disse que a Casa Branca pretende gastar dólares apenas para produzir “resultados tangíveis”.

“Quando você soma tudo e observa o impacto prático que as ações dos EUA na cúpula terão, você verá que elas são mais impactantes na vida cotidiana e na subsistência dos povo da região do que os projetos extrativistas da China”, disse.